A discussão global sobre mudanças climáticas, que por muito tempo esteve associada primariamente à redução de emissões, evoluiu para um cenário de complexidade muito maior. A crise climática deixou de ser apenas uma questão ambiental e passou a envolver energia, indústria, agricultura, infraestrutura, tecnologia, geopolítica e desenvolvimento econômico. Em outras palavras, estamos diante de uma profunda reorganização das relações entre a sociedade, a natureza e os sistemas produtivos.
É nesse contexto que as tecnologias de Captura, Uso e Armazenamento de Carbono (CCS e CCUS) têm ganhado importância crescente no debate internacional. De forma simplificada, CCS (Carbon Capture and Storage) significa captura e armazenamento de carbono, enquanto CCUS (Carbon Capture, Utilization and Storage) inclui também a utilização industrial do carbono capturado em combustíveis, materiais e processos químicos. Embora essas tecnologias sejam frequentemente associadas à indústria do petróleo e gás, seu significado pode variar enormemente conforme a trajetória energética e econômica de cada país.
O Cenário Distinto do Brasil na Descarbonização
Nesse quesito, o Brasil ocupa uma posição singular e altamente vantajosa. Poucos países combinam simultaneamente uma matriz energética relativamente limpa, grande capacidade de produção de biomassa, experiência histórica em bioenergia, um forte setor agroindustrial, elevada biodiversidade e um potencial geológico significativo para armazenamento de carbono. Essa combinação única permite ao Brasil construir uma trajetória de descarbonização que se distancia dos modelos europeus ou norte-americanos.
Nos Estados Unidos e em parte da Europa, a captura de carbono surgiu principalmente como mecanismo de mitigação para setores de combustíveis fósseis já estabelecidos, adaptando infraestruturas intensivas em carbono. No Brasil, porém, é possível construir um caminho diferente, articulando bioenergia, biomassa, agricultura, bioeconomia e sistemas renováveis, com o foco em uma descarbonização mais abrangente e inovadora.
BECCS: A Vantagem Brasileira na Remoção de Carbono
Talvez a ideia mais importante nesse contexto seja o BECCS (Bioenergy with Carbon Capture and Storage). O conceito é relativamente simples, mas suas implicações são profundas: as plantas removem dióxido de carbono da atmosfera durante a fotossíntese. Essa biomassa pode, então, ser utilizada para produzir energia, etanol, biogás ou biocombustíveis. Se o CO₂ liberado nesses processos for capturado e armazenado com segurança em reservatórios geológicos profundos, o sistema pode gerar emissões líquidas negativas. Ou seja, em vez de apenas reduzir as emissões futuras, passamos a remover carbono da atmosfera.
Isso é particularmente relevante porque alguns setores industriais enfrentam enormes dificuldades para se descarbonizar por completo. São os chamados setores de difícil abatimento: cimento, siderurgia, indústria química, aviação e parte do transporte pesado. Em muitos desses casos, a eletrificação direta ainda enfrenta limitações técnicas, econômicas ou estruturais significativas. Por isso, as tecnologias de captura de carbono podem desempenhar um papel relevante na transição energética desses segmentos.
Superando Desafios com Estratégia Nacional
É importante, contudo, evitar simplificações. CCS e CCUS não são soluções mágicas. Existem desafios relevantes associados a essas tecnologias: os custos ainda permanecem elevados; há necessidade de infraestrutura complexa para captura, transporte e armazenamento; o monitoramento geológico precisa ser contínuo e rigoroso; e ainda existem incertezas regulatórias e questões relacionadas à aceitação social. Além disso, há um debate internacional crescente sobre o risco de certas estratégias de CCS prolongarem excessivamente a dependência da economia fóssil.
Essa talvez seja, hoje, a principal questão política associada ao tema. A pergunta não deveria ser simplesmente se CCS pode ou não ser utilizado. A questão mais importante é: em quais setores, contextos e trajetórias de desenvolvimento essas tecnologias fazem sentido do ponto de vista climático, econômico e social? No caso brasileiro, a resposta passa necessariamente pela integração entre bioenergia, agricultura, inovação tecnológica e bioeconomia. O Brasil acumulou, ao longo de décadas, uma enorme experiência em etanol, cogeração, biomassa e sistemas agroenergéticos, criando uma base produtiva e científica favorável ao desenvolvimento de rotas de BECCS em larga escala.
A Nova Economia do Carbono e o Papel Estratégico do Brasil
A transição climática global está produzindo algo próximo de uma nova economia do carbono. Mercados de carbono, rastreabilidade ambiental, certificação de emissões, tecnologias de remoção e cadeias industriais de baixo carbono deverão ganhar importância crescente nas próximas décadas. Quem dominar essas tecnologias terá vantagens competitivas relevantes. Nesse cenário, o Brasil poderia assumir uma posição estratégica internacional. Mas isso depende das escolhas feitas agora, exigindo a construção de marcos regulatórios consistentes, ampliação dos investimentos em pesquisa, fortalecimento dos mecanismos de financiamento e integração entre universidades, centros de pesquisa, setor produtivo e políticas públicas.
A agenda é profundamente interdisciplinar, envolvendo engenharia, biologia, geologia, química, ciência de materiais, inteligência artificial, modelagem computacional, monitoramento ambiental e governança. Ou seja, não estamos falando apenas da instalação de equipamentos industriais, mas da reorganização de uma parte importante da infraestrutura produtiva e energética do século 21. A bioeconomia constitui uma das chaves centrais desse processo, propondo utilizar sistemas biológicos, biomassa, biodiversidade e processos renováveis para produzir energia, materiais, produtos químicos e alimentos. Nesse contexto, CCS e CCUS podem funcionar como tecnologias complementares a uma economia de baixo carbono baseada em recursos biológicos, transformando o carbono de resíduo em um elemento estratégico da reorganização industrial.
A crise climática deixou de ser apenas um problema ambiental. Ela se tornou uma questão metabólica da relação entre sociedade, energia, indústria e natureza. Tecnologias de captura e uso de carbono certamente não resolverão esse problema sozinhas, mas podem ser parte importante das soluções, desde que inseridas em estratégias mais amplas de transição ecológica, de desenvolvimento sustentável e de redução efetiva das emissões globais. No caso brasileiro, a maior oportunidade está justamente na possibilidade de construir uma trajetória própria e, em grande parte, independente. Uma trajetória baseada no carbono como uma oportunidade e não como um vilão, transformando a transição climática em um vetor de desenvolvimento nacional.
Fonte: jornal.usp.br