Alerta da Siemens: Ambiente Regulatório Sufoca Inovação Europeia
A Europa corre o risco de perder seus principais campeões industriais na era da inteligência artificial (IA). A Siemens, um dos pilares da indústria europeia, emitiu um alerta contundente: as regulamentações da União Europeia para IA e dados estão a empurrar gigantes industriais para os Estados Unidos e China. O CEO da empresa expressou frustração, afirmando ser um “disparate” tratar dados industriais da mesma forma que dados pessoais e questionando o investimento em um ambiente que, segundo ele, impõe barreiras desnecessárias.
As negociações em curso sobre o pacote legislativo AI Omnibus e as complexas regras de dados na Europa continuam a ser um obstáculo significativo, tanto para pequenas como para grandes empresas. Essa rigidez regulatória contrasta com a abordagem mais flexível de outras potências globais.
O “Efeito Trump” e a Fuga de Investimentos para os EUA
A ameaça de a Europa perder parte de sua força industrial é palpável. Nos Estados Unidos, uma combinação de desregulamentação, cortes de impostos para fabricantes nacionais e a incerteza gerada por tarifas estão a atrair investimentos de grupos industriais europeus. O presidente dos EUA, Donald Trump, tem promovido o país como o local ideal para criar empregos e expandir negócios, uma mensagem que tem ressoado entre empresas europeias que buscam manter o acesso ao consumidor americano.
A lista do chamado “efeito Trump” já inclui 15 empresas da UE, que planeiam investir nos EUA. Entre elas, a Siemens Healthineers anunciou um investimento de US$ 150 milhões para ampliar a produção, incluindo a realocação de operações do México para a Califórnia. A própria Siemens destinará US$ 285 milhões para produção industrial e centros de dados de IA nos EUA, com previsão de criação de mais de 900 empregos qualificados. A Siemens Energy, por sua vez, investirá US$ 1 bilhão para aumentar a produção de material para redes elétricas e turbinas a gás nos Estados Unidos.
A Perspectiva Alemã: Simplificação e Dados Industriais
Empresas alemãs como Siemens e SAP têm defendido a revisão das regras de IA e de dados para a indústria europeia. O governo alemão, inclusive, tem demonstrado apoio à simplificação dessas regulamentações, especialmente no que diz respeito à IA para a indústria. No entanto, a futura Lei dos Dados europeia, que visa unificar diversas diretivas e regulamentos, enfrenta forte lobby da indústria. Grandes grupos industriais expressam preocupação com obrigações de partilha de dados, argumentando que elas podem comprometer seus segredos comerciais e torná-los relutantes em compartilhar ou vender informações, mesmo quando não planejam utilizá-las diretamente.
Encontrar um equilíbrio entre as exigências da indústria e a promoção de uma economia de dados mais ampla na Europa é um desafio complexo. Críticos apontam que propostas de simplificação são frequentemente descartadas como “lobby americano”, ignorando as preocupações legítimas dos próprios protagonistas da indústria europeia.
Gigafábricas de IA: Soberania Digital vs. Necessidade Imediata
Um dos pilares do Plano de Ação Continente de IA da UE é a criação de cinco Gigafábricas de IA, instalações de grande escala com alta capacidade computacional. Contudo, cada Gigafábrica demandará cerca de 100 mil chips, a maioria dos quais é atualmente fornecida pelos Estados Unidos. Embora a UE esteja a investir no desenvolvimento de sua própria indústria de semicondutores, a necessidade imediata por chips otimizados para IA é urgente.
A União Europeia lançou o Ato Europeu dos Chips em 2022 com o objetivo de dobrar sua participação no mercado mundial de semicondutores até 2030. Contudo, com a ascensão da IA, uma nova versão do Chips Act é necessária para reduzir o fosso de capacidade europeia em chips para IA. O financiamento necessário é estimado entre 30 a 60 bilhões de euros a nível da UE, complementados por verbas dos Estados-Membros e investimento privado, podendo chegar a 200-300 bilhões de euros.
O lançamento das Gigafábricas de IA enfrenta atritos políticos. Países como a França expressam receio de que o investimento europeu resulte na compra massiva de chips americanos, sem explorar suficientemente as oportunidades locais. Ministérios alemães, por sua vez, levantam preocupações sobre a conformidade com as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). A conciliação entre o desenvolvimento de uma indústria local de chips a longo prazo e a resposta às necessidades imediatas de suprimentos é um dilema crucial. A burocracia e os interesses divergentes na UE, no entanto, arriscam tornar o processo lento, contrastando com a velocidade de desenvolvimento nos EUA e na Ásia.
Fonte: pt.euronews.com
