Desigualdade Global e Crise Climática: A Justiça Climática é um Conceito Viável ou uma Ilusão Necessária?

Desigualdade Global e Crise Climática: A Justiça Climática é um Conceito Viável ou uma Ilusão Necessária?

Professora da USP, Rita de Cássia Ariza da Cruz, provoca reflexão crítica sobre a aplicabilidade da justiça climática em um mundo marcado por abismos sociais e pobreza crescente, questionando seus limites práticos.

Em meio à crescente preocupação com as alterações do clima, termos como “crise climática” e “emergência climática” ganham destaque no léxico global. Contudo, entre esses conceitos, a “justiça climática” emerge como um dos mais consensuais, dada a universalidade da busca por justiça. Definida, entre outros, pelo livro Greenhouse Gangsters vs Climate Justice, como a remoção das causas do aquecimento global para permitir que a Terra continue a sustentar a vida, a justiça climática articula as escalas global e local, criticando o papel de grandes corporações e do Banco Mundial nos impactos ambientais.

Apesar de sua aparente unanimidade, a professora Rita de Cássia Ariza da Cruz, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, defende que o conceito deve ser analisado criticamente, e não apenas de forma panfletária. Isso implica uma reflexão profunda sobre as idiossincrasias do nosso mundo e as possibilidades concretas de promover uma justiça enraizada nas tragédias e dificuldades derivadas das mudanças climáticas.

A Face da Pobreza Global e Seus Elos com o Clima

Um relatório do Banco Mundial de 2024 revela que a redução da pobreza global desacelerou drasticamente desde 1990, com cerca de 3,5 bilhões de pessoas ainda vivendo em situação de pobreza. Essa condição, frequentemente agravada por conflitos, guerras e violações de direitos humanos, impulsiona milhões a se deslocarem dentro de seus países ou para outras nações em busca de sobrevivência, conforme dados da Agência para Refugiados das Nações Unidas (UNHCR).

Os movimentos forçados de populações cresceram exponencialmente neste século 21, e a esses “fatores de expulsão” somam-se os efeitos das mudanças climáticas, dando origem ao conceito de “refugiados climáticos”. A UNHCR destaca que as populações mais pobres são as mais vulneráveis, muitas vezes vivendo em locais remotos, acampamentos superlotados ou assentamentos informais, com acesso limitado a serviços básicos e altamente expostas a riscos climáticos como inundações, secas e ondas de calor.

O Crescimento das Favelas e a Exposição aos Riscos Climáticos

A questão da moradia inadequada e da vida em favelas (slums) é outro ponto crítico. O Relatório da ONU de 2003, intitulado The challenge of slums: Global Report on Human Settlements 2003, já indicava que quase um bilhão de pessoas (32% da população urbana mundial na época) vivia em favelas. Duas décadas depois, em 2024, estatísticas atualizadas pelo Programa Habitat das Nações Unidas revelam que aproximadamente 1,1 bilhão de pessoas vivem em favelas, e cerca de 2,8 bilhões não têm acesso à moradia adequada no mundo. Embora o percentual relativo tenha diminuído, o número absoluto de pessoas em favelas cresceu 10% desde 2003.

Esses dados evidenciam uma verdade inegável: as mudanças climáticas afetam a todos, mas não da mesma forma. Populações pobres e miseráveis, vivendo em regiões mais suscetíveis a eventos extremos, estão exponencialmente mais expostas a perdas, incluindo a própria vida. Nesse contexto, a “justiça climática” ganha pleno sentido ao conectar o que, à primeira vista, parece dissociado: as mudanças climáticas e a desigualdade social.

A Concentração de Riqueza e o Desafio da Justiça

Um relatório recente da Paris School of Economics sobre a desigualdade global reforça um cenário alarmante: 1% da população mundial (cerca de 56 milhões de pessoas) detém ganhos duas vezes e meia maiores que os 50% mais pobres juntos. Diante desse panorama – com quase metade da população mundial em pobreza, um quarto em favelas e indicadores sociais piorando no século 21 –, surge uma questão central:

Como promover a “justiça climática” quando bilhões clamam por direitos básicos como alimento, moradia digna, trabalho, saúde e educação? Seria necessário fragmentar ou hierarquizar a noção de justiça social frente às mudanças climáticas? Haveria um tipo de justiça mais urgente que outro?

Desnaturalizando a Pobreza para uma Justiça Eficaz

É nesse sentido que o conceito de “justiça climática” é tensionado. O objetivo não é desqualificá-lo, mas sim refletir criticamente sobre seus limites e desafios práticos. Como Milton Santos apontou, “a globalização atual não é irreversível”, sugerindo que as estruturas de desigualdade podem ser transformadas.

Não há dúvidas de que medidas de adaptação e mitigação dos efeitos das mudanças climáticas são urgentes. Contudo, a verdadeira eficiência dessas ações só será alcançada em um mundo onde a pobreza e a miséria sejam desnaturalizadas, e onde a concentração social e geográfica da riqueza deixe de ser tratada como uma fatalidade histórica. A promoção de uma justiça climática genuína exige uma transformação profunda nas bases da desigualdade global.

Agradecimentos às orientandas no Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana da FFLCH/USP e colaboradoras em pesquisas sobre mudanças climáticas, Isabella Beil, Larissa Prado Rodrigues e Jaqueline Baumgaertner, pela leitura prévia, atenta e crítica desses escritos.

Fonte: jornal.usp.br

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