A complexidade da vida em sociedade, que desde a Grécia Antiga se dividia em dimensões ética, familiar e política, parece ser um conceito desafiador para muitos nos dias atuais. Especialmente em anos eleitorais, observa-se uma crescente aversão a temas de natureza política, um fenômeno que o professor Jean Pierre Chauvin, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, explora em sua análise sobre o discurso antipolítico.
Chauvin aponta que é comum encontrar indivíduos que demonstram repulsa por discussões políticas, mas que, paradoxalmente, adotam discursos de teor politiqueiro quando lhes convém, confundindo a verdadeira Política (com ‘P’ maiúsculo) com a mera politicagem. A Política, em seu sentido mais amplo, deveria ser compreendida como a arte e o conjunto de técnicas para a interação social, e não ser banalizada por interesses mesquinhos ou por uma micropolítica de escala e impacto limitados.
Política, Politicagem e o Abismo Conceitual
Existe uma distância considerável entre a macropolítica, que discute soberania, igualdade social e medidas macroeconômicas, e as políticas públicas setoriais. No entanto, o abismo conceitual entre a Política em sentido lato e a micropolítica é ainda maior. Enquanto a primeira se ocupa de questões estruturantes da sociedade, a segunda pode se restringir a interesses muito específicos, muitas vezes defendendo assimetrias ou naturalizando desigualdades.
De Onde Brota a Aversão à Política?
A origem do discurso avesso à política é multifacetada, brotando de preconceito geral, ignorância sobre os temas ou, em casos mais graves, de má-fé. Essa situação se agrava quando parcelas da sociedade são convencidas a desprezar questões econômicas, sociais e culturais que, em tese, não lhes diriam respeito. Contudo, esses mesmos grupos frequentemente se empenham em propagar fake news e em atuar como caricaturas de um pseudopatriotismo, reproduzindo discursos neocolonizados.
Os Pseudoengajados e o Falso Patriotismo
Aqueles que agem e discursam contra o debate político efetivo comportam-se como atores pseudoengajados. Seus movimentos, muitas vezes antidemocráticos, carregam um ar farsesco, e sua argumentação tende a ser autoritária e inconsistente. Cidadãos com essa mentalidade frequentemente concebem seu entorno de forma exclusiva e violenta, excluindo noções como povo, soberania e distribuição de renda de suas equações. Para eles, tudo se torna ‘gasto’ em vez de investimento, ‘demagogia’ em vez de reparação histórica, e ‘roubalheira’ em vez de sonegação generalizada de impostos.
O discurso refratário à ação política não admite transformação, pois seus defensores acreditam (ou fingem acreditar) que qualquer mudança em favor de outrem implica sacrifícios para aqueles que, supostamente, ‘venceram por mérito’ — muitas vezes, graças a uma série de privilégios. Essa postura revela uma dose de desfaçatez e até sadismo, ao se opor a medidas que beneficiariam a maioria, motivados pela obsessão em se distinguir dos demais.
O Impacto da Desinformação e o Prejuízo Social
Nas últimas décadas, esse cenário se intensificou, impulsionado pelas redes sociais, canais de streaming e numerosos portais de desinformação, alguns deles financiados por poderosas empresas. Porta-vozes desses discursos proliferam em mídias tradicionais e, com ainda mais destaque, em podcasts que divulgam dados imprecisos e discussões superficiais, tudo em nome de um ‘novo país’ que parece ignorar os fatos críticos.
Muitos dos que protestam estar ‘fartos de política’ frequentemente desprezam seus concidadãos e ignoram a história de seu próprio país. Não hesitam em submeter as pessoas ao seu redor à antiética do lucro, uma contraparte do logro. É crucial lembrar que o discurso que se diz contrário à política não é neutro, desinteressado ou isento. Intitular-se ‘cidadão de bem’ quase sempre esconde uma postura egoica, incapaz de se reconhecer como parte de uma população que compartilha a mesma pátria.
Fonte: jornal.usp.br
