A Ascensão da Economia dos Bicos: Como Jovens Brasileiros Redefinem o Mercado de Trabalho Buscando Autonomia em Plataformas Digitais e Enfrentam a Informalidade

O cenário do mercado de trabalho brasileiro está em constante transformação, impulsionado, em grande parte, pela ascensão da chamada economia dos bicos. Cada vez mais, jovens brasileiros têm se voltado para trabalhos informais, freelancers e aplicativos como principal ou alternativa de renda. Uma pesquisa recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) lança luz sobre essa tendência, mostrando que o número de pessoas trabalhando por meio de plataformas digitais cresceu impressionantes 25,4% entre 2022 e 2024, atingindo a marca de 1,7 milhão de trabalhadores. Este avanço não apenas evidencia uma mudança nas relações de trabalho, mas também reacende discussões cruciais sobre flexibilidade, estabilidade e a urgência dos direitos trabalhistas.

As vantagens percebidas nessa modalidade são um dos principais atrativos. Para Augusto Cesar Sabino Costa, um entregador por aplicativo de 34 anos, o trabalho em plataformas vai além de uma simples fonte de renda. A capacidade de autogerenciar seus horários e conquistar autonomia financeira foi decisiva para sua escolha pelo trabalho autônomo, mesmo sem o vínculo empregatício formal. “O que me levou a trabalhar pelo aplicativo de entrega foi a flexibilidade e a necessidade também. Eu consigo fazer meus horários, posso trabalhar à noite, posso trabalhar de dia, posso trabalhar tantas horas no dia. É lógico que tem toda uma engrenagem para a matemática funcionar no final do mês, mas eu tenho essa liberdade”, relata.

A Busca por Autonomia e a Realidade dos Aplicativos

Além da flexibilidade, a remuneração é um fator que pesa na decisão de Augusto de permanecer na atividade. Ele afirma não ter planos de retornar a um emprego com carteira assinada, pois considera que muitos dos salários oferecidos no mercado formal não são suficientes para cobrir as despesas básicas. “Não passa na minha cabeça em momento algum voltar para o CLT. Esse salário que o CLT proporciona hoje em dia para as pessoas, eu não consigo nem fazer o básico. Onde eu estou, eu tenho essa liberdade, até financeira”, explica.

No entanto, a visão sobre o crescimento da economia dos bicos não é unânime. René Mendes, professor e pesquisador colaborador do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, argumenta que o fenômeno não pode ser explicado apenas pelo desejo de autonomia. Segundo ele, existe um descompasso significativo entre as oportunidades oferecidas pelo mercado de trabalho e a realidade de grande parte da população. “Além da questão da autonomia, da flexibilidade de horários, tem também um certo descompasso entre as oportunidades no mercado brasileiro, oportunidades formais, mais qualificadas, melhor remuneradas, carreiras, com a realidade da nossa população”, pontua Mendes.

Entre o Sonho Empreendedor e a Precariedade da Informalidade

Essa reconfiguração das relações de trabalho também é tema de debate no artigo “Do emprego protegido ao negócio próprio: trabalho, mérito e individualismo no Brasil contemporâneo”, publicado pelo Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora (OTCT). Os autores destacam que o aumento do trabalho por conta própria e via plataformas digitais reforça a ideia do empreendedorismo e da responsabilidade individual pelo sucesso profissional, enquanto a diminuição dos empregos protegidos e das garantias trabalhistas acaba sendo relegada a segundo plano.

Os dados do IBGE corroboram esse cenário de vulnerabilidade. Em 2024, 71,1% dos trabalhadores de plataformas estavam na informalidade, um percentual consideravelmente superior ao observado entre os demais trabalhadores do setor privado (43,8%). Além disso, apenas 35,9% desses trabalhadores contribuem para a Previdência Social, em contraste com 61,9% dos demais, o que evidencia uma menor cobertura de proteção social e previdenciária.

O Desafio da Qualidade do Trabalho e a Vida Além do Emprego

Para René Mendes, essa realidade sublinha a necessidade urgente de discutir não apenas a geração de empregos, mas, sobretudo, a qualidade das relações de trabalho. “Eu acredito que realmente o nosso mercado de trabalho é muito precário, precarizante e foi precarizado. O apego à CLT apenas para ter carteira não veio acompanhado de outros avanços, como a redução da jornada. Nós estamos hoje no meio da luta pela redução da jornada de trabalho e pelo fim da escala 6×1. É preciso abrir espaço para aquilo que tem sido chamado de vida além do trabalho”, afirma.

Apesar de atuar como entregador por aplicativo, Augusto Cesar Sabino Costa vê o trabalho autônomo como parte de um plano maior. Seu objetivo é economizar e investir na criação de sua própria marca de roupas. “Eu tenho um sonho e vou correr atrás. Um dia eu vou ter minha marca de roupa autoral. São projetos para o futuro, mas eu sei que um dia vou concretizar”, revela. O desejo de empreender, impulsionado pela vontade de transformar sua realidade e a de sua família, surgiu ainda na adolescência: “Desde menino eu sempre pensei em quebrar esse ciclo. Minha mãe foi empregada doméstica por 30 anos. Eu sempre pensei em empreender. Foi uma construção desde os meus 16 anos, ou até menos”, relembra.

Flexibilidade com Segurança: O Futuro das Relações Trabalhistas

O avanço desse modelo de trabalho também intensificou o debate sobre as mudanças nas relações trabalhistas. A Lei da Liberdade Econômica (Lei nº 13.874/2019), por exemplo, buscou reduzir a burocracia e ampliar a flexibilização do mercado, gerando discussões sobre seus impactos em diversas categorias profissionais.

O professor Luciano Nakabashi, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP, reconhece a flexibilidade dos aplicativos como uma oportunidade valiosa para muitos. “Acho superinteressante esse modelo, de dar mais flexibilidade. A gente tem que flexibilizar mais a jornada de trabalho e uma das alternativas é pagar por hora, deixando o trabalhador negociar junto com a empresa quanto tempo vai trabalhar”, avalia.

Contudo, Nakabashi enfatiza que essa flexibilidade deve vir acompanhada de mecanismos que garantam mais segurança aos trabalhadores. Ele defende a ampliação da transparência das plataformas sobre a remuneração e o estabelecimento de garantias mínimas, como seguro contra acidentes e a criação de pontos de apoio com descanso, água e banheiros. “Tem que ter obrigatoriedade de algumas coisas, como seguro. Muitas vezes são acidentes graves. Também é importante oferecer pontos de apoio para o trabalhador descansar, beber uma água e utilizar um banheiro. Isso faz com que ele se sinta mais valorizado”, conclui, apontando para um futuro onde a autonomia e a proteção social precisam caminhar juntas na economia dos bicos.

Fonte: jornal.usp.br

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