Cinema Brasileiro Conquista o Mundo: Como Investimentos Estratégicos e a Formação Profissional Impulsionaram o Reconhecimento Global em Festivais e Premiações
Produções nacionais, como ‘Ainda Estou Aqui’ e ‘O Agente Secreto’, brilham em eventos como Cannes e o Oscar, resultado de mais de duas décadas de políticas públicas e da expansão de cursos que fortaleceram toda a cadeia audiovisual, embora desafios internos ainda demandem atenção.
O cinema brasileiro vive um momento de efervescência no cenário internacional, com produções ganhando destaque em festivais de prestígio como Cannes e o Academy Awards. Filmes como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto são exemplos recentes que atraíram a atenção da crítica e do público global, reacendendo o debate sobre o papel dos investimentos no fortalecimento da produção nacional.
Segundo o professor Rubens Arnaldo Rewald, do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, essa visibilidade não é um fenômeno isolado, mas sim o resultado de um processo contínuo iniciado há cerca de duas décadas. Ele aponta que políticas públicas específicas foram cruciais para pavimentar o caminho para o sucesso atual.
Investimento Contínuo e o Fundo Setorial
A base para o ressurgimento do cinema nacional está em uma política de investimentos robusta no setor audiovisual, implementada principalmente a partir dos primeiros governos de Luiz Inácio Lula da Silva. “Isso é fruto de uma política de investimentos no setor audiovisual que vem sendo construída nos últimos 20 anos”, explica Rewald. Nesse período, foi criado o Fundo Setorial do Audiovisual, um mecanismo essencial para a produção e o financiamento de projetos.
Os investimentos, conforme o professor, não se restringiram à simples produção de filmes. Eles foram pensados para fortalecer toda a complexa cadeia audiovisual, abrangendo desde o desenvolvimento de projetos e núcleos criativos até a produção, finalização, distribuição e licenciamento das obras. Essa abordagem holística garantiu um suporte mais completo à indústria.
Descentralização e o Salto de Qualidade
Outro pilar fundamental para o avanço do cinema brasileiro foi a política de descentralização da produção. Essa iniciativa impulsionou a criação de filmes em diversas regiões do País, fortalecendo polos como Pernambuco, Bahia e Minas Gerais. “Isso permitiu que cineastas de diversas regiões tivessem a possibilidade de filmar um, dois ou três filmes”, comenta Rewald.
Para o especialista, a ampliação da quantidade de produções é um fator decisivo para a melhoria da qualidade artística e técnica. “A qualidade de uma cinematografia só advém da quantidade. Quando você tem continuidade de produção, os profissionais conseguem desenvolver melhor o seu trabalho e aprimorar os filmes tecnicamente, dramaticamente e artisticamente”, afirma, destacando a importância da experiência acumulada.
A Formação de uma Nova Geração de Profissionais
O crescimento do número de cursos de Cinema no Brasil também desempenhou um papel vital na consolidação do setor. Em 2004, o País contava com 35 cursos de Cinema e Audiovisual, segundo dados do Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual (Forcine). Em 2024, esse número saltou para 210, tanto em instituições públicas quanto privadas. Essa expansão foi crucial para a formação de uma nova geração de profissionais.
Rewald ressalta que o cinema é uma arte coletiva, que depende de uma vasta gama de talentos. “Não é só o diretor: você precisa de roteirista, produtor, fotógrafo, técnico de som, montador. Todos são fundamentais.” A maior oferta de cursos garantiu que esses profissionais fossem qualificados e pudessem contribuir para a excelência das produções.
Desafios Atuais e a Necessidade de Regulação
Apesar da euforia com a visibilidade internacional, o professor aponta que o setor ainda enfrenta desafios internos significativos. “Estamos vivendo uma situação um pouco contraditória. Por um lado, há uma euforia pela visibilidade e pelos prêmios internacionais. Por outro, o setor produtivo enfrenta desorganização e concentração, com muitas pequenas e médias produtoras em dificuldade.”
Entre os principais obstáculos está a ausência de uma regulação clara para as plataformas de streaming no País. Segundo Rewald, a falta de regras para o Vídeo sob Demanda (VOD) limita o fortalecimento da indústria audiovisual brasileira. “As plataformas abriram oportunidades de produção, mas o sistema atual é nocivo à indústria audiovisual brasileira. É fundamental que haja uma regulação do Vídeo sob Demanda […] que ajude a fortalecer o setor.” Além disso, ele enfatiza que, além do financiamento da produção, é essencial investir na distribuição e na divulgação das obras, pois “o investimento em marketing é fundamental para que o filme tenha visibilidade no mercado nacional e internacional.”
Fonte: jornal.usp.br
