A série “Topias e Tropias Universitárias”, em sua terceira parte, mergulha na complexa relação entre a autonomia e os fenômenos de “tropia” em suas diversas acepções, desde o desvio ocular até os princípios fundamentais da física. O professor sênior da USP, Guilherme Ary Plonski, explora como esses conceitos podem oferecer uma lente poderosa para analisar o funcionamento das instituições de ensino superior, especialmente no contexto brasileiro, e a urgência de estratégias que combatam a desordem e promovam a vitalidade acadêmica.
Das Tropias à Entropia: Uma Jornada Conceitual
O vocábulo “tropia” inicia sua jornada conceitual na oftalmologia, designando o desvio ocular manifesto, uma forma de estrabismo. Contudo, anomalias análogas se manifestam no mundo institucional, como o caso de um docente estadunidense que teve sua efetivação (tenure) recusada por priorizar inovações pedagógicas em detrimento de publicações em periódicos renomados, contrariando um discurso institucional anterior sobre a renovação do ensino. Esse é um exemplo claro de desvio entre o ideal e a prática.
A segunda acepção, de mudança de orientação, é ilustrada pelo “tropismo” na biologia, onde organismos respondem a estímulos externos. Plantas que buscam a luz solar (fototropismo) ou água (hidrotropismo) são exemplos. No ambiente acadêmico, essa metáfora se traduz na orientação de grupos para fontes de financiamento, reconhecimento e legitimidade. A diferença crucial, porém, é que, ao contrário dos organismos biológicos, grupos acadêmicos podem participar ativamente da definição das necessidades sociais, por meio de estudos e proposição de agendas. O tropismo é virtuoso quando alinhado a demandas sociais relevantes, mas pernicioso quando direcionado a modismos, interesses corporativos ou cooptação, como os crescentes esforços geopolíticos para aliciar setores universitários a causas sectárias.
A terceira e mais abrangente acepção é a de “transformação”, que deu origem ao termo “entropia”, cunhado pelo físico e matemático Rudolf Clausius em 1865. Associada à energia térmica de um sistema que se dissipa e se torna indisponível para trabalho útil, a entropia fornece uma “seta do tempo” para os processos físicos, indicando o sentido preferencial em que ocorrem. Clausius, que iniciou sua carreira na paradigmática Universidade de Berlim (modelo utópico de universidade), consolidou a noção de entropia em Zurique, um vibrante centro intelectual que atraiu figuras como Einstein, Wagner e Jung. Foi nesse ambiente que a Escola Politécnica (hoje parte da USP) teve sua inspiração, por meio do jovem ituano Antônio Francisco de Paula Souza, que buscava um vetor para a modernização industrial do País.
A ideia de entropia rapidamente instigou mentes brilhantes. Ludwig Boltzmann, criador da mecânica estatística, ligou a entropia à desordem molecular. Mais tarde, em 1948, Claude Shannon, no Bell Labs, desenvolveu o conceito de “entropia da informação” para quantificar a informação perdida em sinais telefônicos. A sugestão do nome veio de John von Neumann, que, em um encontro com Shannon, argumentou que a matemática era semelhante à mecânica estatística de Boltzmann e, espirituosamente, que “ninguém compreende muito bem a entropia, pelo que em qualquer discussão você estará numa posição vantajosa”. Essa opacidade e a subsequente popularização levaram ao uso generalizado do termo, muitas vezes de forma descuidada, para indicar desordem crescente de qualquer natureza, a ponto de cientistas como Frank Lambert dedicarem a vida a preservar seu conceito técnico original.
Entropia e a Vida: De Schrödinger à Neguentropia
A complexidade da entropia e seu impacto universal levaram José Eli da Veiga, professor sênior da USP, a recomendar o livro “L’Entropie Créatrice” (“A Entropia Criadora”), que ecoa o conceito de “destruição criadora” de Schumpeter. Os autores da obra alertam contra a associação direta da entropia com desordem e caos, valorizando-a como um princípio universal que pode ajudar a entender o Universo, a vida e as sociedades humanas.
Uma base robusta para essa compreensão abrangente foi fornecida pelo físico Erwin Schrödinger, criador do famoso gato teórico e da mecânica ondulatória. Em sua influente obra “O Que é Vida?” (1944), Schrödinger aborda a “Ordem, Desordem e Entropia”. Ele demonstra que a aplicabilidade da segunda lei da termodinâmica à vida humana deve considerar que a biosfera não é um sistema isolado. O crescimento da ordem em um organismo vivo não contraria a lei, pois é compensado pelo aumento da desordem em seu entorno, devido à perda de calor para o ambiente.
Schrödinger introduz a ideia de “entropia negativa” (negentropia), explicando que um organismo vivo “se alimenta de entropia negativa (…) a fim de compensar o aumento de entropia que produz ao viver”, extraindo continuamente organização de seu ambiente. Essa proposição, combinada com as conceituações de Norbert Wiener em “Cibernética” (1948), levou o físico Léon Brillouin a cunhar o neologismo “negentropia”. Esse conceito descreve a tendência de sistemas complexos, como seres vivos e instituições, a aumentarem sua organização sem violar a segunda lei da termodinâmica. Enquanto sistemas isolados tendem à desordem, a neguentropia explica como organismos em sistemas abertos importam energia do ambiente para manter estrutura, ordem e equilíbrio.
A dualidade entropia-negentropia se tornou relevante para diversas áreas, incluindo a Geografia (como na obra de Milton Santos) e, notavelmente, a gestão de organizações. Já em 1966, os professores Katz e Kahn, em “Psicologia Social das Organizações”, incorporaram o conceito, afirmando que “como sistemas abertos, as organizações sobrevivem apenas enquanto forem capazes de manter a neguentropia – isto é, importar, sob todas as formas, quantidades de energia maiores do que aquelas que devolvem ao ambiente na forma de produto”. Eles levantaram a indagação crítica sobre a magnitude desse custo: quanto da energia que flui para o sistema emerge como produto e quanto é absorvido pela própria manutenção do sistema?
A Universidade como Sistema Aberto: Combatendo a Entropia Institucional
Os conceitos de entropia e neguentropia começam a ser considerados em estudos sobre gestão universitária. Em 2020, Carr-Chellman, Freeman e Kitchel, no Journal of Higher Education Management, publicaram o artigo “Negentropy: Systems Theory and Chaos for University Leadership and Management”. Eles observam que, à medida que qualquer organização progride, ela continuamente incorpora novas responsabilidades, responde a novos requisitos, expande-se e gera uma entropia natural. Agentes neguentrópicos, portanto, são essenciais para impedir que a desintegração prevaleça.
Os autores argumentam que a simples manutenção da estrutura existente, ou a prevenção da desintegração, não é suficiente para uma organização de ensino superior. Uma universidade viva requer mais: a liberação de novas energias, a introdução de algo novo que, embora possa causar perturbação inicial, não leve à desintegração. Trata-se de sustentar uma organização vibrante e ativa, em constante busca por novas fontes de energia, combatendo a perda de energia, mapeando-a, compreendendo-a, enfrentando-a e, por fim, incorporando novas fontes de vitalidade.
Ao examinar ações voltadas à neguentropia no âmbito das universidades, os pesquisadores identificam quatro caminhos cruciais: a contratação de atores neguentrópicos, especialmente docentes inovadores, para combater a desintegração natural das instituições; a facilitação por parte da liderança; o ensino voltado para ações neguentrópicas; e o trabalho ativo do corpo técnico-administrativo. No entanto, alertam para a necessidade de equilíbrio, pois a contratação exclusiva de atores neguentrópicos poderia gerar excesso de disrupção, fragmentação e mudanças. A recomendação é buscar a combinação ideal entre tradição e mudança para a perenidade da instituição.
Desafios da Autonomia no Brasil: Regulamentação e Cultura
O avanço em direção ao tópos elevado proposto pelo professor Naomar para a universidade brasileira exige estratégias neguentrópicas. Para tanto, a universidade pública brasileira precisa superar dois desafios principais. O primeiro é reduzir a entropia decorrente do ambiente regulatório, que se origina da regulamentação do ensino superior e da interpretação prevalente do direito administrativo, onde a lógica do controle frequentemente sobrepuja a lógica da entrega de resultados.
A importância dessa mitigação impulsiona um esforço coletivo de universidades federais e estaduais para assegurar, na prática, a autonomia estabelecida pela Constituição Federal. Iniciativas como o Ciclo Nacional de Seminários sobre Autonomia Universitária, que em 2024-25 realizou eventos em todas as regiões do Brasil, são fundamentais. Embora avanços importantes tenham ocorrido desde 1988, com destaque para a autonomia financeira conquistada por universidades estaduais paulistas, catarinenses, potiguares e paraibanas, a “autonomia universitária no Brasil segue como um princípio em disputa”, tensionada por normativas ultrapassadas, controles excessivos e instabilidades orçamentárias, conforme a Carta de Brasília.
As instituições participantes reafirmam que “A autonomia universitária, consagrada como princípio constitucional, é um bem público, um valor civilizatório e um instrumento fundamental de afirmação da democracia, da justiça social e do desenvolvimento soberano. Onde há universidades autônomas, há liberdade de pensamento, inovação científica, produção de conhecimento crítico e compromisso com o bem comum”.
Um segundo desafio, de natureza cultural, é a universidade se perceber e ser percebida como um sistema aberto, dotado de interfaces porosas. A estratégia deve se refletir também no discurso acadêmico: mais do que apenas registrar os “impactos da universidade na sociedade”, é crucial estimular, desenvolver e destacar contribuições mutuamente proveitosas entre a universidade e os demais segmentos da sociedade. É fundamental lembrar que a universidade não é um organismo externo, mas parte integrante da sociedade.
A pergunta “qual universidade queremos?” é inseparável da questão de que forças conseguimos mobilizar para assegurar a autonomia plena, assim como da capacidade de dinamizar as interfaces da universidade com seu entorno relevante. O esforço coletivo, estratégico e permanente para lidar com a entropia institucional é a condição de possibilidade para qualquer topia desejada para a universidade brasileira.
Fonte: jornal.usp.br
