A forma como nos deslocamos pela cidade e a qualidade da infraestrutura urbana têm um impacto direto e, muitas vezes, invisível na educação. Uma tese de doutorado recente, apresentada à Escola Politécnica (Poli) da USP pela pesquisadora Bruna Pizzol, lança luz sobre como a precariedade das calçadas e os longos percursos diários para chegar à escola alimentam a desigualdade educacional em grandes metrópoles brasileiras, como São Paulo e Belo Horizonte.
Mobilidade Urbana: Mais que Deslocamento, um Fator de Desigualdade
Intitulada “Caminhos para a equidade: uma abordagem multidimensional para a análise da mobilidade e da acessibilidade às escolas”, a pesquisa, orientada pela professora Mariana Giannotti, do Departamento de Engenharia de Transportes da Poli, inova ao ir além da simples quantidade de unidades escolares. Ela incorpora a qualidade de ensino das instituições e a infraestrutura do entorno, um olhar pouco explorado na literatura global, que geralmente foca em cidades do Norte Global com realidades sociais distintas das latino-americanas.
O interesse de Bruna Pizzol em investigar as desigualdades sociais e os desafios diários dos estudantes em seus caminhos para a escola foi o fio condutor de seu trabalho. A tese é composta por três artigos que abordam a qualidade do ensino, a caminhabilidade e as desigualdades cumulativas na acessibilidade, utilizando inclusive métodos de machine learning para analisar questões sociais reais.
O Peso das Calçadas e da Distância no Acesso à Escola
Entre as descobertas mais impactantes do estudo, destaca-se a disparidade na distância percorrida por alunos em busca de uma educação de qualidade. A pesquisa revela que o tempo de deslocamento a pé até a melhor escola pública analisada pode ser dez vezes maior do que o necessário para alcançar a melhor escola particular. Este dado é alarmante, especialmente considerando que 65% dos alunos da rede pública vão a pé para a escola, muitos deles por não terem outra opção de transporte, sendo classificados como “pedestres compulsórios”. Em contraste, apenas 23% dos estudantes de escolas particulares se enquadram nessa categoria.
A infraestrutura urbana precária agrava esse cenário. Em São Paulo, por exemplo, 65,3% das escolas estão localizadas em áreas com calçadas estreitas e em mau estado. “A distribuição de calçadas espelha a segregação socioespacial da cidade”, afirma a pesquisadora, evidenciando como a qualidade do espaço público está diretamente ligada às desigualdades sociais.
Exclusão Social e Racial no Ensino de Qualidade
A análise demográfica do estudo reforça a dimensão da desigualdade. Os alunos sem acesso às melhores escolas da cidade, grupo investigado no terceiro artigo da tese, apresentam uma proporção 44% maior de pessoas pretas, pardas e indígenas, além de uma renda 34% menor em comparação com aqueles que conseguem frequentar essas instituições. Isso significa que a precarização da acessibilidade às melhores escolas, na prática, exclui populações não brancas e de baixa renda do ensino de qualidade em cidades como São Paulo e Belo Horizonte.
Caminhos para a Equidade: Recomendações e Futuras Pesquisas
Diante desses achados, o estudo de Bruna Pizzol aponta recomendações claras para políticas públicas. É fundamental investir na qualidade do ensino escolar nas periferias e priorizar melhorias na infraestrutura pedestre, especialmente nas áreas com maior concentração de “pedestres compulsórios”.
A pesquisadora também destaca os desafios enfrentados durante a tese, como a ausência de dados mais recentes para Belo Horizonte e a complexidade de selecionar variáveis para um tema tão multidimensional. Para estudos futuros, a doutoranda sugere a investigação desse fenômeno em outras cidades do Sul Global e a incorporação de dados que permitam acompanhar a evolução temporal dos níveis de acessibilidade, além de considerar a percepção dos próprios estudantes sobre a segurança e a qualidade dos caminhos.
A pesquisa da USP não apenas revela a profunda conexão entre mobilidade urbana e desigualdade educacional, mas também oferece um caminho para que gestores públicos possam construir cidades mais equitativas, onde o acesso à educação de qualidade não seja um privilégio, mas um direito garantido pela infraestrutura urbana.
Fonte: jornal.usp.br
