A comunidade do fisiculturismo e a saúde pública foram abaladas pela morte de Gabriel Ganley, um fisiculturista de apenas 22 anos. A causa, uma morte súbita decorrente de cardiomiopatia hipertrófica, uma doença cardíaca grave que pode ser intensificada pelo uso de esteroides anabolizantes, trouxe à tona a discussão sobre o consumo dessas substâncias e o papel das redes sociais na disseminação de padrões corporais inatingíveis.
A Influência das Redes Sociais no Consumo de Anabolizantes
Nas últimas duas décadas, o número de usuários de esteroides anabolizantes tem crescido consideravelmente. Bruno Gualano, professor da Faculdade de Medicina da USP e presidente do Centro de Medicina do Estilo de Vida, aponta as redes sociais como um fator crucial nesse aumento. Segundo Gualano, “é possível, sim, que uma pressão por desempenho e por um corpo ideal — que a gente observa muito frequentemente nas redes sociais como um todo — tenha tido algum efeito sobre o uso disseminado dessas substâncias.” Influenciadores digitais, como o próprio Ganley, acabam por propagar, mesmo que involuntariamente, uma cultura que pode levar ao uso perigoso dessas substâncias.
O Perigoso “Coquetel”: De Hormônios a Novas Substâncias
No universo do fisiculturismo, o uso de testosterona e seus derivados, hormônio do crescimento e insulina é comum. No entanto, o cenário se agrava com a incorporação de novos medicamentos ao chamado “coquetel”. Peptídeos, que prometem queima de gordura e aumento de massa muscular sem entregar resultados garantidos, e as canetas emagrecedoras, são exemplos dessas novas substâncias. O risco reside no uso abusivo, em doses suprafisiológicas — muito acima do que o corpo humano produz naturalmente. “Toda vez que o uso for excessivo, o indivíduo tem um risco aumentado à saúde”, alerta Gualano.
Riscos Graves: Do Leve Desconforto à Morte Súbita Cardíaca
Mesmo fisiculturistas de sucesso, muitas vezes com acompanhamento, não estão imunes aos perigos. Os efeitos adversos mais leves incluem acne e queda de cabelo. Em mulheres, podem surgir engrossamento da voz e hipertrofia do clitóris; em homens, infertilidade e impotência. Contudo, o uso contínuo e abusivo pode levar a problemas muito mais sérios, como as doenças cardíacas que causaram a morte de Gabriel Ganley, além de infarto do miocárdio. A situação é ainda mais crítica quando há combinação de anabolizantes com drogas ilícitas como maconha, cocaína e crack, potencializando os danos à saúde.
Reconhecer a Dependência e Oferecer Acolhimento
A motivação para o uso de anabolizantes nem sempre é puramente estética. Pessoas que trabalham com a imagem corporal, como seguranças e personal trainers, muitas vezes se sentem pressionadas a consumir essas substâncias, mesmo cientes dos riscos. Gualano enfatiza a importância de tratar esses indivíduos como dependentes, oferecendo o tratamento e o acolhimento necessários para enfrentar essa questão de saúde pública.
Fonte: jornal.usp.br
