Brasil Despenca no Ranking de Competitividade Global: Entenda Como a Qualidade da Mão de Obra e a Flexibilização Trabalhista Freiam o Desenvolvimento Econômico
Especialistas apontam que a queda para a 65ª posição entre 70 países reflete problemas estruturais no mercado de trabalho, na qualificação profissional e na infraestrutura, exigindo reformas urgentes para reverter o cenário.
A recente queda do Brasil no Ranking Mundial de Competitividade acende um alerta sobre os desafios estruturais que o país enfrenta. Atingindo a 65ª posição entre 70 nações analisadas, o desempenho é o pior dos últimos anos, evidenciando uma incapacidade de promover crescimento sustentável com ganhos de produtividade. Especialistas como Hélio Zylberstajn e Wilson Amorim, ambos professores da FEA-USP, destacam a baixa qualificação da mão de obra e a flexibilização das relações trabalhistas como fatores cruciais que entravam a competitividade brasileira.
A Queda do Brasil no Ranking Global
O levantamento do IMD (International Institute for Management Development), que utiliza 341 critérios subdivididos em 20 categorias, revelou que o Brasil caiu sete posições em relação ao ano anterior. O país apresentou quedas em fatores como práticas de gestão, economia local, preços, produtividade e eficiência, política tributária, infraestrutura tecnológica e, notavelmente, o mercado de trabalho. Essa baixa competitividade reflete uma dificuldade em gerar crescimento sem sustentação da produtividade, resultando em queda no rendimento e no bem-estar da população.
Mão de Obra e Infraestrutura: Gargalos Essenciais
Para Hélio Zylberstajn, a baixa qualificação da mão de obra é um dos principais entraves. “O trabalhador brasileiro tem um nível de escolaridade relativamente baixo e de qualidade muito ruim. A produtividade desse trabalhador está muito relacionada com a escolaridade, com a qualificação”, afirma o professor. Wilson Amorim complementa, apontando para a heterogeneidade e desigualdade do Brasil, um país de dimensões continentais com distribuição desigual das atividades econômicas e níveis de assalariamento. Além disso, a carência de investimentos em infraestrutura é um fator crítico. Zylberstajn exemplifica com a ausência de ferrovias, que encarece o transporte de cargas e diminui a produtividade, enquanto a crise fiscal do governo limita a capacidade de investimento nessas áreas vitais.
A Flexibilização e a Pejotização do Trabalho
As mudanças nos regimes de contratação também impactaram o mercado de trabalho. A Reforma Trabalhista de 2017, com sua bandeira de flexibilização, estimulou a individualização dos contratos e enfraqueceu a justiça do trabalho e a atuação sindical, segundo Wilson Amorim. Esse movimento levou a uma fragmentação do mercado e ao crescimento consistente do trabalhador por conta própria — em São Paulo, um a cada quatro trabalhadores já é autônomo. A contratação via Pessoa Jurídica (PJ), ou “pejotização”, permite às empresas se desobrigar de direitos trabalhistas e, muitas vezes, de investir na qualificação do profissional. Hélio Zylberstajn destaca a emergência do “emprego just in time”, impulsionado por plataformas digitais, que exige novas formas de regulamentação. No entanto, o professor Amorim alerta que esse modelo, ao diminuir o custo do trabalho, pode resultar em pouca ou nenhuma contribuição para a Previdência Social, gerando vulnerabilidade para o trabalhador e um desafio sistêmico para a sociedade.
Desafios e Perspectivas para o Futuro
Diante deste cenário complexo, os especialistas apontam caminhos urgentes. Para Wilson Amorim, a qualificação da população e da mão de obra é fundamental. “A combinação de políticas públicas tem que se colocar na diminuição das heterogeneidades, das desigualdades e dar às famílias a oportunidade de ingressar nessa parte da sociedade, que é o do trabalho formal”, defende. Hélio Zylberstajn, por sua vez, ressalta o problema fiscal do governo brasileiro, que, com gastos excessivos e endividamento, não consegue investir no país. A reformulação da gestão fiscal, com corte e melhoria da qualidade dos gastos, seria crucial para diminuir as taxas de juros, atrair investimentos e, consequentemente, impulsionar o crescimento e a produtividade. A “asfixia tributária” impede que o Brasil respire, cresça e aumente sua produtividade, exigindo uma abordagem multifacetada para superar os obstáculos à competitividade.
Fonte: jornal.usp.br
