Livro revela as raízes da formação do pensamento político dos brasileiros

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"title": "Do Impeachment à Polarização: Livro da USP Desvenda Como o Pensamento Político dos Brasileiros é Moldado por Vozes de Influência",
"subtitle": "Nova obra da Edusp, 'Mercado de Opinião Política', mapeia os cinco tipos de agentes que disputam ideias e agendas no Brasil, da academia aos polemistas.",
"content_html": "<h1>Do Impeachment à Polarização: Livro da USP Desvenda Como o Pensamento Político dos Brasileiros é Moldado por Vozes de Influência</h1><h2>Nova obra da Edusp, 'Mercado de Opinião Política', mapeia os cinco tipos de agentes que disputam ideias e agendas no Brasil, da academia aos polemistas.</h2><p>Um novo livro, publicado pela Editora da USP (Edusp), promete lançar luz sobre as complexas origens do pensamento político no Brasil. Intitulado 'Mercado de Opinião Política', a obra da professora Allana Meirelles Vieira é fruto de um extenso estudo empírico e teórico que investiga as diversas 'vozes de influência' que moldam as disputas ideológicas no País nas últimas décadas.</p><p>O livro será lançado nesta sexta-feira, dia 27 de outubro, às 18h30, na Livraria da Travessa, em São Paulo, com entrada gratuita. A autora, doutora em Sociologia pela USP e pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) de Paris, e professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), analisa o jogo de forças que emergiu no Brasil no século 21, marcado por eventos como o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016, e a ascensão da extrema direita.</p><p>Allana Meirelles Vieira argumenta que o "mercado de opinião brasileiro se estrutura em diferentes hierarquias e polos, que se constituem pela distribuição desigual dos recursos materiais e simbólicos". Segundo a professora, que se baseia nas ideias do sociólogo francês Pierre Bourdieu, esses polos "concorrem entre si na definição dos critérios mais relevantes na escolha de quem pode e deve falar sobre determinado assunto".</p><h3>O 'Mercado de Opinião' e Seus Agentes</h3><p>Para desvendar esse 'mercado de opinião política', Allana identifica cinco 'tipos primários' de vozes de influência que atuaram no Brasil nas últimas décadas: acadêmicos/experts, jornalistas <i>mainstream</i>, jornalistas blogueiros, polemistas e militantes. Os quatro primeiros – acadêmicos/experts e jornalistas – baseiam sua autoridade em diplomas, atividade profissional e prestígio entre pares. Embora não tenham grande visibilidade imediata, eles operam nos bastidores da política e do mercado financeiro, pautando o debate de forma mais duradoura.</p><p>Por outro lado, polemistas e militantes – os primeiros frequentemente associados à direita e os segundos à esquerda – tendem a conquistar legitimidade através da reação do público, da venda de livros e do crescimento de seguidores nas redes sociais, dependendo de uma performance ou narrativa pessoal.</p><h3>A Dinâmica da Influência e as Figuras de Fronteira</h3><p>A autora ressalta que esses tipos de influenciadores não existem em sua "pureza completa". Indivíduos podem transitar entre os polos, ou mesmo ocupar posições de fronteira. "É mais fácil e comum um jornalista <i>mainstream</i> se tornar um jornalista blogueiro ou um polemista, por exemplo, do que um polemista se tornar um acadêmico", explica Allana Meirelles. Essas figuras híbridas geram tensões dentro de suas próprias lógicas, refletindo as lutas do "mercado de opinião".</p><p>As alianças entre esses polos também são cruciais. Allana aponta que "tais alianças podem operar como uma divisão do trabalho de legitimação da direita, como ocorreu, por exemplo, na eleição de Jair Bolsonaro, em 2018", demonstrando como diferentes atores se unem para influenciar a opinião pública.</p><h3>O Impeachment e a Ascensão da Direita no Debate Público</h3><p>A década passada testemunhou a ascensão de uma "direita orgulhosa" no Brasil, marcando uma polarização explícita. A professora destaca que, a partir dos anos 2000, com a chegada de um partido de esquerda à Presidência e as subsequentes crises políticas, a identificação ideológica começou a mudar. Colunistas e formadores de opinião ajustaram suas autodeclarações em relação ao poder vigente, pavimentando o caminho para a legitimação do autorreconhecimento como "alguém de direita".</p><p>O impeachment de Dilma Rousseff, em particular, abriu uma disputa pelo novo lugar de representação da direita, gerando um paradoxo onde polemistas midiáticos defendiam a "liberdade democrática" ao mesmo tempo em que advogavam por pautas que incluíam o retorno de um governo antidemocrático. Allana contextualiza que essa tensão não se restringe aos últimos 20 anos, sendo resultado de investimentos econômicos e ideológicos por parte de setores midiáticos, editoriais e políticos na formação de um público mais conservador ou liberal.</p><h3>A Imprensa e a Evolução do Debate Midiático</h3><p>Ao longo da história, o "mercado de opinião" brasileiro passou por transformações drásticas, impulsionadas pelo surgimento de novas mídias e pela aparente "democratização da informação". A autora cita como exemplo a mudança da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da USP, que representou um afastamento geográfico e simbólico dos acadêmicos em relação à cidade e uma restrição de seu público a um nicho mais teórico. Consequentemente, a imprensa brasileira, dependente da elite econômica e política, passou a substituir os acadêmicos por "experts" na influência direta sobre tomadores de decisão.</p><p>O livro também aborda a substituição da imprensa romântica e intelectual por um jornalismo mais técnico e profissional. Com a industrialização do jornalismo, grandes veículos e revistas culturais direcionaram sua atenção para produtos da indústria cultural, em detrimento da produção literária "legítima". Nesse cenário, colunistas-polemistas ganharam espaço, não apenas por sua habilidade de comunicação, mas também por combater o "politicamente correto" como estratégia dos jornais nas disputas pelo monopólio da cultura.</p><p>Esses grupos utilizam estratégias distintas para fidelizar ou criar seu público: polemistas e militantes apostam em linguagem acessível; acadêmicos e experts, em rigor analítico e erudição; e jornalistas, em reportagens investigativas. Diante da crescente demanda por debates midiáticos, Allana alerta para a necessidade de o espectador distinguir entre debates tendenciosos, focados em provocações e lucro, e aqueles com "crenças reais e profundas", que refletem diferenças de classe social, dinâmicas da mídia e práticas profissionais. A autora conclui que, embora todos reivindiquem o lugar de "esfera pública" para a democracia, as desigualdades sociais se manifestam na estética e no conteúdo desses programas.</p><p><b>Serviço:</b></p><p><b>Livro:</b> 'Mercado de Opinião Política'</p><p><b>Autora:</b> Allana Meirelles Vieira</p><p><b>Editora:</b> Edusp</p><p><b>Páginas:</b> 288</p><p><b>Preço:</b> R$ 60,00</p><p><b>Lançamento:</b> Sexta-feira, 27 de outubro, às 18h30</p><p><b>Local:</b> Livraria da Travessa (Rua dos Pinheiros, 513, Pinheiros, São Paulo)</p><p><b>Entrada:</b> Gratuita</p>"
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Fonte: jornal.usp.br

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