Matrículas na Educação Pública Despencam 1 Milhão: Censo Escolar 2025 Revela Impacto Oculto da Reforma no Ensino Médio e Mudança de Contagem
Dados do Ministério da Educação mostram redução de 2,29% no número de estudantes; especialista da USP aponta falhas metodológicas na contagem do Novo Ensino Médio como principal fator, superando a questão demográfica e a evasão em massa.
O cenário da educação básica pública no Brasil registrou um declínio significativo no número de matrículas, de acordo com o Censo Escolar de 2025, divulgado pelo Ministério da Educação (MEC). A queda de 1,08 milhão de estudantes, representando 2,29% do total, levanta preocupações imediatas. No entanto, a análise de especialistas revela que as razões por trás dessa diminuição são mais complexas do que parecem, com a metodologia de contagem desempenhando um papel crucial, especialmente no ensino médio.
A Queda Alarmante nos Números Nacionais
Os dados do Censo Escolar de 2025 indicam que o total de matriculados na rede pública passou de 47,09 milhões para 46,02 milhões. A redução não se restringe a uma única etapa, abrangendo desde as creches até o ensino médio. Este último, em particular, sofreu uma perda de aproximadamente 425 mil estudantes, o que representa entre 6% e 7% do total de alunos na modalidade. No Estado de São Paulo, a situação é ainda mais acentuada, com uma queda de matrículas no ensino médio da ordem de 17%, respondendo por cerca de 60% da diminuição nacional nessa etapa.
Demografia vs. Metodologia: A Verdadeira Causa da Redução
Fernando Cássio, professor do Departamento de Administração Escolar e Economia da Educação da Faculdade de Educação da USP, explica que, embora a mudança demográfica – com o envelhecimento da população e a consequente queda na população em idade escolar – contribua para uma redução de cerca de 1% ao ano, ela não é suficiente para justificar a perda de 2% (ou 1 milhão) de matrículas observada. “O problema é que, quando você olha o universo do ensino médio, você percebe que, no ensino médio, você tem uma queda de matrículas de aproximadamente 400 mil, que representa uma quantidade muito grande”, afirma Cássio.
O Impacto da Reforma do Ensino Médio na Contagem
O especialista aponta a reforma do ensino médio, implementada nos últimos anos, como a principal catalisadora para a confusão metodológica. Segundo Cássio, entre 2021 e 2024, a ausência de diretrizes claras do MEC sobre como preencher os dados de matrícula escolar levou estados a duplicarem registros. Um exemplo citado é o de alunos que cursavam itinerários formativos em diferentes escolas, sendo contados mais de uma vez. “Isso gerou uma série de complicações de matrícula, porque não havia nenhuma diretriz do MEC durante o governo Bolsonaro e nem nos primeiros anos do governo Lula para orientar como preencher os dados de matrícula escolar”, explica. A situação foi corrigida em 2025, quando o Inep criou novas variáveis e regras para a contagem, levando os estados a unificarem e, consequentemente, diminuírem os números reportados.
Evasão Escolar: Um Fenômeno Distinto da Queda Atual
Embora a evasão escolar seja uma preocupação constante, Fernando Cássio enfatiza que ela não é a principal responsável pela queda massiva de matrículas revelada pelo Censo de 2025. “Se isso fosse um problema populacional, para você ter uma queda de 17% de matrícula no maior Estado do País, você precisa ter um genocídio. É um problema de mudança de metodologia”, sentencia o professor. Ele reconhece a existência de jovens que abandonam os estudos por necessidade de trabalho, mas afirma que esses fenômenos são “muito menos significativos” do que o impacto da alteração na metodologia de contagem. Além disso, a política federal de incentivo financeiro “Pé-de-Meia”, implementada desde 2023 para a manutenção da matrícula no ensino médio, tem mostrado resultados positivos na mitigação da evasão, reforçando que a saída de estudantes para o mercado de trabalho não explica a magnitude da queda observada nos dados. Assim, a expressiva queda no número de matrículas na educação básica pública em 2025, especialmente no ensino médio, reflete majoritariamente uma correção estatística e metodológica pós-reforma, e não necessariamente um êxodo maciço de estudantes do sistema educacional brasileiro.
Fonte: jornal.usp.br
