Caminhadas Fotográficas em São Paulo: Como Projetos da USP Revelam a Metrópole Sob Múltiplos Olhares e Inspiram a Redescoberta Urbana
Iniciativa da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da USP promove percursos que convidam à observação, registro e compartilhamento da cidade na plataforma colaborativa Arquigrafia, aprofundando a relação sensível com o espaço urbano.
São Paulo, uma metrópole de dimensões colossais, esconde em suas ruas, praças e córregos canalizados uma infinidade de histórias e perspectivas que muitas vezes passam despercebidas no frenesi do dia a dia. É com o objetivo de resgatar e compartilhar esses múltiplos olhares que o projeto “Experiência Arquigrafia 4.0”, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP, tem promovido as chamadas caminhadas fotográficas.
Coordenado pelo professor Artur Rozestraten, o projeto, apoiado pela Fapesp, entende a caminhada fotográfica como um “encontro para uma atividade coletiva que já se distingue de um percurso individual na cidade”. Segundo Rozestraten, essa experiência coletiva “cria condições para um compartilhamento de impressões ao longo de um determinado trajeto” e, consequentemente, para a “produção de imagens fotográficas”. Essa dinâmica aprofunda a relação sensível com trechos específicos da cidade, como ocorreu na recente caminhada “Da fonte à fábrica: metrópole sensível e imaginários urbanos”, realizada na Vila Anglo Brasileira e Vila Pompeia, na Zona Oeste de São Paulo.
Caminhar e Fotografar: Uma Necessidade de Descoberta
A prática de caminhar, especialmente com um propósito fotográfico, transcende o simples deslocamento. Para Lúcia Leitão, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e convidada do projeto, caminhar é uma busca inconsciente, uma forma de se conectar com o que nos falta e de nos reconhecer nas imagens que nos cercam. “Caminhamos porque algo nos move, nos inquieta, nos perturba, nos atrai, de modo contínuo e irresistível”, explica.
Fabio La Rocca, professor da Universidade Paul-Valéry Montpellier, parceiro do projeto SPRINT Fapesp Experiência Arquigrafia 4.0, destaca que a diferença entre uma caminhada fotográfica e uma cotidiana reside na atenção focada no entorno. “A caminhada fotográfica deve ser entendida de um ponto de vista estético de imersão e descoberta, em que a fotografia se torna o meio para fazer emergir detalhes que chamaram nossa atenção”, detalha La Rocca. Para ele, é uma forma de narrativa urbana, um “mapa sensível de cenários” que capturam qualidades atmosféricas.
Ricardo Luis Silva, professor do Centro Universitário Senac e cofundador do Estúdio Ceda el Paso, complementa que o diferencial está no próprio caminhante. “Ter o corpo atento ao seu entorno, disponível a perceber e interagir subjetivamente com toda ordem de acontecimentos, dos mais banais e cotidianos aos extraordinários”, é o que transforma o ato de caminhar.
Jéssica Andrade, cofundadora do Estúdio Ceda el Paso e pesquisadora da USP, enfatiza que caminhar e fotografar são práticas aliadas e complementares, que atravessam o corpo do caminhante. A fotografia, nesse contexto, “estreita essa experiência, deixando-a estática por meio da foto. Porém, não para imobilizá-la, mas para dar continuidades à agitação urbana presente no registro, que ganha lastros outros quando sob a foto, adiciona-se a narração do visto, a fabulação do imaginado, a denúncia do que foi presenciado, o alerta do que será destruído, o vestígio a ser preservado”.
O Essencial para uma Caminhada Fotográfica
Para uma caminhada fotográfica bem-sucedida, a preparação envolve tanto aspectos práticos quanto conceituais. Jéssica Andrade lista itens básicos: guarda-chuva, tênis confortável, garrafa de água, mochila leve, algum trocado e câmera ou celular carregado. No entanto, o elemento mais crucial, segundo ela, é o “estranhamento”.
Manter uma postura de “estranheza” frente a caminhos e paisagens que podem soar familiares é fundamental para perceber o novo no conhecido. “Infelizmente, não se tem uma receita do que fazer para acionar essa estranheza. Talvez, andar a passos lentos, fazer mais paradas, redobrar a atenção. Cada qual encontrará suas próprias estratégias”, pondera Andrade.
Ricardo Luis Silva reforça a importância do caminhar coletivo. “As percepções se multiplicam e potencializam o caminhar. O corpo-coletivo-caminhante dá mais sentidos aos imaginários construídos e compartilhados durante e depois da experiência do caminhar”, afirma, destacando o poder da troca de olhares e impressões.
A Experiência “Da Fonte à Fábrica”
A caminhada “Da fonte à fábrica: metrópole sensível e imaginários urbanos” exemplificou essa metodologia ao explorar a presença do Córrego Água Preta, com nascentes próximas à Avenida Pompeia. O objetivo era perceber como o córrego, hoje em grande parte canalizado e soterrado, afeta física, poética e simbolicamente a metrópole.
Artur Rozestraten relata a jornada: “Ao seguirmos o curso do córrego, nós vamos percebendo o momento em que essa água é visível e está aflorada. É possível perceber algumas nascentes do córrego nesse trajeto, mas, logo em seguida, vemos como ele se torna invisível em vários pontos e essa relação de perda da visibilidade do córrego e reencontro com a água faz com que a gente reflita sobre a história da cidade e sobre futuros possíveis para São Paulo”.
Além de ser uma imersão na história e geografia urbana, a caminhada também serviu para testar funcionalidades da nova versão da plataforma Arquigrafia, um espaço colaborativo para compartilhamento de imagens de edifícios e espaços urbanos da comunidade de língua portuguesa.
Colaboração e Novas Perspectivas na Arquigrafia
A integração das caminhadas fotográficas com a plataforma Arquigrafia é um ponto chave. Gustavo Alves Machado, bolsista de Jornalismo Científico do Arquigrafia, destaca a funcionalidade das tags, como a utilizada #dafonteafabrica. “Todas as fotos que as pessoas tiraram na caminhada vão aparecer juntas. É muito rico isso, porque vão ter fotos de várias pessoas, de detalhes diferentes dos mesmos locais. São várias visões que integram esse todo”, explica Machado, ressaltando o potencial máximo da colaboração.
Gabriela Momberg, bolsista do Arquigrafia e mestranda em Design na FAU, acrescenta que as imagens criadas enriquecem o acervo da plataforma, permitindo que as percepções vividas in loco sejam acessadas e reinterpretadas por outros usuários. “O Arquigrafia tem, então, essa qualidade de instigar a curiosidade, o olhar atento e a vivência da cidade em primeira pessoa ao mesmo tempo que nos permite visualizar o encontro entre essas experiências pessoais em um mesmo espaço gráfico na plataforma”, afirma.
A experiência coletiva também fomenta diálogos e expande a memória do grupo sobre a cidade, gerando novas conversas e caminhos. José Campos, mestrando em Arquitetura e Urbanismo, que se mudou recentemente para São Paulo, considerou a caminhada enriquecedora: “ter contato com a nova versão da plataforma Arquigrafia, entendendo melhor o projeto, despertou um olhar quanto à importância de preservar, por meio da imagem, o ambiente construído”.
As fotografias da caminhada “Da fonte à fábrica: metrópole sensível e imaginários urbanos” estão disponíveis para visualização na versão em desenvolvimento do Arquigrafia. Para acompanhar os trabalhos do projeto, siga os perfis do Arquigrafia e do Estúdio Ceda el Paso no Instagram.
Fonte: jornal.usp.br
