Carro Elétrico Acelera no Brasil, Mas Infraestrutura Urbana Patina: O Desafio da Recarga e as Novas Desigualdades nas Cidades

A revolução dos veículos elétricos não é mais uma promessa distante, mas uma realidade em plena expansão no Brasil. No entanto, enquanto o debate público se concentra na autonomia das baterias e nos benefícios ambientais, uma questão crucial permanece negligenciada: a infraestrutura urbana necessária para suportar essa transição em larga escala. Afinal, onde milhões de veículos serão carregados? Como bairros verticalizados, edifícios antigos e moradores que estacionam na rua irão se adaptar a essa transformação?

Dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) revelam um crescimento acelerado nas vendas de veículos híbridos e elétricos, especialmente em São Paulo. Essa expansão já atinge não apenas as camadas de alta renda, mas também motoristas de aplicativo, entregadores e segmentos médios da população, evidenciando que a eletrificação da frota é uma tendência consolidada.

Expansão Veloz dos Elétricos Contrasta com Vazio no Planejamento Urbano

Paradoxalmente, essa onda de eletrificação, impulsionada pela narrativa da mobilidade limpa e da transição energética, encontra cidades despreparadas. Embora São Paulo já conte com referências à eletromobilidade em instrumentos como o Plano Diretor Estratégico, o PlanClima e o PlanMob, ainda não existe uma política territorial estruturada para a distribuição de pontos de recarga públicos. A questão vai muito além da instalação de carregadores em shoppings ou edifícios corporativos, que atendem a uma parcela limitada da população.

O Dilema dos Condomínios e a Partilha de Custos da Transição

A adaptação da infraestrutura elétrica em condomínios residenciais, principalmente os mais antigos, representa um desafio significativo. Pode exigir investimentos elevados, adequações técnicas e de segurança, além de impactar os custos de seguradoras. O problema se agrava quando os custos coletivos recaem também sobre moradores que não possuem veículos elétricos, gerando um novo tipo de conflito urbano e condominial. Quem deve arcar com essa conta?

Essa distribuição desproporcional de custos levanta questões sobre direitos coletivos, segurança das edificações, acesso à infraestrutura urbana, estabilidade da rede elétrica e a distribuição social dos encargos da transição energética. A ausência de regras claras para adaptação predial e repartição de custos torna a atuação de órgãos reguladores, concessionárias e do Ministério Público cada vez mais necessária para proteger os consumidores não usuários da nova tecnologia.

Da ‘Gambiarra Elétrica’ à Urgência de uma Rede Pública de Abastecimento

Nesse vácuo de planejamento, emerge a “gambiarra” elétrica: cada morador busca soluções individuais para um problema que deveria ser tratado coletivamente. Em um mercado com diversas opções de combustíveis, o direito de escolha deve ser garantido, e isso implica que a oferta de recarga não pode se restringir ao âmbito privado e individualizado. A sociedade, hoje, discute a autonomia da bateria, mas ignora a capacidade urbana de abastecimento.

Transformando Postos de Combustível e a Responsabilidade da Indústria Automotiva

Parte da nova infraestrutura pode ser absorvida pela rede existente de postos de combustíveis fósseis, que tende a passar por uma profunda transformação funcional. Além dos postos convencionais, será essencial a criação de hubs específicos de terminais elétricos próximos às residências, preferencialmente com painéis fotovoltaicos, para garantir a estabilidade e evitar a sobrecarga da rede elétrica urbana. A indústria automobilística também tem um papel crucial, com a responsabilidade de investir em pontos de recarga como parte de uma política reversa, mitigando riscos e garantindo a funcionalidade de seus produtos.

A eletrificação da frota, portanto, não elimina a necessidade de abastecimento; ela apenas transforma sua natureza tecnológica e territorial. A transição elétrica tem o potencial de reduzir significativamente as emissões urbanas, mas somente se for acompanhada de um planejamento territorial robusto, investimentos públicos estruturados, adaptação das redes e uma distribuição socialmente justa da infraestrutura de recarga. Sem isso, a tão prometida mobilidade limpa pode, paradoxalmente, gerar uma nova desigualdade urbana: a desigualdade da recarga elétrica.

Fonte: jornal.usp.br

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