Acervo Secreto Revelado: Palestra na USP detalha a surpreendente coleção de mais de 1.100 cordéis brasileiros da Sorbonne Nouvelle, um tesouro para pesquisadores e entusiastas da cultura popular

A Universidade Sorbonne Nouvelle, em Paris, guarda um tesouro desconhecido até pouco tempo: uma coleção de mais de 1.100 folhetos de cordel brasileiros. Esse acervo, descoberto em 2019 durante a mudança da instituição, será o tema central de uma palestra ministrada pela pesquisadora Solenne Derigond no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP nesta quinta-feira, dia 18, das 17h às 19h.

A Inesperada Descoberta em Paris

A história da coleção começou em 2019, quando a bibliotecária Carolina Torrejon, responsável pela Coleção Lusófona da Sorbonne Nouvelle, encontrou duas caixas repletas de folhetos de cordel durante a organização para a mudança da universidade. Sem conhecimento prévio da existência desses materiais, Carolina chamou a pesquisadora Solenne Derigond para analisar e catalogar os itens. Esse encontro marcou o início de um projeto que resultou em uma pesquisa aprofundada sobre os mais de 1.100 cordéis que compõem o acervo.

Um Acervo Heterogêneo e Representativo

Solenne Derigond destaca a especificidade e a heterogeneidade da coleção. “A especificidade dessa coleção é que ela é bem representativa da produção da literatura de cordel. Tem de tudo, dos grandes clássicos aos anônimos”, afirma a pesquisadora ao Jornal da USP. O conjunto é composto, majoritariamente, por doações de alunos brasileiros que passaram pela Sorbonne a partir dos anos 1970. O acervo contém, principalmente, produções dessa década, incluindo muitas republicações de clássicos do gênero, como as poesias de Leandro Gomes de Barros (1865-1918). “É uma coleção boa para fazer uma iniciação na literatura de cordel, porque você vai encontrar um pouco de tudo”, completa Derigond.

A Influência de Raymond Cantel e Doações Chave

A pessoa-chave para a formação dessa coleção é, segundo Solenne Derigond, o pesquisador francês Raymond Cantel (1914-1986). Cantel, professor pioneiro no estudo do cordel, fundou o Centre de Recherches Latino-Américaines na Universidade de Poitiers e, posteriormente, dirigiu o Departamento de Estudos Ibéricos e Latino-Americanos na Sorbonne Nouvelle. Sua presença atraiu estudantes interessados no campo, o que explica as doações de cordéis por parte de alunos brasileiros em Paris. A maior contribuição para o acervo da Sorbonne Nouvelle veio da professora Raimunda de Brito Batista, da Universidade Estadual de Londrina, que doou quase a metade dos folhetos. Além disso, Cantel possuía uma vasta coleção pessoal, adquirida durante suas visitas ao Brasil, que foi doada postumamente à Universidade de Poitiers, formando hoje o maior acervo de literatura de cordel na Europa.

Preservação e Fomento à Pesquisa

A pesquisa de Derigond focou em descrever as especificidades da coleção, seus autores, ilustradores e editoras, fornecendo subsídios para a equipe da biblioteca, composta por Carolina Torrejon e Laura Wulff, doutoranda brasileira em estética na Universidade Paris Nanterre, que se encarregaram da biblioteconomia, indexação, digitalização, inventário e catalogação. Para Derigond, “preservar, divulgar e dar acesso à coleção de cordéis da Sorbonne Nouvelle é preservar a memória da universidade e ainda mais do Departamento de Estudos Ibéricos e Latino-Americanos (EILA), porque faz parte da sua história”, ressaltando o papel da instituição no fomento ao estudo sobre o Brasil na França, que hoje é o país com o maior polo de pesquisa sobre literatura de cordel, depois do Brasil. A iniciativa visa estimular o estudo entre estudantes franceses e atrair pesquisadores, especialmente brasileiros.

O professor Paulo Iumatti, do IEB e organizador da palestra, destaca a importância estratégica do acervo. Ele lembra que a literatura de cordel não é tão distante para os franceses, que tiveram até o século 19 sua própria “littérature de colportage”, semelhante aos cordéis brasileiros. A existência do acervo favorece ações conjuntas e acadêmicas. Solenne Derigond, cuja tese de doutorado foi coorientada por Iumatti, tem um longo histórico de pesquisa sobre o cordel, focando em sua presença em São Paulo e a reinvenção do gênero. Iumatti enfatiza que a palestra trará dados inéditos sobre um acervo praticamente desconhecido, alinhando-se à tendência atual dos estudos de cordel, que se voltam para a própria constituição dos acervos. O IEB da USP, por sua vez, também possui um extenso acervo de cordéis.

Serviço

A palestra Um mergulho na história da coleção de cordel da Sorbonne Nouvelle com a professora Solenne Derigond será realizada nesta quinta-feira, dia 18, das 17h às 19h, no Auditório 1 do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, no Espaço Brasiliana, na Avenida Prof. Luciano Gualberto, 78 – Cidade Universitária.

Fonte: jornal.usp.br

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