Que sujeitos queremos formar hoje para construir um futuro melhor? O que devemos ensinar às crianças para que atuem em um futuro planejável, porém incerto? E, mais crucialmente, como os professores devem se preparar e atuar para favorecer esse desenvolvimento infantil desejado? Essas indagações, tão pertinentes hoje, estavam no cerne do pensamento da Escola Nova, um movimento educacional que floresceu na Europa no final do século 19 e ganhou força no Brasil a partir dos anos 1920. Em um cenário pós-Primeira Guerra Mundial, educadores de diversas nações buscavam na educação a chave para transformar uma sociedade marcada pela destruição em um mundo mais pacífico.
A Projeção do Professor pela Escola Nova
Assim como a Escola Nova concebia a sociedade do amanhã e a educação necessária para construí-la, os pedagogos da época também delineavam a profissão docente. A premissa era clara: para que as crianças recebessem uma educação de qualidade, eram necessários bons professores. Os adeptos da Escola Nova defendiam que a função primordial do professor era edificar o futuro por meio da educação infantil. Para isso, pautavam uma formação docente ancorada em saberes científicos, especialmente na psicologia do desenvolvimento, vistos como os mais verdadeiros e eficazes para a atuação em sala de aula. No Brasil, essa perspectiva foi além, reivindicando melhores condições de trabalho e salários dignos para os professores, argumentando que, se os docentes eram os pilares da construção da nação e da possibilidade de um futuro pacífico, deveriam ser social e financeiramente valorizados. Este foi o grande desafio imposto à educação escolar na primeira metade do século 20.
Desvendando o Discurso Pedagógico: A Tese da USP
Com o objetivo de compreender as projeções do discurso pedagógico para a profissão docente – em termos de sua função, formação e condições de trabalho –, a pesquisadora Lara Chaud Palacios Marin defendeu a tese ‘Uma história dos futuros imaginados da profissão docente: análise do discurso pedagógico’ na Faculdade de Educação da USP, recentemente publicada no Banco de Teses da universidade. Utilizando a análise do discurso foucaultiana, Marin investigou um vasto material que inclui livros de intelectuais estrangeiros e brasileiros fundamentais para a Escola Nova, manifestos da educação, uma revista pedagógica da época, a autobiografia de uma professora primária paulista, um estudo sociológico de 1960 sobre as aspirações de futuras professoras e, ainda, os três relatórios sobre educação da Unesco (1972, 1996 e 2021). A análise da tese centraliza-se no período entre 1930 e 1965 no contexto brasileiro, buscando entender como o discurso pedagógico daquele tempo concebia os professores do amanhã.
Pontes entre o Passado e o Presente da Docência
Através de trechos dos materiais investigados e da contextualização da educação da época, a pesquisadora descreve as características desse discurso modernista, revelando seu poder na forma como a função docente era percebida na sociedade, na prática pedagógica em sala de aula e nas condições de trabalho dos professores. Ao mergulharmos nessa perspectiva histórica, percebemos as notáveis semelhanças e diferenças entre o discurso pedagógico de meados do século 20 e o atual. É possível identificar o que permanece vivo e o que se transformou ao longo das décadas.
A Vontade de Futuro e os Desafios Atuais
A ‘vontade de futuro’ é, sem dúvida, um elemento que persiste no discurso pedagógico. Por um lado, ainda acreditamos firmemente que a educação é um recurso essencial para a construção de um futuro melhor, e que os professores devem ser valorizados precisamente por promoverem essa possibilidade – um indício de que os ideais modernos ainda ressoam. Por outro lado, a necessidade de validar e defender essa premissa permanece urgente, especialmente diante dos ‘ataques’ que a educação pública e os próprios professores enfrentam. Ao final da tese, somos convidados a refletir: Qual a finalidade da educação hoje? O que se manteve e o que mudou desde meados do século 20? O que projetamos para os professores do amanhã? E, crucialmente, como os educadores sentem, no seu dia a dia, os efeitos desse discurso sobre sua profissão?
Fonte: jornal.usp.br
