Brincar Continua Essencial: Especialista da USP Destaca Equilíbrio entre Tecnologia e Brincadeiras Tradicionais para o Desenvolvimento Infantil

Brincar é uma atividade universal e fundamental para o desenvolvimento infantil em todas as culturas e épocas. Seja no esconde-esconde, amarelinha, pega-pega, pular corda ou em atividades com bicicletas e jogos, o ato lúdico molda o crescimento físico, emocional, social e cognitivo das crianças. No entanto, o avanço tecnológico e as mudanças no estilo de vida contemporâneo têm redefinido a forma como a infância é vivenciada.

Carlota Boto, professora da Faculdade de Educação da USP (FEUSP) e presidente da Editora da USP (Edusp), enfatiza que brincar é uma expressão genuína da infância e uma característica antropológica comum a todas as sociedades. "Ao brincar, a criança utiliza a imaginação para experimentar diferentes papéis sociais, construir vínculos afetivos e desenvolver sua criatividade. Além disso, aprende a conviver com outras pessoas, negociar regras, resolver conflitos e compreender as normas da vida em sociedade", afirma a especialista.

Transformações na Infância e o Impacto da Tecnologia

A professora Boto explica que as brincadeiras acompanharam as transformações sociais. No passado, era comum ver crianças ocupando ruas e praças com atividades como amarelinha e bola de gude. Com a urbanização e a industrialização, brinquedos de larga escala passaram a fazer parte da rotina infantil. Mais recentemente, celulares, computadores e videogames alteraram os hábitos de lazer das novas gerações.

Carlota Boto ressalta que a tecnologia não é a única responsável. A urbanização também reduziu espaços públicos seguros e aumentou a sensação de insegurança. Isso levou muitas famílias a restringir as brincadeiras ao ambiente doméstico, onde os dispositivos eletrônicos ganharam protagonismo. O uso excessivo da tecnologia pode ser prejudicial ao desenvolvimento infantil.

Equilíbrio Essencial: Telas e Atividades Lúdicas

Para a especialista da USP, o uso de jogos eletrônicos não precisa ser eliminado, mas deve conviver com atividades que estimulem a imaginação, a interação social e o desenvolvimento motor. "O mais importante é que a criança tenha oportunidades de brincar de diferentes maneiras, explorando materiais variados e convivendo com outras crianças", destaca Carlota Boto.

A pesquisadora também observa que as formas de brincar variam de acordo com as condições sociais e econômicas. Em muitas comunidades, ainda é comum ver crianças utilizando ruas e espaços públicos. Já entre famílias de classe média e alta, o tempo dentro de casa costuma ser maior, favorecendo atividades individuais mediadas por telas.

Família e Escola: Pilares do Desenvolvimento Integral

Carlota Boto destaca que a família e a escola têm um papel decisivo na promoção de uma infância equilibrada. Os pais devem incentivar brincadeiras diversificadas, como jogar bola, pular corda, brincar de boneca e utilizar jogos educativos, conciliando-as com o uso moderado da tecnologia. A escola, por sua vez, deve incorporar práticas lúdicas ao processo de ensino.

Como exemplo, a professora cita a educadora italiana Maria Montessori, que desenvolveu materiais pedagógicos capazes de estimular a aprendizagem por meio de atividades lúdicas e auto-dirigidas. Essa proposta demonstra que brincar e aprender podem caminhar juntos, tornando o processo educativo mais significativo.

Além disso, Carlota ressalta a importância da escola como espaço de convivência e socialização. Para ela, o ambiente escolar permite que as crianças desenvolvam habilidades sociais essenciais por meio do contato com colegas e professores. Por isso, manifesta preocupação com propostas de ensino exclusivamente domiciliar, que podem restringir essas experiências coletivas.

Ao final, a especialista reforça que valorizar o brincar é uma responsabilidade compartilhada por famílias, educadores e pela sociedade. Garantir espaços seguros, promover o equilíbrio entre tecnologia e brincadeiras tradicionais e fortalecer o papel da escola são medidas essenciais para que as crianças tenham uma infância saudável, criativa e rica em experiências que contribuam para sua formação como cidadãos.

Fonte: jornal.usp.br

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