Gentrificação Turística: Como o Boom de Visitantes Expulsa Moradores e Dispara Preços de Imóveis nas Cidades Brasileiras e Globais

A gentrificação turística, um fenômeno urbano crescente, está remodelando cidades ao redor do mundo, transformando bairros vibrantes em cenários para visitantes, mas com um custo social elevado. Este processo, impulsionado por investimentos em infraestrutura e na imagem das cidades, tem como consequência a expulsão de moradores locais e a valorização imobiliária exorbitante.

A Transformação dos Bairros em Produto

O conceito de gentrificação, que parte da premissa de inovação e melhoria de bairros populares ou degradados, esconde uma série de impactos sociais complexos. A gentrificação turística descreve especificamente a conversão de áreas residenciais em espaços de consumo e entretenimento, moldados pelos interesses dos turistas. Segundo Vitória Avelino, doutoranda em Turismo na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, a raiz do problema surge quando a cidade deixa de ser vista primordialmente como um lar e passa a ser administrada como um produto a ser comercializado.

O Cenário Global e a Realidade Brasileira

Cidades como Barcelona, Lisboa e Veneza são exemplos notórios de destinos que enfrentaram a gentrificação turística. Em Portugal, um estudo de 2023 revelou que a reabilitação de imóveis no centro histórico de Lisboa foi majoritariamente direcionada a hotéis e alojamentos locais. Barcelona, por sua vez, reagiu à pressão turística com um plano urbano em 2017 para limitar novos alojamentos em áreas já saturadas.

No Brasil, o fenômeno se manifesta de forma menos regulada e, muitas vezes, mais silenciosa. Locais históricos como o Pelourinho, em Salvador, e áreas de Recife, foram transformados. A gentrificação turística resulta da combinação de fatores como o crescimento do turismo urbano, a expansão de plataformas digitais de hospedagem (como o Airbnb), a valorização imobiliária e políticas urbanas focadas na atração de visitantes e capital. Frequentemente, essas mudanças não são acompanhadas de medidas de proteção para os residentes.

Em centros históricos revitalizados, o discurso da recuperação urbana pode mascarar a expulsão indireta de antigos moradores, a substituição do comércio local por serviços voltados aos turistas e a descaracterização da cultura original, que é convertida em mero cenário turístico, conforme aponta Avelino.

Perda de Autenticidade e Conflitos Sociais

O problema não reside no turista ou no turismo em si, mas na prioridade que muitos municípios dão às demandas de indivíduos que permanecem na cidade por poucos dias. As consequências são palpáveis: perda de redes de vizinhança, enfraquecimento do comércio popular, descaracterização cultural e o surgimento de conflitos entre moradores, investidores, plataformas digitais e o poder público. “O turismo vende a ideia de autenticidade, mas pode destruir justamente as condições sociais que produzem essa autenticidade”, argumenta Vitória Avelino.

A Urgência da Regulação e Proteção Local

É crucial compreender as complexas relações entre turismo e gentrificação para equilibrar as demandas dos visitantes e, sobretudo, as necessidades dos moradores locais. Embora a atividade turística gere renda, empregos e movimente a economia, a doutoranda defende que ela deve ser controlada. Sem uma regulação eficaz, políticas habitacionais robustas e uma escuta atenta às comunidades anfitriãs, o turismo corre o risco de corroer aquilo que o torna verdadeiramente atraente: a cidade viva e sua gente.

Fonte: jornal.usp.br

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