Cláudio Giordano: A Discreta Grandeza do Editor, Tradutor e Bibliófilo que Marcou a Cultura do Livro no Brasil com Erudição e Generosidade

Cláudio Giordano, uma figura de discreta grandeza, deixou uma marca indelével no universo cultural brasileiro, sendo reconhecido como um tradutor rigoroso, um bibliófilo apaixonado e um editor singular. Sua atuação transcendeu rótulos, transformando-o em uma presença formadora que cultivou uma ética inabalável com a palavra e o livro, pautada por erudição e rara generosidade.

Para Plinio Martins Filho, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP e amigo próximo, relembrar a trajetória de Giordano é mergulhar em um legado de dedicação monástica, algo raro no mundo hiperconectado de hoje. Como editor, Cláudio fez de seu ofício uma verdadeira devoção, trabalhando incansavelmente na descoberta de relíquias bibliográficas que, por vezes, ele mesmo imprimia e compartilhava com amigos.

O Mestre da Tradução e da Edição Rara

Entre seus feitos mais notáveis, destacam-se dois trabalhos monumentais. O primeiro é a tradução de Tirant lo Blanc, a grandiosa obra de cavalaria de Joanot Martorell, que lhe rendeu o prestigiado prêmio Jabuti de melhor tradução em 1998. O segundo, uma dedicação igualmente impressionante, foi a publicação da edição fac-similar da opus magnum de Aldo Manuzio, a Hypnerotomachia Poliphili. Baseada em um exemplar da coleção de José Mindlin, a obra incluiu sua própria tradução a partir de uma edição catalã.

A edição original da Hypnerotomachia, de 1499, é um marco na história da tipografia, celebrada pela arte da composição e por suas mais de cento e cinquenta xilogravuras. Graças a Giordano, apreciadores puderam desfrutar das ilustrações tanto da versão original fac-similada quanto da tradução francesa de 1554, cuja qualidade, segundo especialistas, supera a do incunábulo.

A Oficina do Livro: Um Legado de Memória e Cultura

Com o propósito de resgatar e preservar a memória histórico-cultural do Brasil, Cláudio Giordano fundou a Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes. Este projeto reuniu um acervo impressionante de mais de trinta mil itens — entre livros, revistas, jornais e documentos — que, durante sete anos, esteve disponível para consulta na antiga casa-ateliê de Samson Flexor. O acervo foi fonte de inspiração para inúmeros trabalhos acadêmicos, incluindo teses e monografias.

Plinio Martins Filho, sócio-fundador da Oficina, descreve-a como uma reunião de amigos unidos pelo amor ao livro e à cultura. Com o tempo, o grupo recebeu o apoio de grandes nomes como José Mindlin e Antônio Ermírio de Moraes, cujas paixões pelo livro não só elevaram o prestígio da Oficina, mas também garantiram o necessário suporte financeiro para a continuidade de suas atividades.

Na Oficina, Cláudio editou a Coleção Memória, dedicada a trazer à luz textos esquecidos das literaturas brasileira, portuguesa e universal. A singularidade de seu acervo residia na forma como era composto: exemplares garimpados em sebos, complementados por doações. Para Giordano, cada livro de sebo tinha uma história, pertencendo antes a uma biblioteca ou a alguém que o manuseou. Ao uni-los em uma única coleção, ele criava um “caleidoscópio cultural” de amplitude ímpar, onde humildes brochuras e livros populares conviviam com edições raras e tipograficamente primorosas. Essa diversidade única inspirou a edição do boletim O Nanico – Homeopatia Cultural e da Revista Bibliográfica e Cultural, verdadeiros “remédios para a alma”.

A Perenidade de um Acervo e a Inspiração para Novas Gerações

Em dezembro de 2006, impossibilitado de manter o espaço físico, o vasto acervo da Oficina do Livro foi doado à Biblioteca Central da Unicamp, onde permanece disponível a estudiosos. Além disso, o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP recebeu o arquivo da correspondência passiva de Plínio Barreto (1882-1958), com mais de 1.200 cartas de figuras proeminentes da São Paulo do século 20, digitalizado pela Oficina para consulta.

Giordano também produziu muitas edições artesanais e fora do comércio, em parceria com o Atelier Além do Livro, oficina de restauro e encadernação de sua filha, Patrícia Giordano. Além da editoração, realizou traduções do francês e espanhol e atuou como colaborador e conselheiro editorial da livro – Revista do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição.

Plinio Martins Filho, parafraseando Roberto Calasso, afirma que “o livro de um editor é o conjunto dos livros que ele edita”, e Cláudio, sem dúvida, tem várias páginas nesse livro imaginário. A Com-Arte, editora-laboratório do curso de Editoração da USP, publicou o sexto volume da Coleção Editando o Editor, com o perfil editorial e biobibliográfico de Giordano, para que as novas gerações de editores possam se espelhar em seu exemplo.

A Generosidade que se Transformou em Legado

A generosidade era uma marca da personalidade de Cláudio Giordano. Plinio Martins Filho recorda os inúmeros presentes de livros, muitos em diversas línguas, que recebia em cada visita ao apartamento do amigo, sempre coberto de volumes. Essas obras, que jamais teria tido a oportunidade de garimpar, tornaram-se parte fundamental de sua biblioteca, fonte permanente de inspiração e referência na arte de fazer livros.

Um dos exemplos mais tocantes foi o presente da Monstrorum Historia, de Ulisse Aldrovando, um livro de 1642 com ilustrações elaboradas e tipografia primorosa, encadernado em pergaminho. Cláudio o presenteou a Plinio em um momento particularmente delicado de sua vida, ao deixar a presidência da Edusp.

Diante da ausência de Cláudio Giordano, resta um gesto que ele certamente aprovaria: voltar aos livros. Não apenas como refúgio, mas como continuidade de seu trabalho. É no cuidado com os detalhes, na leitura silenciosa do que foi pensado antes de nós, que algo dele permanece vivo. Sua falta impõe-se com nitidez porque foi nítida a forma como ele esteve entre nós. Obrigado, Cláudio!

Fonte: jornal.usp.br

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