Crise na USP: Professor Propõe ‘Pacto Uspiano’ para Proteger Autonomia e Diálogo em Meio à Greve Estudantil e Ameaças Externas

A Universidade de São Paulo (USP) atravessa um período de intensa turbulência, marcado por uma paralisação estudantil que escalou para a ocupação da Reitoria e subsequente intervenção policial. Nesse cenário de conflito, Mauro Bertotti, professor do Instituto de Química da USP, defende a necessidade de um ‘Pacto Uspiano’, um chamado à união da comunidade universitária para superar as divisões internas e enfrentar as crescentes ameaças externas que pesam sobre a autonomia e a imagem da instituição.

A Escalada da Paralisação e a Reitoria Ocupada

O movimento estudantil na USP, embora com reivindicações variadas e muitas delas consideradas justas, iniciou-se com críticas aos bandejões universitários – que, segundo Bertotti, merecem melhorias, mas não as ‘críticas ácidas’ recebidas. Após a Reitoria apresentar uma proposta e considerar as negociações encerradas, a insatisfação estudantil culminou no cerco e ocupação da Reitoria em 7 de maio.

Bertotti reconhece a legitimidade das paralisações como instrumentos de pressão, citando piquetes e cadeiraços como práticas históricas na USP. Contudo, ele aponta que a ocupação representa uma etapa mais radical, que, ao impedir o direito de ir e vir, deteriora as relações interpessoais e contraria valores fundamentais da universidade, como a liberdade de pensamento e o respeito à opinião divergente. Salas e laboratórios vazios por imposição de força, para o professor, ‘sugerem a negação da própria Universidade’.

O Confronto de Valores na USP

A maioria da comunidade docente, conforme Bertotti, vê piquetes e, principalmente, a ocupação da Reitoria como atos que não se alinham ao ‘espírito universitário’, que preza pela empatia, compreensão e o poder da persuasão baseada na argumentação racional. No entanto, o professor também aponta a corresponsabilidade, sugerindo que a reabertura do diálogo pela Reitoria, mesmo mantendo seus princípios originais, poderia ter apaziguado a situação.

A crise se aprofundou com a intervenção da Polícia Militar, descrita como ‘truculenta e injustificada’, para desocupar a Reitoria. Duas semanas depois, o impasse levou os alunos a forçarem o cancelamento de uma reunião do Conselho Universitário em 26 de maio, impedindo a discussão de pautas importantes e transmitindo à sociedade uma imagem de desgoverno e perda de rumo da instituição.

As Cicatrizes Internas e as Ameaças Externas

As consequências da paralisação são multifacetadas. Alunos terão sua formação acadêmica prejudicada, e a instituição sofrerá com o desgaste de sua imagem e a fragilização de sua autonomia, pilar essencial da excelência acadêmica. Bertotti faz um paralelo com a observação de Carl Sagan sobre as sociedades humanas: as rusgas internas da USP ‘empalidecem diante das ameaças externas’.

A universidade enfrenta ataques de alas mais radicais, que sugerem privatização, criticam a liberdade de pensamento e desvalorizam o conhecimento. Setores da grande mídia, segundo o professor, alimentam uma ‘campanha perversa e simplista’ contra a autonomia da USP, retratando-a como uma ‘máquina anacrônica e deficitária’. A incerteza orçamentária para as universidades públicas paulistas, agravada pela reforma tributária, torna a interlocução contínua e efetiva com a sociedade ainda mais premente para justificar sua própria sobrevivência.

O Apelo por um Pacto Uspiano

Diante desse cenário, Bertotti defende veementemente um ‘pacto universitário’, um ‘pacto uspiano’. Ele argumenta que a comunidade universitária precisa compreender que ‘certos valores precisam estar acima do conflito político’ para defender um saber livre do pragmatismo de mercado ou do aparelhamento ideológico. Este é, para ele, o ‘grande dilema da USP nos anos vindouros’.

A proposta é que as diferenças internas sejam suspensas em prol da defesa de uma universidade reflexiva e de excelência, enfrentando os novos desafios com ‘novas ferramentas e seguindo caminhos previsíveis’. A universidade pública é um espaço privilegiado da República, com a responsabilidade de projetar o futuro da nação e integrar-se ao cenário internacional.

No entanto, a instituição precisa ter a honestidade intelectual de reconhecer seus próprios limites e a perda progressiva de um valor caro: a autoridade de sua liderança. O professor conclui que ‘não ganhamos nada com disputas internas que poderiam ser resolvidas com a sobriedade do diálogo; perdemos muito quando nos digladiamos e, involuntariamente, municiamos nossos reais adversários’.

Fonte: jornal.usp.br

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