Ou Você Domina a Inteligência Artificial ou Ela Dominará Você: Especialistas da USP Detalham Por Que o Letramento em IA é Essencial Para Evitar Manipulações e Proteger Seus Dados na Era Digital

A inteligência artificial (IA) já não é mais uma promessa futurista, mas uma realidade onipresente em nosso cotidiano. Seja no ambiente de trabalho, nas salas de aula, nos hospitais ou nos aplicativos de nossos celulares, a IA atua como um recurso que, embora intuitivo, exige cautela e conhecimento. Especialistas da Universidade de São Paulo (USP) sublinham a importância de um letramento contínuo em IA para que os usuários possam dominar essa tecnologia, em vez de serem dominados por ela.

O Perigo da Plausibilidade: Por Que a IA Pode Enganar?

Márcia Azevedo Coelho, pesquisadora colaboradora na Cátedra Alfredo Bosi de Educação Básica do Instituto de Estudos Avançados da USP, alerta que a maioria das pessoas já utiliza a IA, muitas vezes sem a orientação adequada. Ela destaca que a IA generativa e de conversação, em particular, opera com base na plausibilidade, e não necessariamente na veracidade. “Ela [a IA] dificilmente vai chegar e vai falar assim: ‘Olha, isso eu não sei’. Como ela trabalha com plausibilidade, ela vai gerar para mim uma resposta muito plausível, muito coerente, mas talvez nada verídica”, explica Márcia.

Essa característica torna crucial o entendimento de como esses sistemas funcionam, especialmente quando se trata de interações que podem levar a informações incorretas ou enganosas. O professor Fernando Osório, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação de São Carlos da USP, reforça que o desconhecimento sobre o bom uso da IA torna as pessoas vulneráveis a golpes, como as “deepfakes” – montagens artificiais criadas para enganar. “Se eu entender sobre a IA, eu posso evitar cair em golpes ou ser manipulado pela IA”, pontua o professor.

O Domínio das Big Techs e o Impacto Social

Márcia Azevedo Coelho enfatiza que o letramento em IA não é um curso com fim, mas um processo constante, dada a capacidade de atualização contínua da tecnologia. Uma das questões fundamentais, segundo a pesquisadora, é o domínio das grandes empresas de tecnologia, as “big techs”, sobre esses recursos. O Large Language Model (LLM), por exemplo, é um tipo de IA amplamente utilizado em chatbots e redes sociais, que processa uma vasta quantidade de dados para interagir com usuários em linguagem natural.

A natureza proprietária dessas tecnologias levanta preocupações significativas. “A gente está em uma sociedade em que todos os nossos dados estão sendo compartilhados e estão alimentando sistemas de empresas privadas”, observa Márcia. Além disso, a forma como a IA “corrige” a linguagem dos usuários pode impactar a percepção individual sobre a própria expressão, levando a uma potencial padronização ou desvalorização de certas formas de comunicação.

Letramento em IA: Mais Que Simplesmente Usar

Aprender a usar a IA vai além da simples “alfabetização” tecnológica. Márcia Azevedo diferencia a alfabetização, que seria a capacidade de codificar e decodificar informações, do letramento em IA. Este último implica uma compreensão profunda da utilização dos recursos, incluindo seus impactos sociais, cognitivos, a estrutura dos sistemas e as assimetrias de poder envolvidas. O impacto cognitivo, em particular, refere-se à delegação excessiva de atividades intelectuais à IA, transformando o usuário em assistente da máquina, em vez de o contrário.

No entanto, a IA possui um lado positivo inegável. Ela pode ser uma ferramenta poderosa para aumentar a produtividade e automatizar tarefas repetitivas, liberando tempo para atividades que demandam maior investimento intelectual. “Processos também repetitivos, que muitas vezes a gente não precisaria estar fazendo porque são muito repetitivos e demandam tempo, um tempo que poderia estar sendo melhor utilizado”, destaca Márcia.

Dominar ou Ser Dominado: A Urgência do Conhecimento

Fernando Osório reitera a máxima: “ou você domina a IA ou ela vai dominar você”. Para ele, essa frase não é apenas um efeito retórico, pois a IA tem o poder de manipular pessoas, influenciar opiniões e gerar um forte impacto político, social e econômico. Compreender a IA é fundamental para utilizá-la em benefício próprio – na saúde, no trabalho e no dia a dia – mas também para evitar ser manipulado por notícias falsas e outras formas de desinformação que podem, inclusive, influenciar resultados eleitorais.

Onde Buscar Conhecimento Confiável em IA

A busca por conhecimento sobre IA deve ser feita de forma crítica, selecionando fontes adequadas e bem reputadas. Osório salienta a importância de universidades e centros de pesquisa como fontes confiáveis de informação e atualização. No caso da USP, ele menciona o Center for Artificial Intelligence (C4AI) e o Centro de IA e Aprendizado de Máquina (CIAAM), que regularmente promovem palestras, seminários e cursos de extensão sobre o tema. O Instituto de Estudos Avançados (IEA), nos campi Butantã e Ribeirão Preto, também oferece cursos relevantes. A seleção crítica de conteúdos e fontes é, portanto, parte integrante do letramento em IA e digital.

Fonte: jornal.usp.br

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