A atividade científica global vive um momento de efervescência sem precedentes, com um volume massivo de estudos sendo publicados diariamente. No entanto, essa vitalidade quantitativa esconde um desafio fundamental: a dificuldade em transformar essa vasta produção em sínteses de evidências confiáveis e aplicáveis, capazes de orientar decisões e promover transformações sociais. É o que aponta Maria Cristiane Barbosa Galvão, professora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, em uma análise que questiona a real contribuição de grande parte da pesquisa atual.
Grande parte do universo científico é composta por investigações exploratórias, revisões não sistemáticas, estudos isolados ou com limitações metodológicas que dificultam sua reprodução e incorporação em processos de síntese de evidências. Embora essas produções cumpram um papel no avanço incremental do conhecimento, sua capacidade de impactar concretamente a realidade é, muitas vezes, limitada. O ideal seria que a expansão quantitativa da ciência viesse acompanhada de uma geração proporcional de sínteses de evidências – um processo estruturado de integrar, comparar e interpretar resultados para produzir conhecimento aplicável.
O Desafio da Evidência Qualificada e a Crítica aos Modelos de Avaliação
Para a especialista, é crucial diferenciar a produção de ciência no contexto acadêmico da produção de síntese de evidência científica qualificada. A evidência, especialmente nas áreas da saúde e políticas públicas, demanda validação, análise crítica, contextualização e aplicabilidade adicionais. Assim, o mero aumento no número de artigos, mesmo com altos índices de citação, não garante por si só impacto social ou melhoria das condições de vida.
Essa desconexão deriva, em grande parte, de uma adesão acrítica a sistemas internacionais de avaliação científica. Tais sistemas, embora reconhecidos, frequentemente privilegiam métricas de produtividade e impacto acadêmico baseadas em lógicas de competição e mercado, como a publicação em periódicos de alto custo e elevada citação. Isso ocorre em detrimento da produção de evidências com impacto social direto.
No Brasil, onde a ciência é majoritariamente financiada com recursos públicos, essa dissociação é ainda mais preocupante. A sociedade financia a pesquisa, mas sua avaliação é feita por métricas que nem sempre refletem seu impacto sobre a própria sociedade, criando um cenário de desequilíbrio entre investimento e retorno social.
Impacto no Sul Global e a Sobrecarga Cognitiva na Academia
A dinâmica observada no Brasil não é um caso isolado, mas reflete um padrão mais amplo em países do Sul Global. Aqui, as especificidades sociais, econômicas e culturais muitas vezes limitam a aplicação direta de evidências produzidas no Norte Global. O desafio, portanto, não é apenas o volume de informação, mas a inadequação da evidência existente ou a incerteza sobre sua aplicabilidade em contextos locais que demandam intervenção.
Além do problema social, a expansão exponencial da literatura científica afeta a própria dinâmica de produção de conhecimento. Pesquisadores e estudantes enfrentam uma sobrecarga informacional, com tempo insuficiente para a leitura integral de artigos, recorrendo frequentemente a resumos. A massificação de ferramentas de inteligência artificial (IA) tem levado muitos a delegar parte do trabalho intelectual de leitura e síntese, seja por desconhecimento das limitações dessas ferramentas, seja pela pressão dos prazos acadêmicos.
Esse cenário impõe um desafio adicional à formação acadêmica: como preparar profissionais atualizados diante de um fluxo contínuo e crescente de informação? Educadores precisam realizar uma curadoria estratégica de conteúdos, hierarquizando o que é essencial, complementar ou o que inevitavelmente ficará de fora do processo formativo. Trata-se, então, de um problema de curadoria e decisão pedagógica em um contexto de excesso.
Novas Abordagens e Políticas para a Síntese de Evidências
Para reverter essa situação, são urgentes políticas, mecanismos de governança acadêmica e incentivos institucionais que orientem mestrados, doutorados, pós-doutorados e pesquisas financiadas publicamente à síntese de evidências. Diversas metodologias estão disponíveis para atingir esse objetivo.
As revisões sistemáticas, em sua forma tradicional, priorizam a objetividade quantitativa. Com o avanço das demandas, surgem as revisões sistemáticas mistas, que integram abordagens quantitativas e qualitativas para compreender fenômenos complexos. As revisões sistemáticas vivas, por sua vez, caracterizam-se pela atualização contínua, refletindo o dinamismo da ciência. Por fim, a abordagem de revisão sistemática mista, viva e contextualizada permite integrar métodos, incorporar atualização contínua e orientar a análise crítica para a aplicação da evidência em diferentes contextos sociais.
A produção de sínteses de evidência no Sul Global é ainda mais premente, dada a significativa diferença nos determinantes sociais, econômicos e culturais em relação ao Norte Global. É fundamental desenvolver evidências mistas, vivas e contextualizadas, pois a simples replicação de estudos ou diretrizes internacionais nem sempre é eficaz para as realidades locais.
Diante desse quadro, torna-se imperativa uma reflexão sobre a necessidade de construir um universo informacional-científico mais relevante. É fundamental repensar os critérios de avaliação acadêmica, deslocando o foco da quantidade para a qualidade e a relevância da evidência gerada. Ao alinhar a produção científica às problemáticas e realidades locais, podemos garantir que o conhecimento produzido seja não apenas abundante, mas também aplicável, transformador e coerente com a responsabilidade social inerente ao financiamento público da ciência.
Fonte: jornal.usp.br
