A Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP) completa 60 anos em 16 de junho de 2026, marcando uma trajetória de resistência, inovação e humanismo. Nascida em um dos períodos mais sombrios da história brasileira, a ditadura militar, a ECA se consolidou como um polo de excelência na formação de profissionais e pesquisadores que se destacaram no Brasil e no exterior.
Desde sua fundação, a escola carrega em sua essência a interdisciplinaridade e a política, características que a tornaram um ambiente vibrante de crítica e produção cultural. Para celebrar as seis décadas de existência, uma série de eventos comemorativos está sendo organizada ao longo de todo o ano de 2026, com programação completa disponível no site da instituição.
Raízes na Ditadura e a Visão Pioneira
A história da ECA começa em 1966, sob o nome de Escola de Comunicações Culturais (ECC). O Brasil vivia os primeiros anos da ditadura militar, um período de crescente repressão à imprensa de oposição e de grande efervescência na classe artística, que utilizava diversas mídias para protestar contra o regime. Era nesse contexto de tensionamento que a ECC se propunha a formar a próxima geração de artistas e profissionais da comunicação.
Inicialmente, a escola oferecia cursos de graduação em Jornalismo, Rádio e Televisão, Arte Dramática, Cinema, Biblioteconomia, Documentação e Relações Públicas. A Escola de Arte Dramática (EAD), fundada em 1948 por Alfredo Mesquita, foi rapidamente incorporada, ampliando a oferta formativa. O primeiro vestibular ocorreu em 1967, e as aulas, que começaram em abril do mesmo ano, eram ministradas no prédio da Reitoria da USP, enquanto as instalações próprias ainda não estavam prontas.
Em 1969, a instituição foi rebatizada como Escola de Comunicações e Artes, acompanhando a expansão de seus cursos. Novas graduações surgiram: Artes Plásticas e Música em 1971; Publicidade e Propaganda e Editoração em 1972; e Turismo em 1973. A pós-graduação também se desenvolveu, com a criação dos primeiros mestrados em Artes e Ciências da Comunicação no País em 1972, seguidos pelos doutorados em 1980. Mais tarde, os cursos de Cinema e Rádio e Televisão foram unificados na graduação em Audiovisual em 1999, e a licenciatura em Educomunicação foi lançada em 2011.
Um Berço de Talentos e Referências
Pelos corredores, salas de aula, estúdios e palcos da ECA passaram inúmeros nomes que alcançaram projeção nacional e internacional. Entre os ex-alunos, destacam-se a cantora Ana Cañas (EAD), a apresentadora Inezita Barroso (Biblioteconomia), o humorista Marcelo Tas (Rádio e Televisão, não concluído), a cineasta Marina Person (Cinema), o apresentador Rodrigo Faro (Rádio e Televisão), a atriz Rosi Campos (Jornalismo), a jornalista Sandra Annenberg (EAD), a política Soninha Francine (Cinema), o jornalista William Bonner (Publicidade e Propaganda) e o cantor Jão (Publicidade e Propaganda).
A EAD, em particular, formou gerações de atores e atrizes renomados, como Aracy Balabanian, Caco Ciocler, Carlos Alberto Riccelli, Cássio Scapin, Edson Celulari, Eliane Giardini, Lilia Cabral, Marisa Orth, Matheus Nachtergaele, Ney Latorraca e Vera Holtz.
Além dos talentos artísticos e midiáticos, a ECA também se tornou um centro de excelência acadêmica, com pesquisadores e professores que viraram referências em suas áreas. A galeria de Professores Eméritos da escola inclui nomes como Boris Kossoy, Ismail Xavier, Jean-Claude Bernardet, Ana Mae Barbosa, José Marques de Melo, Jacó Guinsburg, Olivier Toni e Sábato Magaldi.
Atualmente, a ECA conta com oito departamentos e 17 cursos de graduação, incluindo bacharelados e licenciaturas, além da EAD. Em 2023, a instituição registrou 2.237 estudantes de graduação, 762 de pós-graduação e 84 de nível técnico na EAD, com um corpo de 167 docentes e 177 funcionários técnico-administrativos.
A Essência Crítica e Interdisciplinar da ECA
A diretora da ECA, Clotilde Perez, do Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo, enfatiza a importância do contexto histórico de sua criação. “As artes, as comunicações, a cultura são áreas de tensionamento em uma situação de opressão ou de regimes de exceção de uma maneira geral. Então, aqui já é um ato de coragem. A ECA desde o nascedouro teve que enfrentar adversidades”, reflete Clotilde, destacando a perspectiva humanista, crítica e inovadora da escola desde o início.
A criação da ECA envolveu a colaboração de diversas unidades da USP, como a Faculdade de Direito (FD), a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e a Escola Politécnica (EP), além de bibliotecas e o sindicato de Rádio e TV de São Paulo, o que já demonstrava uma visão multidisciplinar. Essa diversidade inicial e a necessidade de inovação para lidar com a tensão política permitiram que a escola se desenvolvesse e dialogasse com a sociedade de forma única.
Luiz Milanesi, professor sênior do Departamento de Informação e Cultura e ex-diretor da ECA (2005-2009), relembra os desafios e contradições dos primeiros anos. “A ECA foi parida em meio ao conflito entre os ares libertários de 1968 e a forte repressão a partir de 1969”, comenta Milanesi. A desconfiança inicial sobre seu perfil “frívolo” foi rapidamente superada pela atuação política inovadora dos estudantes e pela interdisciplinaridade de seu corpo docente, que reunia linguistas, cineastas, sociólogos, dramaturgos, antropólogos, bibliotecários, historiadores e publicitários.
Milanesi recorda momentos marcantes, como a invasão policial à ECA, com o diretor Antônio Guimarães Ferri enfrentando a polícia, e a greve estudantil de um ano que retomou o movimento estudantil no País. A pluralidade de pessoas criativas e surpreendentes que passaram pela ECA é, para ele, sua maior riqueza.
Brasilina Passarelli, professora do Departamento de Informação e Cultura e ex-diretora (2021-2025), também destaca a pluralidade da escola e seu impacto na formação de capital humano de excelência, influenciando outras escolas de Comunicação e Artes no Brasil. Eduardo Monteiro, docente do Departamento de Música e ex-diretor (2017-2021), complementa, afirmando que a ECA é fundamental na formação de um “ecossistema” completo para suas áreas de atuação, não apenas formando estrelas, mas toda a conjuntura profissional que sustenta o cenário cultural.
Desafios Contemporâneos e o Futuro da Formação
Apesar das celebrações, a ECA se debruça sobre importantes desafios para o futuro. A diretora Clotilde Perez aponta a necessidade de uma integração ainda mais efetiva entre as comunicações e as artes. Ela cita a recém-criada Escola de Ópera como um exemplo bem-sucedido dessa articulação, onde todos os departamentos de Artes e Comunicação atuam conjuntamente. “A ECA é uma jabuticaba, porque não existe essa configuração no Brasil e eu de fato nunca vi no mundo. Essa aproximação é muito inusitada – e muito potente”, afirma.
Outro desafio é antecipar as necessidades do mercado de trabalho, que se transforma em ritmo acelerado. “Precisamos manter todo o rigor, a transparência, tudo que a coisa pública demanda, mas, ao mesmo tempo, ter mais agilidade”, comenta Clotilde, ressaltando a importância de continuar formando alunos excelentes e relevantes para o mundo atual.
Brasilina Passarelli complementa, destacando o impacto da metamodernidade e das tecnologias digitais, especialmente a inteligência artificial (IA) generativa, que está revolucionando profissões e a vida cotidiana. Ela garante que a ECA está atenta a esses desafios, preparando-se para reconfigurar seus currículos, introduzir a IA em diferentes instâncias e valorizar a extensão e a internacionalização de suas pesquisas.
Eduardo Monteiro reforça a ideia de que vivemos um momento de transformação radical e sem precedentes. Para ele, é crucial que a escola seja capaz de ouvir essas mudanças e se adaptar, respondendo às transformações da sociedade e não apenas a interesses pessoais. “As tecnologias da comunicação já são absolutamente diferentes do que tínhamos pouco tempo atrás. É um universo novo e temos que estar atentos, mas de peito aberto, prontos para seguir essas transformações”, pontua.
Luiz Milanesi, por sua vez, aponta dois problemas cruciais: a reorganização do ensino para soluções inovadoras e a busca por um espaço físico adequado. Ele descreve a ECA como um “arquipélago com ilhas separadas e distantes” e um ensino ainda preso a padrões antigos, defendendo a necessidade de vontade política da USP para a resolução desses problemas. Clotilde Perez também destaca o desafio de aprofundar o entendimento e o acolhimento do novo perfil de alunos, mais diverso, garantindo a excelência na formação e inserção profissional.
A programação completa das atividades comemorativas dos 60 anos da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP está disponível no site oficial.
Fonte: jornal.usp.br
