Obesidade Global: Estudo Inédito da Nature Desafia ‘Epidemia’ e Revela Tendências Contrastantes entre Países Ricos e em Desenvolvimento

Uma vasta análise global da dinâmica da obesidade, publicada na renomada revista Nature, revela que a condição não se comporta de maneira uniforme em todo o mundo, contestando o termo “epidemia global” para descrever o fenômeno. O estudo, que abrangeu dados de 197 países de 1980 a 2024, destaca tendências heterogêneas influenciadas por gênero, faixa etária e fatores sociais, econômicos e tecnológicos.

A pesquisa, conduzida pela rede internacional NCD Risk Factor Collaboration (NCD-RisC) e envolvendo quase dois mil cientistas, utilizou um conjunto de dados massivo de 4.050 estudos de base populacional, com 232 milhões de participantes. Majid Ezzati, professor do Imperial College London e um dos autores correspondentes, explicou que a intenção foi explorar a complexidade por trás do enquadramento único e uniforme de “epidemia global”. “Se analisarmos detalhadamente países individuais, em vez de observarmos períodos longos, de quatro ou cinco décadas, podemos ver que houve uma grande mudança na forma como a obesidade está se comportando, que não se encaixa exatamente no quadro de epidemia global”, afirmou.

O Termo ‘Epidemia’ em Xeque

A crítica ao termo “epidemia” é central para o estudo. Segundo o médico Paulo Andrade Lotufo, professor da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e coautor do trabalho, “epidemia implica atingir a todos, independentemente do controle individual, como ocorreu com a covid-19. O aumento da obesidade é um fenômeno mundial, com diferenças regionais significativas”. Ele ressalta que o grande marcador é social em todos os lugares do mundo, observando uma desaceleração do aumento da obesidade em países mais ricos e uma aceleração em países pobres.

Alicia Matijasevich, também professora da FMUSP e coautora do artigo, complementa que chamar o fenômeno globalmente de “epidemia” pode mascarar essas diferenças importantes, simplificando excessivamente um processo complexo e dinâmico. A obesidade foi definida pelo Índice de Massa Corporal (IMC) de 30 kg/m² em adultos, e por critérios específicos para crianças e jovens, alinhados à Organização Mundial da Saúde (OMS).

Desaceleração e Estabilização em Nações Desenvolvidas

O estudo revelou que a prevalência da obesidade, ou seja, a proporção da população com a condição, e a velocidade de sua mudança variam significativamente. Países de alta renda, como os da Europa Ocidental, América do Norte e Australásia, viram um aumento inicial da obesidade nos anos 1980, mas a maioria conseguiu estabilizar essas taxas. Na Europa Ocidental, por exemplo, a prevalência se estabilizou entre 11% e 23% para adultos e 4% e 15% para crianças e adolescentes.

Nações como Dinamarca, Islândia, Suíça, Bélgica e Alemanha foram pioneiras na desaceleração. O Japão, por sua vez, apresentou um aumento menos acentuado e estabilizou em prevalências mais baixas, especialmente entre as mulheres. Contudo, alguns países de alta renda, como Finlândia, Austrália e Suécia, continuaram a registrar aumentos constantes ou acelerados. Mesmo nos Estados Unidos, onde os casos pararam de crescer, a obesidade estabilizou em prevalências endêmicas preocupantes, entre 19% e 25%.

Essas diferenças não são explicadas apenas por fatores gerais como alimentos ultraprocessados ou sedentarismo. Normas culturais, status socioeconômico e acesso à saúde desempenham papéis cruciais. Majid Ezzati apontou que mudanças nos papéis sociais das mulheres, como maior autonomia e participação no trabalho, podem ter influenciado o declínio da obesidade em algumas regiões, como na Espanha.

Aceleração Preocupante no Sul Global

Em contraste marcante, a maioria dos países de baixa e média renda experimentou um crescimento contínuo e acelerado na prevalência da obesidade, frequentemente superando as taxas das nações ricas. Esta aceleração foi notável em regiões como Ásia, África, América Latina, países do Caribe e ilhas do Pacífico. Nesses locais, a velocidade do aumento da obesidade foi maior em 2024 do que em qualquer outro ano desde 1980, atingindo meninas em 110 países e meninos em 91.

Alicia Matijasevich explica que essa tendência está ligada a transformações econômicas e sociais, como a mecanização do trabalho e do transporte, aumento do poder de compra, expansão do marketing de alimentos ultraprocessados e mudanças nos padrões alimentares e de atividade física. “Muitos países em desenvolvimento concentraram seus esforços em combater a desnutrição, e houve pouca resposta regulatória ao avanço do marketing de produtos pouco saudáveis, como bebidas açucaradas”, observa.

No Brasil, o estudo identificou um padrão acelerado de aumento da obesidade ao longo dos 45 anos analisados, especialmente entre homens adultos, com um crescimento de mais de 0,5 pontos percentuais em 2024. Majid Ezzati destacou a particularidade do Brasil, com um aumento mais significativo em homens, diferente do padrão observado em muitos outros países.

Intervenções Personalizadas e Fatores Determinantes

A dinâmica variada da obesidade global exige intervenções políticas personalizadas e adaptadas às realidades de cada país. As desacelerações e reversões em algumas nações desenvolvidas demonstram que o aumento da obesidade pode ser contido e estabilizado em níveis mais baixos.

Guha Pradeepa Rajendra Prabhu, do Madras Diabetes Research Foundation na Índia e coautora do artigo, ressaltou que o crescimento econômico e o maior poder de compra facilitaram o acesso a alimentos não saudáveis em países em desenvolvimento. Ela também apontou para a rápida transição de dietas tradicionais ricas em grãos integrais, vegetais e leguminosas para alimentos processados com alto teor de açúcares, sal e gordura saturada. O uso crescente de telas e a urbanização sem planejamento adequado contribuem para estilos de vida mais sedentários, tanto para adultos quanto para crianças.

“Essas desigualdades estruturais têm papel central nas tendências da obesidade”, conclui Alicia Matijasevich, reforçando a necessidade de políticas públicas que garantam o acesso regular a alimentos saudáveis e minimamente processados. O artigo completo, intitulado “Obesity rise plateaus in developed nations and accelerates in developing nations”, está disponível no site da Revista Nature.

Fonte: jornal.usp.br

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