São Paulo será palco de um evento marcante para a cultura brasileira nesta quarta-feira, dia 29 de novembro. A bailarina e coreógrafa Marika Gidali, fundadora do renomado Ballet Stagium e sobrevivente do Holocausto, lançará seu livro de memórias ‘De Corpo e Alma’ no Teatro Sérgio Cardoso. A noite, que celebra também o Dia Internacional da Dança e o aniversário de 89 anos de Marika, contará com uma apresentação gratuita do espetáculo ‘Sair Pro Mar’, do próprio Ballet Stagium, a partir das 20 horas.
Uma Vida de Resistência e Arte
Nascida em Budapeste, na Hungria, Marika Gidali sobreviveu aos horrores do Holocausto, chegando ao Brasil aos dez anos. Em 1971, ao lado de Décio Otero, seu companheiro de vida e trabalho, fundou o Ballet Stagium. Durante o período da ditadura militar (1964-1985), a dupla utilizou a dança como ferramenta para romper com o elitismo artístico e denunciar injustiças sociais. “O Ballet Stagium tem a resistência como filosofia. A gente nasceu na ditadura, mas não deixou de falar nada”, afirma Marika em entrevista, explicando que a dança era subestimada pelos censores, que acreditavam que a companhia “ficava só pulando e não tinha problema”.
‘De Corpo e Alma’: Memórias Sem Ordem Cronológica
Com 328 páginas e capa dura, ‘De Corpo e Alma’ é o primeiro volume da Coleção Travessias, da Editora Sarabanda. A obra foi escrita a partir das agendas de trabalho e diários que Marika mantém desde a infância. A bailarina define o livro como uma “bagunça literária”, sem ordem cronológica ou sumário, refletindo a natureza orgânica de suas memórias e experiências. As lembranças, de diferentes momentos da vida de Marika, são documentadas por fotografias de seu acervo pessoal e de profissionais como Emídio Luisi e Alberto Torres, tornando o livro um registro histórico do desenvolvimento da dança moderna e contemporânea no Brasil.
Marika destaca sua filosofia: “É muito bonito dançar não somente por dançar. Dançar dentro de um conteúdo que você quer passar. Isso é o mais importante do livro. Eu não danço por dançar”. Ela enfatiza que as circunstâncias políticas e a perseguição que trouxeram sua família ao Brasil se tornaram um impulso para sua resistência. “Sempre fui para frente, nunca fiquei reclamando, porque não adiantava. O importante é como sobrevivemos, como podemos resistir. Coloquei todos os meus sentimentos na arte, na dança.”
O Legado de Décio Otero e a Continuidade
O falecimento de Décio Otero em julho do ano passado, aos 92 anos, marcou uma perda significativa para Marika e para a dança brasileira. No entanto, Marika reafirma seu compromisso em dar continuidade ao legado. “Eu tenho que continuar porque a vida continua. O legado dele está no livro e continuamos juntos. Nós éramos dois corpos com uma só cabeça. Fizemos um trabalho de 55 anos que modificou a dança no Brasil”, declara a bailarina, reforçando a parceria indissolúvel que transformou a cena artística nacional.
Projeto Travessias: Resgatando Histórias
‘De Corpo e Alma’ é parte do projeto ‘Travessias – Enciclopédia de Artes, Literatura e Ciências’, coordenado pela professora Maria Luiza Tucci Carneiro, do Departamento de História da FFLCH da USP. O projeto é um trabalho de reconstituição histórica focado na recuperação do legado de refugiados do nazismo e do fascismo europeu no Brasil. Além de registrar suas trajetórias, o objetivo é divulgar suas contribuições para a cultura e a ciência do País.
Desenvolvido por pesquisadores do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (LEER) da FFLCH, o projeto também disponibilizará uma enciclopédia em plataforma digital com cerca de 520 verbetes, que permitirá identificar personagens que vivenciaram situações de perseguição e violência em diferentes países. Os próximos volumes da Coleção Travessias abordarão, entre outros temas, os franceses refugiados do nazifascismo e a contribuição de refugiados para a fotografia moderna no Brasil.
O lançamento do livro ‘De Corpo e Alma’, de Marika Gidali, com a apresentação do espetáculo ‘Sair Pro Mar’, do Ballet Stagium, acontece nesta quarta-feira, dia 29, às 20 horas, no Teatro Sérgio Cardoso (Rua Rui Barbosa, 153, Bela Vista, em São Paulo). A entrada é gratuita, e os ingressos devem ser retirados na bilheteria do teatro a partir de uma hora antes do espetáculo.
Fonte: jornal.usp.br
