O Rio Tietê, um dos mais emblemáticos de São Paulo, ganha voz própria no documentário “Tietê: Águas Verdadeiras”, dirigido pelo cineasta Rodrigo Campos. A obra, que estreia oficialmente na 15ª Mostra Ecofalante no próximo dia 4 de junho, às 15h, na Reserva Cultural, em São Paulo, inova ao transformar o próprio rio em um narrador da história ambiental paulista, interpretado pela atriz Waleska Firmino. A proposta é convidar o público a uma imersão profunda na vida e nos desafios das águas, comunidades ribeirinhas e ecossistemas que resistem às pressões da urbanização e das grandes obras de infraestrutura.
A Voz do Rio e a Pesquisa por Trás da Obra
Mais do que um filme, “Tietê: Águas Verdadeiras” é o desdobramento de uma extensa trajetória de pesquisa, criação artística e ação socioambiental desenvolvida por Victor Kinjo (Victor Uehara Kanashiro). Cantor, compositor e pesquisador da Rede Saúde Planetária Brasil, sediada no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, Kinjo coordenou o Grupo de Trabalho Interdisciplinar Arte e Saúde Planetária, dedicando seu pós-doutorado aos desafios do Rio Tietê e às contribuições das artes para uma governança ambiental regenerativa. Com apoio da Fapesp, sua pesquisa incluiu estudos de regeneração em rios internacionais como o Hudson (Nova York) e o Funan (China).
Parte desse percurso resultou na canção e videoclipe “Vem Pro Rio”, um registro de expedição da nascente à foz do Tietê, e na publicação da “Agenda de Políticas Públicas Propostas para a Regeneração do Rio Tietê: por uma nova cultura das águas”, em coautoria com o professor Pedro Roberto Jacobi. O documento reúne recomendações para a governança, ciência cidadã, educação ambiental, cultura, reflorestamento, agricultura sustentável e direitos da natureza.
Uma Jornada de Encontros e Saberes
O documentário amplia a investigação de Kinjo para a linguagem cinematográfica, incorporando memória, saberes ancestrais, mobilização comunitária e educação ambiental. O filme acompanha Victor Kinjo e o pescador José Carlos de Souza, conhecido como Zé Macumba, em uma travessia rica em encontros com moradores, artistas, pesquisadores e ativistas ao longo do rio. A obra também aborda a biodiversidade aquática, com entrevistas como a do professor Alexandre Hilsdorf, da Universidade de Mogi das Cruzes, especialista na ictiofauna do Tietê, ressaltando a importância da conservação dos ecossistemas aquáticos.
Arte, Ciência e Saúde Planetária
A estreia do filme coincide com o início do projeto Jovem Pesquisador Fapesp “Artes Performativas, Saberes Ancestrais e Saúde Planetária: contribuições transdisciplinares para uma cultura da regeneração”, liderado por Kinjo na Unesp. Este projeto integra a Rede Saúde Planetária Brasil, que, em 2021, participou da elaboração da “Declaração de São Paulo sobre Saúde Planetária”, publicada na revista The Lancet Planetary Health. O documento propõe recomendações para governos, universidades, escolas, artistas e empresas enfrentarem as crises climática, ambiental e social.
Para Victor Kinjo, a regeneração do Tietê exige uma abordagem integrada que vá além do saneamento, articulando educação, cultura, ciência, participação social, justiça climática e saúde. “O Rio Tietê não é apenas um recurso hídrico. Ele é um território vivo, atravessado por histórias, saberes, memórias e relações ecológicas. Regenerar o Tietê significa também regenerar nossa relação com as águas, fortalecendo uma cultura de cuidado, pertencimento e responsabilidade compartilhada”, afirma o pesquisador. O documentário se insere nesse contexto, ampliando o debate público para uma cultura da regeneração voltada à saúde planetária.
Debate e Alcance Internacional
Após a sessão de estreia na Mostra Ecofalante, será realizada a roda de conversa “Como Regenerar o Rio Tietê”, reunindo pesquisadores, artistas, lideranças socioambientais, representantes da sociedade civil e do poder público. O encontro visa construir uma agenda colaborativa para a regeneração da Bacia do Rio Tietê, discutindo o futuro dos rios e a segurança hídrica de São Paulo.
O alcance do filme não se limita ao Brasil. “Tietê: Águas Verdadeiras” foi selecionado para o International Ecological Film Festival To Save and Preserve, na Rússia, onde será exibido entre os dias 5 e 7 de junho. As sessões da Mostra Ecofalante são gratuitas e ocorrem na Reserva Cultural (4 de junho, 15h) e no Centro Cultural São Paulo (7 e 10 de junho, 15h).
Fonte: jornal.usp.br
