Donald Trump e a Inversão Sem Precedentes de Valores: Como a ‘Necropolítica’ Desafia o Humanismo de Leão XIV

Em um cenário político cada vez mais marcado pela polarização e pelo uso estratégico da comunicação, a figura de Donald Trump emerge como um mestre na arte de chocar e de subverter valores. Sua abordagem, que muitos classificam como sem precedentes, utiliza a ruptura e o absurdo para atrair atenção, transformando a política em um espetáculo onde a vaidade e a inversão de princípios morais são ferramentas poderosas. Essa tática, desenvolvida em seus negócios imobiliários e aprimorada como comunicador, consiste em manipular linguagens e significados tradicionalmente pactuados no Ocidente, invertendo a tipologia de vícios e virtudes.

A Estratégia da Ruptura e a Manipulação de Símbolos

Trump, com sua habilidade midiática, esbanja luxo, estimula a vaidade e prega o ódio ao próximo, táticas que funcionam para chamar a atenção pela inversão de valores sociais estabelecidos há séculos. Para ele, símbolos culturais, sejam eles religiosos como a figura de Cristo ou iconográficos como o Super-Homem, tornam-se meros brinquedos adaptados à inteligência artificial. Se a imagem vender, se gerar engajamento, ela é utilizada. Em caso de reação negativa, um clique basta para deletá-la; se aceita, sua rede dissemina a ‘barbárie’. É um jogo de comunicação de baixo custo e alto impacto.

Historicamente, a contestação de símbolos e ideias não é novidade. Pensadores como Voltaire denunciaram limitações à liberdade de expressão, e a sátira a figuras religiosas, como a do profeta Maomé pelo jornal Charlie Hebdo, já resultou em tragédias. No entanto, a diferença no caso de Trump reside na utilização deliberada de um símbolo religioso, como a imitação de Cristo, em seu projeto político, em data próxima a eleições para o Congresso americano. Agredir potenciais eleitores com um símbolo religioso, de quem se espera apoio nas urnas, é uma ideia verdadeiramente sem precedentes na política moderna.

Dinheiro, Poder e a ‘Necropolítica’: A Visão de Trump

A estratégia de comunicação de Trump baseia-se repetidamente em um único mecanismo: a inversão dos valores típicos do pensamento humanista. Para ele, desrespeitar a vida humana como um valor maior é a alma de seu negócio. Ele parece sentir prazer em provar que o dinheiro e o poder não têm limites, que podem comprar instituições, civilizações, governos, e até mesmo a própria cultura e ética, que ele considera representações ridículas, mantidas em silêncio respeitoso pela falta de coragem humana em expor o pior de si.

Essa visão, no entanto, é um equívoco. Como lembraria Dostoiévski, o homem abriga tanto o pior quanto o melhor. As culturas e civilizações, em sua busca pela sobrevivência, produzem formas de viver em sociedade, arranjos institucionais e governos que, embora variados, buscam o bem-estar social. Conquistas como o perdão, a misericórdia e a conciliação são frutos da evolução cultural humana, assim como instituições civilizacionais como a ONU, a OMC e a Unesco, que surgiram no pós-guerra como respostas à necessidade de cooperação e paz.

A defesa, por um chefe de Estado da maior potência mundial, da destruição de uma civilização, ou a ideia de que usos e costumes e todas as formas de cultura processadas por séculos não significam nada diante do dinheiro e do poder bélico, é a essência da ‘Guerra Santa’ e da ‘necropolítica’ de seus ideólogos. O objetivo estratégico é diminuir o número de humanos e, principalmente, de humanistas, considerados seus piores inimigos. Para Trump, um planeta com menos gente e mais negócios rentáveis para ele e seus aliados de pele branca, com mais poluição, guerra e fome, seria um cenário ideal.

O Contraponto Humanista: Leão XIV e a Força da Ética

Nesse contexto de subversão de valores, a figura do Papa Leão XIV emerge como um contraponto humanista. Ele não é fraco, mas forte, e conhece as artimanhas da retórica, não concedendo palanque às táticas de Trump. Leão XIV, como pastor das almas, de todas elas, representa a força da ética e da diplomacia, cujas raízes remontam a Francisco de Vitória, fundador do direito internacional moderno. A diplomacia, inspirada na Escola de Salamanca, é um pilar humanista que persiste até os dias atuais, como demonstrado por líderes como Pedro Sánchez, primeiro-ministro da Espanha, ao criticar Trump com base no direito internacional.

O homem moral existe e é um companheiro constante de suas dúvidas, que por sua vez, produzem e transformam as culturas. Acompanhando Montesquieu, ‘não há república sem virtude’, e do mesmo modo, ‘não há sociedade digna sem ética’. Leão XIV, ao contrário da visão de Trump, não teme o poder material ou bélico, mas defende a vida, a cultura e a dignidade humana como valores inegociáveis. Ele é a representação de que, mesmo diante de um poder que se crê ilimitado, a ética e o humanismo são capazes de causar terremotos e de resistir, mantendo a esperança em um futuro onde a vida e a civilização prevaleçam.

Fonte: jornal.usp.br

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