Em um contraponto à busca incessante por realismo no cinema, o Cinema da USP Paulo Emilio (Cinusp) apresenta a mostra “Mundos de Plástico”, que escancara a artificialidade e o irreal como opções estilísticas. Em cartaz até o dia 28 deste mês, a programação gratuita reúne 16 longas-metragens que, em vez de transpor a realidade, criam cenários deliberadamente artificiais, com forte enfoque na era digital.
Tradicionalmente, a sétima arte tem se dedicado a aprimorar a percepção da realidade, utilizando tecnologias como câmeras de alta definição e óculos 3D. No entanto, a mostra do Cinusp, que pode ser conferida nas salas do Centro Cultural Camargo Guarnieri (Cidade Universitária) e do Centro MariAntonia (Vila Buarque), propõe uma inversão: a artificialidade visual é empregada de forma proposital, fazendo com que os ambientes pareçam feitos de plástico e causem um certo estranhamento no espectador.
A Estética do Irreal e o Cinema Digital
O objetivo dos filmes selecionados é que o público reconheça imediatamente a falsidade do universo criado, mas sem que isso signifique fantasia pura. A ideia é que esses aspectos irreais pareçam possíveis, não meramente estranhos. Em “Mundos de Plástico”, a impossibilidade e a plasticidade se transformam em um potente efeito estilístico.
Raul Carneiro, um dos curadores da mostra, explica que, apesar das diferenças individuais, os filmes “escancaram ambientes de mentira, com muito foco na era digital”. A coletânea representa um “boom do cinema digital” que marcou o início deste século, com a maioria das obras datando dos anos 2000, 2010 e 2020 – um perfil incomum para o Cinusp, que geralmente prioriza produções do século passado.
Destaques da Programação: De Corridas Coloridas a Pesadelos em Preto e Branco
Um dos grandes pilares da mostra é Speed Racer (2008), das irmãs Lily e Lana Wachowski. “Cerca de 90% do filme deve ser montagem de computador e só 10% deve ser gravado”, comenta Carneiro. Com seus cenários ultracoloridos, repletos de informações e pistas digitais grandiosas, o longa é considerado um marco das primeiras décadas do século. A exibição contará com o remake em 4K lançado no ano passado, uma raridade no circuito brasileiro.
Outra obra marcante é o austríaco Pepperminta (2009), da artista visual Pipilotti Rist. Com cores vibrantes, lentes que distorcem a imagem, enquadramentos incomuns e cenas em stop motion, o filme narra a história de uma garota que busca desafiar as leis do mundo. Após a exibição, haverá um debate com a professora Dora Longo Bahia, da ECA-USP, especialista na filmografia da diretora.
O japonês Hanagatami (2017), de Nobuhiko Obayashi, também integra a mostra. Com um elenco mais velho interpretando adolescentes, o filme aborda o impacto da Guerra do Pacífico e a sombra da bomba atômica, utilizando colagens, paisagens pintadas e cores saturadas que definem a estética do diretor. Segundo Carneiro, “qualquer um [dos filmes] de Obayashi caberia na proposta”.
Em contraste com as cores vibrantes, Eraserhead (1977), o primeiro longa de David Lynch, é apresentado em preto e branco. Com uma aura onírica e perturbadora, a obra segue um homem em um mundo industrial com seu filho mutante e esposa. “O ambiente é muito menos grandioso e exagerado do que os demais”, observa o curador. “Parece um pesadelo com várias aberrações. Quando ele sai de casa, por exemplo, a cidade é toda distorcida, as árvores são de plástico e a música é esquisita.”
Videoclipes e Outras Obras
Antes de cada filme, a mostra exibirá videoclipes que compartilham a mesma estética artificial, preparando o espectador para a linguagem visual. Entre eles, estão I Am The Walrus (1967), dos Beatles, e Black Hole Sun (1994), da banda Soundgarden, conhecidos por suas imagens distorcidas e cenas desconfortantes.
Completam a programação filmes como o brasileiro Castelo Rá-Tim-Bum, o Filme (1999), o estadunidense Johnny Guitar (1954), de Nicholas Ray, e o britânico Lisztomania (1975), de Ken Russell.
A mostra “Mundos de Plástico” do Cinusp é uma oportunidade única para explorar as fronteiras da percepção e da estética cinematográfica, com entrada gratuita e programação completa disponível no site do Cinusp.
Fonte: jornal.usp.br
