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"title": "Da Ética Antiga à Crise Atual: Como Averróis e o Guia do Bom Governo Confrontam a Ascensão da 'Política do Ódio' no Século XXI",
"subtitle": "A professora Janice Theodoro da Silva, da USP, resgata a sabedoria de filósofos medievais para questionar a indiferença de líderes contemporâneos à ética, à ciência e à verdade, alertando para um futuro sombrio.",
"content_html": "<h1>Da Ética Antiga à Crise Atual: Como Averróis e o Guia do Bom Governo Confrontam a Ascensão da 'Política do Ódio' no Século XXI</h1><h2>A professora Janice Theodoro da Silva, da USP, resgata a sabedoria de filósofos medievais para questionar a indiferença de líderes contemporâneos à ética, à ciência e à verdade, alertando para um futuro sombrio.</h2><p>Antigamente, a sabedoria era a bússola que guiava os soberanos na arte de governar. Filósofos e pensadores dedicavam-se a elaborar cartilhas que vinculavam a ética à política, buscando o que se entendia por Bom Governo. No entanto, a realidade contemporânea parece ter virado essa página. Atualmente, governantes frequentemente ignoram os conselhos dos filósofos, desconsideram os cientistas e descartam a ética, transformando a discussão política em mero impacto visual e comunicacional. A era das bombas, mísseis e erros de cálculo que resultam no extermínio de inocentes se tornou parte de uma política espetacularizada, onde a destruição é visualizada nas redes sociais.</p><h3>A Busca por Respostas na Filosofia</h3><p>Diante do desejo de extermínio manifestado por alguns líderes e da aparente falta de alternativas, a professora Janice Theodoro da Silva, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, buscou nas estantes uma explicação para a loucura humana. Seu olhar se deteve em "Averróis: a arte de governar", de Rosalie Helena de Souza Pereira – uma leitura aristotelizante da República de Platão. Nesse nome, Averróis, um filósofo, intérprete do Corão, defensor do aristotelismo, jurista e médico, ela encontrou a esperança de uma cura para o mal-estar da cultura da guerra. As reflexões de Averróis, traduzidas e comentadas por Rosalie Helena, abrem portas para um retorno às antiguidades, a um tempo de diálogo e conciliação de ideias entre culturas, como a cristã e a muçulmana.</p><p>Nascido em Córdoba em 1126 e falecido em Marrakech em 1198, Averróis foi um elo crucial entre o mundo islâmico e o ocidental. Seus comentários sobre Aristóteles influenciaram pensadores como São Tomás de Aquino, demonstrando a proeza dos filósofos ao longo da história em pensar a política e a arte do Bom Governo, deixando um legado fértil para a interlocução entre partes conflitantes. Ele era herdeiro das ideias de Avicena, filósofo persa cuja civilização, ironicamente, é hoje alvo de ameaças de extermínio por parte de governantes vaidosos.</p><h3>Os "Espelhos de Príncipes" e Sua Inversão</h3><p>A filosofia de Averróis se insere em um gênero literário conhecido como “Espelhos de Príncipes”, guias práticos de conselhos para governantes, famoso no Ocidente pela obra "O Príncipe", de Maquiavel. Contudo, o século XXI testemunhou uma transformação desse gênero. Uma nova espécie de "Espelho de Príncipe ao inverso" surgiu nas redes sociais, onde governantes e autocratas se organizaram para produzir e divulgar um manual para desmantelar democracias e, consequentemente, pôr fim ao Bom Governo.</p><p>Mas como discernir o bom do mau governo? Com base em que premissas? Averróis, ao analisar a “arte do Bom Governo”, propôs virtudes essenciais para administrar os bens públicos e evitar o abuso de poder. Ele sugeriu a temperança, a justiça, a coragem e a generosidade como régua de medida, virtudes que promovem consonância e buscam soluções para os problemas políticos. Seus comentários alinham-se às proposições de Aristóteles e às premissas humanistas, defendendo que o entendimento entre as partes nasce da razão aliada à ética.</p><h3>As Virtudes do Bom Governo Segundo Averróis</h3><p>Para o sábio-filósofo, a magnanimidade do governante exige grandeza de espírito para afirmar o que a ciência prova ser verdadeiro, impedindo que o pensamento fique "confinado às opiniões que não resistam ao escrutínio científico". Para ele, o jurista deve ir além do descritivo e vincular o raciocínio demonstrativo às virtudes éticas, com destaque para a justiça. "O amor à verdade está a par com o amor à justiça, pois não há verdade sem justiça", sentenciava Averróis, enfatizando que a razão é intransigente contra a mentira e a injustiça.</p><p>Rosalie Helena sintetiza as sugestões de Averróis para o Bom Governo:</p><ul><li>Disposição natural para o aprendizado das ciências teoréticas (física, matemática, teologia);</li><li>Ter boa memória;</li><li>Amar o conhecimento, a verdade e a justiça, e odiar a falsidade;</li><li>Ser temperante (moderado);</li><li>Desprezar o dinheiro (bens materiais);</li><li>Ser magnânimo, aberto ao conhecimento de tudo;</li><li>Ser corajoso para enfrentar opiniões consolidadas, mas não fundamentadas na ciência;</li><li>Ser justo e virtuoso com base na razão;</li><li>Ter boa retórica para expor argumentos científicos e habilidade para encontrar o termo médio rapidamente.</li></ul><p>A metodologia jurídica de Averróis defendia um “raciocínio hermenêutico para fins legais”, permitindo ao jurista elaborar a lei com base no Corão e fornecendo instrumentos para a discussão dos métodos de interpretação.</p><h3>O Manual do Mau Governo no Século XXI</h3><p>Em contraste chocante, alguns governantes atuais, impulsionados pelo sucesso nas redes de comunicação, desenvolveram um guia prático para o mau governo. Este "manual de digestão rápida" inverte os preceitos de Aristóteles e Averróis, priorizando a prática instantânea sobre a reflexão. Embora não escrito formalmente, ele funciona como um estímulo à guerra, ao conflito, ao uso intensivo de bombas e inteligência artificial em campos de batalha, demonstrando aversão pela ciência e pela verdade, e estimulando o ódio e o desejo de destruir civilizações e diminuir a população mundial.</p><p>Se fosse escrito, este guia do mau governo sugeriria ao soberano:</p><ul><li>Disposição interessada para o sucesso a qualquer preço;</li><li>Dispensa da memória natural, valorizando o celular como repositório;</li><li>Aversão ao conhecimento;</li><li>Ódio à verdade e à justiça, e amor à falsidade;</li><li>Valorização do excesso;</li><li>Dignificação do dinheiro (bens materiais);</li><li>Valorização da crueldade e indiferença às pessoas, culturas e civilizações;</li><li>Menosprezo por posições consolidadas e fundamentadas na ciência;</li><li>Indiferença diante da injustiça e perversidade com base na desrazão;</li><li>Uso de vocabulário pequeno e simples para cristalizar inverdades e estimular comportamentos impulsivos e excessivos.</li></ul><p>Este roteiro, praticado por alguns líderes no século XXI, sugere a morte do humanismo. O questionamento final permanece: sobreviverá alguém para contar a história da bomba, do ódio e da mentira? A reflexão de John Keegan, em "Uma história da guerra", desafia a tese de Clausewitz, sugerindo que a guerra pode ser a falência da política. Nos dias atuais, essas reflexões, de Averróis a Clausewitz, servem de estímulo para pensar: o tédio chegará a tempo no coração dos guerreiros?</p>"
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Fonte: jornal.usp.br

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