Acordo de Paz Entre EUA e Irã: Pedro Dallari Desvenda as Complexas Camadas e os Desdobramentos Incertos para o Oriente Médio e a Geopolítica Global

A notícia de um possível acordo de paz entre Estados Unidos e Irã agitou a semana, trazendo à tona a esperança de um fim para o conflito no Oriente Médio. Contudo, para o professor Pedro Dallari, da coluna “Globalização e Cidadania”, o cenário é complexo e permeado por muitas incertezas. Em sua análise, Dallari ressalta que, embora a paz seja sempre desejável, especialmente para a população civil devastada pela guerra, a efetividade deste tratado ainda é uma grande dúvida.

As Incógnitas do Acordo de Paz

A expectativa por uma paz duradoura é um anseio universal, dado o impacto devastador da guerra na vida das pessoas, que sofrem com hostilidades diretas, degradação das condições de vida, escassez de alimentos e água. No entanto, o acordo, mediado pelo Paquistão com apoio de outros países do Oriente Médio, e costurado basicamente entre EUA e Irã, levanta questionamentos cruciais. A ausência de Israel entre as partes é um ponto de grande preocupação, especialmente porque o exército israelense segue com ataques no sul do Líbano contra o Hezbollah, o que pode comprometer a estabilidade do pacto como um todo, aponta Dallari.

Desdobramentos Políticos para os Envolvidos

A evolução do conflito e a eventual celebração da paz trarão consequências políticas significativas para todos os atores envolvidos. Para os Estados Unidos, a situação é desafiadora. A expectativa de uma vitória militar rápida e decisiva contra o Irã não se concretizou, e o presidente Trump enfrenta uma queda de popularidade às vésperas das eleições de novembro, impulsionada pela falta de apoio interno à guerra. Israel vive um dilema semelhante, com o governo Netanyahu enfrentando dificuldades em uma eleição iminente, e o fim do conflito pode ter impacto direto em sua permanência no poder.

A Palestina, por sua vez, se depara com a imensa tarefa de reconstruir seu território, devastado pelos conflitos que se intensificaram após a invasão do Hamas a Israel em outubro de 2023. O Irã, embora tenha resistido à força bélica superior dos EUA, enfrenta uma situação econômica e social extremamente difícil, o que pode reacender as manifestações populares que precederam o ataque americano em fevereiro. Por fim, as milícias apoiadas pelo Irã – Hezbollah, Hamas e Houthis – emergem do processo consideravelmente enfraquecidas. O professor conclui que, neste cenário, “nenhuma das partes envolvidas pode ostentar claramente uma vitória”.

A Reorganização da Ordem Mundial

Outro aspecto crucial observado por Pedro Dallari é a reorganização da ordem mundial. De um lado, há uma clara consolidação da fragmentação e da multipolaridade, com os Estados Unidos perdendo sua capacidade hegemônica de governança global e a ascensão de novos atores, como a China. Por outro lado, o conflito, com seus riscos de graves consequências, evidenciou a imperativa necessidade de cooperação e multilateralismo. Essa necessidade não surge do idealismo dos governantes, mas como um objetivo pragmático para lidar com desafios como a economia internacional, pandemias e até mesmo o risco de conflito nuclear, como visto na guerra entre Rússia e Ucrânia.

Assim, mesmo em um contexto político de maior fragmentação, é possível vislumbrar um retorno ao multilateralismo, impulsionado pela urgência de desafios globais que demandam entendimento e ação conjunta. O possível acordo de paz entre EUA e Irã, portanto, é mais um capítulo complexo na intrincada teia da geopolítica contemporânea, cujos desdobramentos moldarão o futuro do Oriente Médio e da ordem mundial.

Fonte: jornal.usp.br

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