A Hungria assistiu à queda de um dos seus líderes mais duradouros, Viktor Orbán, cujo regime autocrático de 16 anos não foi derrubado por um contramovimento democrático tradicional, mas por um desgaste silencioso. O cansaço da população com a corrupção, a fadiga econômica e o declínio dos serviços públicos provaram ser vetores mais poderosos do que qualquer apego ideológico. A deterioração das condições de vida superou as denúncias sobre a corrosão institucional promovida pelo partido Fidesz de Orbán, sinalizando um esgotamento que culminou em uma reviravolta política.
A Ascensão do ‘Insider’ e a Derrota da Apatia
A mudança de cenário foi orquestrada por Péter Magyar, um ex-quadro do próprio Fidesz que se tornou um ‘insider’ dissidente. Com credenciais culturais e simbólicas reconhecidas pelo eleitorado, Magyar construiu sua campanha utilizando a própria linguagem do regime. Seu foco principal foi a queda na qualidade de vida e a corrupção endêmica, evitando colocar a defesa dos direitos humanos, a democracia ou a crítica acadêmica à autocracia no centro de sua agenda. Magyar, um pragmático de centro-direita e produto do ecossistema do Fidesz, prometeu combater a corrupção e reaproximar a Hungria da União Europeia, sem romper com a gramática nacional-conservadora que sustentou Orbán.
A derrota da autocracia húngara também ressaltou como uma geopolítica personalista e de alinhamento automático com forças externas pode refletir negativamente na política interna. Enquanto Orbán era visto como um ‘cavalo de Troia’ para figuras como Putin e Trump na União Europeia, Magyar emergiu como um polo de resistência para resgatar a identidade húngara. A participação recorde de quase 80% dos eleitores, um número que ‘trincou’ um regime que normalizou a apatia como estratégia de preservação por mais de uma década e meia, foi crucial para essa reviravolta. Autocratas, afinal, sentem-se mais confortáveis com um comparecimento morno às urnas.
A Herança Deformada: Como Orbán ‘Reconverteu’ a Democracia
O que renasce com Magyar, contudo, não será a democracia húngara pré-Orbán. O país herda um eleitorado polarizado, instituições deformadas, mídia concentrada e dependência energética de Moscou. Orbán não apenas corroeu, mas ‘reverteu’ a própria essência da democracia húngara. As mudanças no parlamento, o remapeamento dos distritos eleitorais, as alterações nos quocientes, o cerceamento da justiça, a perseguição nas universidades, a captura da autoridade eleitoral e a asfixia da mídia independente foram instrumentos que, por anos, serviram para perpetuar o partido dominante.
Paradoxalmente, esse sistema agora beneficia Magyar. Em um sistema proporcional clássico, seus 54% dos votos corresponderiam a cerca de 55% das cadeiras. No sistema desenhado por Orbán para solidificar o Fidesz, esses mesmos 54% dos votos garantiram a Magyar dois terços do parlamento, o suficiente para mudar a Constituição. O novo governante herda, assim, as mesmas prerrogativas que permitiram a Orbán consolidar-se como autocrata.
O Trilema Húngaro: Três Caminhos para um Futuro Incerto
Essa realidade coloca a Hungria diante de um trilema de alto risco para sua sociedade. A primeira e mais premente questão é: será que Magyar vai usar os mesmos poderes excepcionais que prometeu eliminar? Ele restaurará a democracia por meio do exercício de prerrogativas antidemocráticas? A segunda opção seria a autolimitação, deixando intactas as instituições normalizadas por Orbán. As consequências dessa adaptação poderiam ser desagradáveis, caso Orbán conseguisse reciclar sua força política no futuro. Há ainda um terceiro caminho, o uso ‘benigno’ e mais moderado das engrenagens criadas por Orbán. Este é o mais tentador, mas também o mais perigoso, pois a democracia seria formalmente restaurada sobre fundamentos frágeis, dependentes de uma suposta virtude cívica de quem governa.
Essa tríplice encruzilhada sugere que a erosão institucional provocada por autocratas como Orbán, Bolsonaro ou Trump deixa um terreno minado que sobrevive à derrota eleitoral de seus arquitetos. No universo da política, a vitória eleitoral é uma condição necessária, mas nunca suficiente para reconstruir a ordem democrática e recuperar a vitalidade de um país.
Esperança em um Cenário Global Desafiador
Para quem preza a democracia, essa reflexão é crucial. O cenário global é preocupante: três em cada quatro pessoas vivem em regimes autocráticos ou híbridos. O relatório de 2026 da Freedom House revela que os níveis globais de democracia diminuíram pelo vigésimo ano consecutivo, indicando que o mundo é tão democrático quanto era antes da queda do Muro de Berlim e da implosão da União Soviética. A vitória eleitoral de Magyar, no entanto, acende um fio de esperança. Ela torna visível a possibilidade de que defensores da democracia possam reverter, nas urnas, o terremoto político que hoje sacode Estados Unidos, Europa, América Latina e Brasil.
Ainda é cedo para prever se a Hungria conseguirá reavivar suas instituições democraticamente ou se a democracia sobreviverá aos ataques da extrema direita. Mas, enquanto as respostas não chegam, toda derrota de um autocrata merece ser recebida com entusiasmo. Como o perigo mora ao lado, é sempre bom acordar a vizinhança com palmas de satisfação.
Fonte: jornal.usp.br
