Além do Japão: Museu do Ipiranga Revela a Riqueza Étnica e a História Oculta do Bairro da Liberdade em São Paulo com Exposição Gratuita

“Qual o seu bairro da Liberdade? Quais Liberdades você conhece? Quais Liberdades foram ocultadas?” Com essas perguntas instigantes, o Museu do Ipiranga convida o público a mergulhar na complexa e multifacetada história de um dos bairros mais emblemáticos de São Paulo. A nova exposição temporária, intitulada “Liberdade: Bairro Plural”, será inaugurada nesta terça-feira, 7 de julho, e permanecerá em cartaz até o final de janeiro de 2027, com entrada gratuita.

Conhecido atualmente como um dos maiores polos asiáticos fora do Oriente, a Liberdade guarda um passado muito mais diverso e, por vezes, doloroso. A mostra tem como objetivo principal desmistificar a percepção comum do bairro, revelando as múltiplas comunidades étnicas que, ao longo do tempo, contribuíram para sua formação.

A Liberdade Além do Olhar Comum

Longe de ser exclusivamente japonês, o bairro da Liberdade foi historicamente povoado por uma vasta gama de imigrantes, incluindo alemães, russos, libaneses, bolivianos, italianos e afro-brasileiros, entre muitos outros. A identidade “japonesa” que hoje predomina na arquitetura e no comércio é, em grande parte, resultado de uma intervenção da prefeitura paulistana na década de 1970, visando transformá-lo em um “bairro japonês”.

A exposição, que levou um ano para ser montada, reúne um vasto acervo de objetos, fotografias, mobiliários, vestimentas, instrumentos musicais, obras de arte e documentos. Esses itens foram gentilmente cedidos por 15 importantes instituições culturais, religiosas e comunitárias, como a Associação Okinawa Kenjin do Brasil, o Museu Histórico da Imigração Japonesa, o Templo Budista Busshinji, a Sociedade Filarmônica Lyra, a Catedral Ortodoxa Russa, a Catedral Maronita Nossa Senhora do Líbano, a Casa de Portugal e a Capela dos Aflitos.

Sob a curadoria dos historiadores Paulo Garcez, diretor do Museu do Ipiranga, e Mônica Schpun, com a colaboração dos curadores adjuntos Aline Montenegro Magalhães, Francisco Andrade e David Ribeiro, a exposição é um convite à interatividade. Repleta de recursos táteis e visuais, a mostra permite que os visitantes toquem em diversos itens reproduzidos. No centro da sala, uma projeção imersiva narra a história da formação do bairro, recriando relevos e destacando pontos geográficos importantes, como rios e avenidas, desde os primórdios até a urbanização.

Vestígios de um Passado Doloroso

O próprio nome “Liberdade” carrega uma história marcante. Originalmente, remete a um chafariz construído para celebrar a saída de D. Pedro I do poder, transferido para o Largo da Forca, que em 1858 se tornou oficialmente Praça da Liberdade. O professor Paulo Garcez, curador da exposição, explica que os terrenos da região eram os mais baratos da cidade devido aos “equipamentos difíceis” que ali existiam, como a forca pública.

Onde hoje se encontra a Praça da Liberdade, funcionava o “Largo da Forca” durante o Império, local de punição e execução de pessoas escravizadas. A Igreja de Santa Cruz dos Enforcados, ainda presente no bairro, homenageava e cultuava os mortos por enforcamento, e mantém até hoje um velário, sendo um local de fé tanto para católicos quanto para religiões de origem Bantu.

Outro marco doloroso é a Capela dos Aflitos, a última remanescente do passado trágico do bairro. Construída no século XIX sobre o Cemitério dos Aflitos, onde eram sepultados escravizados e condenados, a capela é hoje alvo de pesquisas arqueológicas para desvendar o que está enterrado sob as construções modernas que a cercam.

O Apagamento da Memória e a Luta por Direitos

A história de apagamento não se restringe ao período imperial. A exposição também aborda a Frente Negra Brasileira, uma associação fundada em 1931 por negros para lutar por seus direitos. Sua sede, na atual Avenida da Liberdade, onde hoje está a Casa de Portugal, era um centro efervescente de atividades. Em 1937, a associação foi declarada ilegal pelo governo de Getúlio Vargas, no Estado Novo, e suas atividades foram encerradas, apagando uma importante parte da memória do bairro.

Outro exemplo é a Sociedade Filarmônica Lyra, ligada à comunidade alemã, que teve sua sede na Rua São Joaquim confiscada pelo governo brasileiro em 1944, quando o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial contra os países do Eixo. A sociedade ainda luta na justiça para reaver seu antigo patrimônio.

A Segunda Guerra Mundial também intensificou a perseguição a alemães, italianos e, principalmente, japoneses no Brasil, que enfrentaram vigilância constante e expulsões. O diretor do museu ressalta a importância da exposição em revisitar essa história, mostrando que muitas vezes desconhecemos a cidade em que vivemos. “A Liberdade teve e ainda tem muitas estratégias de ocultação, de apagamento dessas presenças. A exposição também se organiza em torno desse direito à memória, que nem sempre as pessoas têm”, destaca Garcez.

A Diversidade que Resiste

Apesar das tensões e apagamentos, a Liberdade se consolidou como um ponto de união pela fé e pela cultura. A localização central do bairro facilitou a concentração de diversas instituições religiosas – igrejas católicas, ortodoxas, metodistas, presbiterianas, maronitas e um templo budista – permitindo que imigrantes e seus descendentes pudessem praticar sua fé. “É fácil reunir as comunidades, porque fica no centro; é acessível”, comenta Garcez.

Além da fé, as tradições culturais também floresceram, como o Cine Niterói ou Cine Joia, que exibia filmes japoneses sem legendas em suas primeiras décadas. A curadora Mônica Schpun explica que a tradição cinematográfica nipônica começou no campo, com exibições ao ar livre, e se expandiu com a construção de cinemas próprios no pós-guerra.

A exposição no Museu do Ipiranga é um convite para refletir sobre a complexidade e a resiliência do bairro da Liberdade. Como conclui o diretor, “essa história não é uma história de final feliz, mesmo porque o final ainda não chegou”, indicando que as tensões e transformações continuam.

Exposição “Liberdade: Bairro Plural”
Datas: de 7 de julho de 2026 a 31 de janeiro de 2027
Visitação: de terça a domingo, das 10h às 17h (última entrada às 16h)
Local: Sala de exposições temporárias – Museu do Ipiranga
Endereço: R. dos Patriotas, 100, Ipiranga, São Paulo
Entrada: Gratuita (somente para esta exposição)

Fonte: jornal.usp.br

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