Antidepressivo Fluoxetina Revela Potencial Promissor no Combate a Doenças Inflamatórias e Atenuação da COVID-19, Aponta Pesquisa da USP

Antidepressivo Fluoxetina Revela Potencial Promissor no Combate a Doenças Inflamatórias e Atenuação da COVID-19, Aponta Pesquisa da USP

Estudo da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP desvenda mecanismo secundário da fluoxetina que “blinda” células contra a inflamação descontrolada, sugerindo um novo caminho para terapias em infecções virais.

Uma pesquisa inovadora realizada na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP trouxe à tona um novo e promissor potencial da fluoxetina, um medicamento amplamente conhecido no tratamento de transtornos de ansiedade e depressão. O estudo investigou a capacidade da droga de atuar no tratamento de doenças inflamatórias, com foco especial na resposta imunológica contra o vírus SARS-CoV-2, causador da COVID-19.

Os cientistas analisaram como a fluoxetina interage com os macrófagos – células essenciais do sistema de defesa do organismo – quando expostos a partículas inativadas do coronavírus. Os resultados demonstraram que, embora o medicamento não elimine o vírus, ele o torna significativamente menos agressivo, resultando na atenuação dos sintomas e da gravidade da infecção. Essa descoberta pode guiar decisões clínicas, especialmente para pacientes que já utilizam a fluoxetina e desenvolvem quadros de COVID-19.

Desvendando o Mecanismo de Ação Anti-inflamatório

Tradicionalmente, a fluoxetina opera como um inibidor da recaptação de serotonina, elevando a atividade desse neurotransmissor no cérebro. No entanto, a pesquisa da USP revelou um mecanismo secundário fascinante: a droga age sobre enzimas localizadas no citoplasma das células, as esfingomielinases ácidas. Essas enzimas são cruciais no metabolismo dos esfingolipídios, lipídios que funcionam como mediadores e reguladores das respostas celulares dependentes de membranas.

Em infecções como a da COVID-19, uma resposta imunológica descontrolada pode levar a uma inflamação generalizada, conhecida como “tempestade de citocinas”. O estudo, coordenado pelo docente Carlos Sorgi e tendo como primeiro autor o doutorando Jonatan Constança Silva de Carvalho, demonstrou que a fluoxetina pode inibir o eixo dependente da esfingomielinase ácida (Asmase-Cer). Este eixo é responsável por metabolizar a esfingomielina em ceramida, um mediador inflamatório que promove a morte celular e respostas inflamatórias.

Ao bloquear a produção de ceramidas, a fluoxetina aumenta a concentração de outros esfingolipídios, como a esfingomielina (SM) e a esfingosina-1-fosfato (S1P), que possuem funções de redução da inflamação. Em essência, esses produtos se acumulam nos macrófagos, “blindando” as células contra o reconhecimento e a fusão do vírus. Carlos Sorgi explica que o medicamento atua antes da montagem do processo inflamatório, como se as células ficassem protegidas desde o ponto de partida da infecção.

O Papel das Vesículas Extracelulares na Comunicação Celular

Além de sua ação direta sobre os macrófagos, a pesquisa também explorou a influência da fluoxetina nas vesículas extracelulares (VEs). Essas vesículas são cruciais para a comunicação entre as células e podem propagar sinais inflamatórios, mesmo para células não infectadas. Em macrófagos infectados pelo SARS-CoV-2, as VEs podem induzir comportamentos inflamatórios em células vizinhas, funcionando como um “sinal de perigo”.

Os resultados mostraram que a fluoxetina, ao diminuir a ativação dos macrófagos, não altera a quantidade de VEs produzidas, mas modifica sua composição de biomoléculas, especialmente lipídios. Essa alteração na composição faz com que as vesículas se tornem menos inflamatórias, influenciando positivamente as células receptoras ao redor. Assim, a fluoxetina atua em dois pilares: modulando a membrana celular para dificultar o reconhecimento viral e tornando o conteúdo das VEs menos pró-inflamatório, o que contribui para que a COVID-19 não evolua para quadros graves em pacientes sob tratamento.

Implicações Clínicas e Recomendações Futuras

Durante a pandemia, observações clínicas já indicavam que pacientes utilizando fluoxetina e fluvoxamina apresentavam quadros mais brandos de COVID-19, com menor necessidade de internação em UTI ou suporte respiratório. O estudo da USP agora fornece a base molecular para entender “o porquê” dessas observações, mesmo sendo uma pesquisa in vitro (não realizada em seres humanos).

A descoberta abre caminho para que o tratamento de transtornos de ansiedade e depressão possa ocorrer concomitantemente com o de COVID-19 ou outras doenças infecciosas, oferecendo um redirecionamento para médicos que antes poderiam ter dúvidas sobre a interrupção da medicação. Além disso, os pesquisadores vislumbram a possibilidade de desenvolver novos medicamentos que foquem exclusivamente na inibição de ceramidas, criando uma nova classe de anti-inflamatórios potentes para infecções virais.

Apesar do potencial promissor, Carlos Sorgi reforça a importância de que a fluoxetina seja utilizada para o tratamento da COVID-19 apenas com indicação psiquiátrica. Ele salienta que, embora seja um bom tratamento adjuvante, não é o principal para infecções e pode ter efeitos colaterais relacionados ao sistema nervoso central em pacientes sem um quadro de depressão. A pesquisa foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e o artigo completo está disponível para consulta.

Fonte: jornal.usp.br

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