Encontro Internacional na USP Debate Crises do Trabalho, Plataformização e Adoecimento Mental Antes do Dia do Trabalhador

Encontro Internacional na USP Debate Crises do Trabalho, Plataformização e Adoecimento Mental Antes do Dia do Trabalhador

Evento reúne especialistas brasileiros e estrangeiros para analisar o retrocesso nas condições laborais e o avanço de transtornos psíquicos em diversas categorias, incluindo o meio universitário.

Às vésperas do Dia do Trabalhador, o 3º Encontro Internacional de Psicologia Social do Trabalho – Memória, história, transformações e futuro do trabalho – propõe uma reflexão crítica sobre o cenário atual do mundo laboral. Com a pergunta direta “há, de fato, o que comemorar?”, o evento, coordenado pela professora Vera Lucia Navarro, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, aponta para um período de retrocesso nas condições de trabalho nas últimas décadas.

Realizado nos dias 29 e 30 de abril no Auditório Paula Souza, na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, em São Paulo, o encontro em formato presencial busca reunir pesquisadores brasileiros e estrangeiros para analisar as profundas transformações e suas consequências sociais e subjetivas. As discussões serão posteriormente disponibilizadas no canal da FSP da USP no YouTube.

O Cenário Atual: Precarização e Epidemia de Adoecimento Psíquico

A iniciativa é do Grupo de Trabalho (GT) Trabalho e Processos Organizativos da Contemporaneidade, vinculado à Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (Anpepp). O GT, que conta com 28 pesquisadores de diversas instituições brasileiras e de países como Colômbia, Chile, Uruguai e Estados Unidos, tem focado na análise da intensificação do trabalho, da plataformização, do avanço da racionalidade neoliberal e do desmonte de políticas públicas e direitos trabalhistas.

Segundo a professora Vera Navarro, os efeitos desse retrocesso são alarmantes: “O adoecimento psíquico relacionado ao trabalho está em expansão no País, tomando proporções epidêmicas.” Transtornos mentais e comportamentais figuram entre as principais causas de afastamento laboral, com recordes sucessivos de licenças médicas. A escolha do tema e a realização do evento na semana do primeiro de maio são um gesto simbólico para recolocar o trabalho no centro da reflexão crítica sobre a convivência entre conquistas históricas e a precarização atual.

Saúde Mental no Trabalho e no Ambiente Universitário

A saúde mental ocupa um lugar central nos debates. O avanço do adoecimento psíquico atravessa diferentes categorias profissionais, atingindo também o ambiente universitário. Docentes, servidores técnicos e estudantes – especialmente na pós-graduação, cada vez mais reconhecidos como trabalhadores – são impactados pela intensificação das atividades, exigências de produtividade, condições de pesquisa e pressões institucionais. Relatos de sobrecarga, falta de infraestrutura e situações de assédio moral compõem um cenário que amplia a discussão sobre a saúde psíquica no meio acadêmico.

Diálogo Internacional e Construção de Conhecimento

O encontro também se consolida como um espaço para a circulação de pesquisas, com mais de 218 inscritos e 53 trabalhos selecionados para apresentação em sessões simultâneas. A proposta, conforme Vera Navarro, é “promover o intercâmbio entre pesquisadores e consolidar uma agenda comum de investigação”. A composição interinstitucional e transnacional do GT favorece o intercâmbio de perspectivas teóricas, metodológicas e empíricas, possibilitando análises comparativas sobre as dinâmicas do trabalho em diferentes contextos.

Programação Abrangente e Mesas Temáticas

A programação inclui, além das sessões de comunicação oral no primeiro dia, três mesas temáticas no segundo dia. Serão abordados temas cruciais como “O mundo do trabalho sob fogo cruzado: crises globais e os desafios para a classe trabalhadora”, com palestras de Edith Selligmann Silva (USP) e Maria Maeno (Fundacentro). Outra mesa discutirá as “Transformações do trabalho e produção de subjetividades: impasses e reinvenções na Psicologia Social do Trabalho na perspectiva da América Latina”, com a participação de Antonio Stecher Guzmán (Chile), Hernan C. Pulido-Martinez (Colômbia), Silvia Franco Velasquez (Uruguai) e Leny Sato (IP).

A terceira mesa, “Trabalho, políticas públicas e metabolismo social”, contará com Claudia Osório da Silva (UFF) e Matheus Fernandes de Castro (UNESP). A presença de renomados pesquisadores estrangeiros reforça o caráter internacional do encontro, ampliando o diálogo e a compreensão sobre as complexas relações do trabalho contemporâneo.

Fonte: jornal.usp.br

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