O Museu Judaico de São Paulo convida a uma jornada fascinante pela mente de um dos maiores paisagistas brasileiros. A exposição ‘Burle Marx: Plantas em Movimento’, com curadoria de Isabela Ono e Guilherme Wisnik, oferece um panorama introdutório da obra de Roberto Burle Marx e seus colaboradores, com foco na dinâmica das plantas que moldaram seus projetos.
A Revolução do Olhar Nativo
Roberto Burle Marx é amplamente reconhecido por sua reinvenção do paisagismo moderno no Brasil. Em uma era dominada por modelos estéticos europeus, como os jardins franceses e ingleses, Burle Marx optou por um caminho inovador: a observação direta da vegetação brasileira. Suas expedições pelo país, sempre em diálogo com botânicos, arquitetos e artistas, permitiram-lhe valorizar a flora tropical nativa, explorando sua força visual e adaptabilidade, e rompendo com o padrão da importação de modelos.
Jardins em Trânsito: Identidades em Movimento
Contrariando um nacionalismo estrito, a visão de Burle Marx era aberta e fluida. Ele incorporou espécies tropicais exóticas que se adaptavam bem aos contextos locais, transformando o jardim em um espaço vibrante de mistura, circulação e reinvenção. A exposição, de forma perspicaz, apresenta o jardim não como uma identidade fixa, mas como uma identidade em movimento. Essa leitura se aprofunda na obra comissionada do artista Daniel Jablonski, que explora o cosmopolitismo, a migração das plantas e a identidade judaica de Burle Marx, tão fluida e dinâmica quanto seus traçados.
Imersão Visual e Narrativas Inéditas
A mostra é um deleite visual, exibindo desenhos de projetos deslumbrantes, croquis e materiais inéditos. Dentre os destaques, duas videoinstalações se sobressaem: um minidocumentário com imagens das expedições e entrevistas com o próprio Burle Marx, oferecendo um vislumbre imperdível de seu processo criativo; e a já mencionada obra de Daniel Jablonski. Complementam a experiência um tapete elaborado a partir de desenhos de Burle Marx e uma parede de fotografias de artistas como Marcel Gautherot, que acompanhavam as expedições e registravam a beleza das plantas em close-up, elevando a bromélia a um patamar de protagonista.
No fundo, ‘Burle Marx: Plantas em Movimento’ transcende a mera exibição de jardins. Ela nos convida a uma profunda reflexão sobre como as paisagens são organismos vivos, feitos de plantas, pessoas, memórias, migrações e permanentes transformações. Uma experiência que ressoa com a pauta ‘Jardins em trânsito: paisagens vivas entre memória e migração’, reafirmando a relevância atemporal do legado de Burle Marx.
Fonte: jornal.usp.br
