Desvende a Alma Antiga: Antologia Gratuita da USP Reúne Poetas Gregos e Latinos em Diversas Traduções e Gêneros

A sabedoria e as emoções que moldaram a Antiguidade ganham uma nova dimensão com a publicação da “Antologia de Poetas Gregos e Latinos”, organizada pelo professor Paulo Martins, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. A obra, que acaba de ser lançada no Portal de Livros Abertos da USP, convida o leitor a uma jornada pelos versos que cantaram o mundo e a vida de diferentes modos, desde as reflexões sobre a efemeridade até os lamentos líricos e as sátiras sociais.

Um dos poemas que abrem a antologia é de Mimnermo de Colófon ou Esmirna, do século 7 a.C., abordando o tema universal da decrepitude humana. Em uma das traduções presentes na obra, de Antonio Rodrigues Medina, Vittorio de Falco e Aluizio de Faria Coimbra, o poema ressoa:

Da vida o áureo verdor qual sonho passa:
sobre nossas cabeças logo pende
a velhice inimiga e desonrosa,
que o corpo nos deforma e, dominando-o
inteiro, a vista e a mente nos conturba.

A Riqueza da Poesia Antiga em Suas Múltiplas Vozes

Com 290 páginas, a antologia é um tesouro que reúne poemas de sete autores gregos – Arquíloco, Safo, Mimnermo, Semônides, Anacreonte, Píndaro e Calímaco – e cinco latinos – Catulo, Horácio, Propércio, Ovídio e Marcial. Cada poema é acompanhado de textos introdutórios e do original em grego ou latim, permitindo ao leitor uma compreensão mais profunda e uma apreciação da sonoridade original. A inclusão de diferentes traduções para uma mesma obra, como é o caso de Mimnermo, oferece uma valiosa perspectiva sobre as nuances e interpretações possíveis da poesia clássica, enriquecendo a experiência de leitura.

Explorando os Gêneros Poéticos e Suas Traduções

A obra não se limita a apresentar os poemas, mas também oferece um panorama dos diversos gêneros poéticos praticados na Antiguidade grega e latina. O tetrâmetro, caracterizado por quatro medidas métricas, é ilustrado por um poema de Arquíloco, do século 7 a.C., que em uma das traduções de Rafael Brunhara (FFLCH) exorta o coração a se manter firme diante das adversidades:

Coração, Coração, por inelutáveis lutos agitado,
levanta, protege-te dos oponentes, volvendo adverso
peito, nas emboscadas inimigas próximo postado
firme; e vencendo, não exultes abertamente,
nem vencido, em casa caído, lamentes,
mas com alegrias alegra-te e males deplora
sem excesso: aprende que ritmo rege o ser humano

A elegia, gênero marcado pelo lamento lírico, é representada por Propércio, poeta romano do século 1 a.C., com versos que traduzem a dor da traição, na versão de Paulo Martins:

É verdade o que está na boca de toda Roma, Cíntia
que você vive em absoluta putaria?
Mereci isto? irei me vingar disso, vadia!
em outras paragens, Cíntia, me terão.

Já o iambo, com seu caráter coloquial, satírico e irônico, aproxima-se da prosa poética. A antologia apresenta a “Sátira Contra as Mulheres” de Semônides de Amorgo, do século 7 a.C., em duas traduções. O poema, que pode soar misógino para o leitor contemporâneo, descreve dez tipos de mulher, associando-as a animais – como a porca (sujeira), a cadela (curiosidade) e a terra (preguiça). Apenas a mulher feita da abelha é elogiada, como “a única não merecedora de censuras”, trazendo felicidade e prosperidade ao marido. O professor Paulo Martins contextualiza a obra, associando-a ao mito de Pandora e a outras narrativas que viam as mulheres como “perigosamente diferentes dos homens”, servindo para reforçar a solidariedade masculina em simpósios da Grécia antiga.

Confirmando a grandiosidade de Safo, uma das maiores poetisas do mundo antigo, a antologia inclui sua “Ode a Afrodite”. Este exemplo clássico de ode – poesia lírica de exaltação – mostra Safo, do século 7 a.C., invocando a deusa do amor para auxiliá-la em seus dilemas do coração, como na tradução de Giuliana Ragusa (FFLCH):

Vem até mim também agora, e liberta-me dos
duros pesares, e tudo o que cumprir
meu coração deseja, cumpre; e, tu mesma,
sê minha aliada de lutas.

Outros gêneros como o dístico, o hino, o epigrama e o epodo também são contemplados. A obra ainda conta com um apêndice com trechos da “Poética” de Aristóteles e de Horácio, explorando a arte poética, além de mapas e fotos coloridas que enriquecem a edição.

De Apostilas a Acesso Universal: A Trajetória da Antologia

A origem da “Antologia de Poetas Gregos e Latinos” remonta a 1999, quando o professor Paulo Martins elaborou uma apostila com poemas gregos e romanos para os alunos da disciplina Introdução aos Estudos Clássicos I da FFLCH. Essa primeira versão, distribuída em cópias xerográficas, evoluiu ao longo do tempo. Em 2005, com a introdução do ciclo básico do curso de Letras, Martins criou uma nova versão, ampliada novamente em 2010 para atender disciplinas de literatura latina.

Para o professor Martins, a publicação no Portal de Livros Abertos da USP representa um “ponto de virada”. O que antes era um material restrito a estudantes da USP, agora se transforma em um recurso didático de acesso universal. “Um passo que transforma aquilo que era uma simples recolha num material didático disponível a qualquer um que queira conhecer a poesia greco-latina de modo mais acessível e prático”, destaca Martins, democratizando o acesso a um patrimônio cultural inestimável.

A “Antologia de Poetas Gregos e Latinos”, organizada por Paulo Martins, é uma publicação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, com 290 páginas, e está disponível gratuitamente no Portal de Livros Abertos da USP.

Fonte: jornal.usp.br

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