Interseccionalidade: A Chave para Desvendar a Insegurança Alimentar que Atinge Mulheres Negras e Estudantes Universitários no Brasil

A insegurança alimentar, um desafio persistente no Brasil, manifesta-se de formas distintas e complexas, muitas vezes ocultadas por análises superficiais. Uma abordagem interseccional, que considera a sobreposição de diferentes identidades sociais e sistemas de opressão, emerge como um prisma essencial para compreender por que determinados grupos são mais vulneráveis à fome do que outros.

Essa perspectiva, defendida por pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, como Bruna Köhler, Beatriz Alves Leite e a professora Dirce Maria Lobo Marchioni, coordenadora do INCT Combate à Fome, permite desvelar as camadas de desigualdade que moldam a experiência da insegurança alimentar, oferecendo uma visão mais completa dos problemas sociais.

Desigualdades Amplificadas em São Paulo

O 1º Inquérito sobre a Situação Alimentar do Município de São Paulo (2024) trouxe dados alarmantes, mesmo para uma das cidades mais ricas do país. Mais da metade dos domicílios (50,5%) enfrenta algum grau de insegurança alimentar, com 12,5% em situação grave, ou seja, com fome presente. Ao aplicar a lente da interseccionalidade, as disparidades se tornam evidentes.

A insegurança alimentar grave foi 1,8 vez maior em lares chefiados por mulheres e 1,3 vez maior entre pessoas pretas, em comparação com lares chefiados por homens e pessoas brancas, respectivamente. Quando raça e gênero são analisados de forma combinada, a situação se agrava: domicílios chefiados por mulheres pretas apresentaram 17,5% de insegurança alimentar grave, uma proporção 2,1 vezes superior à observada em lares chefiados por homens brancos (8,1%).

A Vulnerabilidade Alimentar no Ambiente Universitário

O cenário de insegurança alimentar também atinge um grupo frequentemente negligenciado: estudantes universitários. Uma pesquisa nacional (Brazuca-Covid, 2020-2021) revelou que 38,6% dos domicílios de graduandos estavam em situação de insegurança alimentar. Na USP, essa prevalência foi de 30%, sendo 22% moderada e 8% grave. Embora inferiores à média nacional do período (55,2%, segundo o 1º Vigisan), esses números ainda são alarmantes e representam os dados mais recentes disponíveis para este público.

A vulnerabilidade entre os estudantes é ainda mais acentuada pela questão racial. A pesquisa indicou que estudantes autodeclarados pardos e pretos tinham, respectivamente, 1,9 e 2,9 vezes mais chances de enfrentar insegurança alimentar do que estudantes brancos. Esse padrão revela um preocupante gradiente racial no espaço universitário, evidenciando a necessidade de análises interseccionais que incluam gênero e renda para uma compreensão mais profunda.

Políticas Atuais e a Necessidade de uma Visão Interseccional

Apesar da existência de políticas importantes como cotas, auxílios estudantis, restaurantes universitários e programas de moradia, esses recursos muitas vezes se mostram insuficientes diante das condições socioeconômicas adversas que afetam estudantes de baixa renda, negros e periféricos. A insegurança alimentar na população universitária não acarreta apenas a falta de comida; ela se associa a uma pior qualidade da alimentação, maior sofrimento psíquico e prejuízos significativos ao desempenho acadêmico.

Portanto, a perspectiva interseccional é fundamental para ampliar a compreensão dos obstáculos ao acesso à alimentação adequada, especialmente no contexto universitário. Ao identificar como a combinação de múltiplas desigualdades molda a vivência da insegurança alimentar, é possível desenvolver estratégias e políticas públicas mais eficazes e equitativas, garantindo o direito humano à alimentação para todos.

Fonte: jornal.usp.br

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