As recém-adotadas diretrizes do Guia Alimentar dos EUA para 2025/2030 estão gerando controvérsia e preocupação na comunidade científica. Segundo o professor Ricardo Abramovay, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT Superar a Tríplice Monotonia dos Sistemas Agroalimentares), a nova versão do guia, que preconiza um aumento substancial no consumo de proteínas, especialmente as de origem animal, parece ir contra as evidências científicas e atender a interesses econômicos.
A principal crítica de Abramovay, um dos autores do artigo “A economia com excesso: diversidade é a base de um padrão alimentar saudável”, reside na ênfase exagerada na proteína animal. Enquanto a ciência já descartava o consumo excessivo como danoso à saúde, o novo guia americano praticamente dobra a recomendação diária, que seria de cerca de 80 gramas por quilo para uma pessoa com atividade física média. Essa mudança de paradigma levanta questões sobre as motivações por trás das diretrizes.
Interesses Econômicos em Detrimento da Ciência?
Para Ricardo Abramovay, a única explicação plausível para essa alteração drástica é a pressão de interesses industriais sobre o governo norte-americano. Ele compara a situação à atuação da indústria do tabaco no passado, onde os lucros se sobrepuseram à saúde pública. Nos Estados Unidos, o consumo de proteínas de origem animal já excede em muito as necessidades metabólicas humanas, e grande parte desse consumo se dá por meio de fast foods, alimentos ultraprocessados e comprovadamente não saudáveis.
Enquanto guias alimentares de outros países, como o Brasil, recomendam a redução do consumo de carne e a promoção de uma maior diversidade alimentar, o guia americano vai na contramão. Abramovay classifica a situação como um “ataque não só à democracia, mas à ciência”, reforçando que o governo norte-americano tem sistematicamente patrocinado ações que desconsideram o conhecimento científico.
Um Paradoxo Nutricional e Ambiental
O professor destaca que o excesso de proteína animal, frequentemente consumido em fast foods, contribui para um padrão alimentar não saudável. Além das implicações diretas para a saúde humana, o guia americano ignora um aspecto crucial: o impacto ambiental. O sistema agroalimentar é responsável por um terço dos gases de efeito estufa, e as proteínas animais contribuem com metade desse percentual, ou seja, cerca de 15% das emissões globais estão ligadas ao seu consumo.
O gado bovino, em particular, é um grande emissor de metano, um gás com poder destrutivo para o sistema climático cem vezes maior que o dióxido de carbono. A humanidade precisa urgentemente reduzir o consumo de carne e, mais ainda, modificar os métodos de criação bovina para mitigar essas emissões. No entanto, essas preocupações cruciais não foram contempladas no novo Guia Alimentar dos EUA.
O Precedente do Conflito de Interesses
Abramovay relembra um caso emblemático de conflito de interesses na ciência: um artigo que afirmava que o herbicida glifosato não era cancerígeno. Anos depois, descobriu-se que os autores tinham ligações com a Monsanto e foram pagos para escrevê-lo, resultando na “despublicação” do artigo. Esse episódio ilustra a importância de revistas científicas sérias exigirem declarações formais sobre conflitos de interesses e financiamento de pesquisas, um resguardo essencial para a credibilidade da ciência.
Caminhos para um Futuro Alimentar Sustentável
A simples substituição da carne bovina por suína ou de frango não é a solução definitiva, adverte Abramovay. Os métodos de criação desses animais também são intensivos em antibióticos e grãos, demandando uma remodelação completa do sistema agroalimentar. A boa notícia, segundo o professor, é que o Brasil tem potencial para liderar essa transformação. Com tecnologias avançadas, especialmente em bioinsumos, o país pode desenvolver métodos agropecuários que valorizem e respeitem a vida, superando as práticas atuais em busca de um futuro mais sustentável.
Fonte: jornal.usp.br
