A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP), uma das alterações hormonais mais prevalentes entre mulheres em idade reprodutiva, passará a ter um novo nome a partir de 2028: Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina. A mudança, proposta por um consenso internacional de especialistas e anunciada em um congresso de Endocrinologia em Praga, Chéquia, visa aprimorar a compreensão da condição, que vai muito além das questões ginecológicas e reprodutivas.
Atualmente, a SOP é reconhecida por sintomas como irregularidade menstrual, acne, excesso de pelos e dificuldades para engravidar. No entanto, o nome utilizado há décadas não reflete a complexidade total da síndrome, que afeta cerca de 170 milhões de mulheres globalmente. A nova nomenclatura busca evidenciar os importantes impactos metabólicos e hormonais que podem acarretar consequências significativas para a saúde ao longo da vida.
Uma Mudança para Ampliar a Consciência
A ginecologista Ana Carolina Sá, professora do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, explica que a síndrome geralmente se manifesta na adolescência, após as primeiras menstruações. “A síndrome acomete mulheres em idade reprodutiva. Normalmente ela se manifesta já desde as primeiras menstruações”, afirma.
A condição é caracterizada por um conjunto de alterações hormonais que interferem no funcionamento do sistema reprodutor feminino, resultando em ciclos menstruais irregulares e aumento da produção de testosterona pelos ovários. Esse excesso de hormônios masculinos pode levar a acne, pele oleosa, crescimento excessivo de pelos e queda de cabelo. Além disso, a SOP é uma causa comum de infertilidade, pois a mulher pode não ovular todos os meses.
O termo “ovários policísticos” refere-se à aparência dos ovários em exames de imagem, onde se observam pequenos folículos que não conseguem amadurecer e liberar um óvulo. Contudo, a professora Ana Carolina Sá ressalta que essa característica é uma consequência, e não a causa da doença. “Eu costumo dizer para os meus alunos que é como a febre na infecção. A febre não é a culpada. Você tem uma infecção que precisa diagnosticar e tratar, e a febre é apenas o sinal de alerta. O ovário repleto de cistos funciona de forma parecida”, compara.
A Revelação dos Riscos Metabólicos Ocultos
Um dos principais motivos para a mudança de nome é o desejo de destacar os impactos metabólicos da SOP. Mulheres com a síndrome têm maior risco de desenvolver resistência à insulina, alterações nos níveis de colesterol (aumento do colesterol ruim e redução do bom), obesidade e doenças cardiovasculares. “Esse aumento dos hormônios masculinos no corpo feminino predispõe a uma piora no perfil lipídico, além de modificações na sensibilidade à insulina”, explica a ginecologista.
Essas alterações favorecem o acúmulo de gordura na região abdominal, um padrão associado a maior risco cardiovascular. Consequentemente, as pacientes têm maior predisposição a desenvolver diabetes, hipertensão arterial e aterosclerose. A professora enfatiza que esses riscos não se limitam a mulheres com excesso de peso: “Nós temos mulheres portadoras da síndrome que são magras, mas que também apresentam resistência à insulina e outras alterações metabólicas”. Apesar de não significar que todas as mulheres com SOP serão obesas, há uma forte associação e predisposição ao ganho de peso.
Diagnóstico e Acompanhamento: O Que Permanece Igual
A inclusão da palavra “metabólica” no novo nome visa garantir que médicos e pacientes compreendam a amplitude da condição. Muitas vezes, a atenção se concentra apenas nos sintomas ginecológicos, negligenciando os riscos metabólicos. “Se o médico não tem essa consciência de que a síndrome envolve a questão metabólica também, ele vai tratar a irregularidade menstrual e o excesso de pelos, mas pode deixar de investigar alterações importantes como diabetes, hipertensão e dislipidemias”, alerta Ana Carolina.
Apesar da mudança de nomenclatura, os critérios de diagnóstico e as formas de tratamento permanecem os mesmos. O acompanhamento continua focado na avaliação dos sintomas hormonais, na regularização dos ciclos menstruais e no monitoramento dos fatores de risco metabólicos. “Tudo continua igual, tanto a forma de fazer diagnóstico quanto os exames solicitados e os tratamentos utilizados”, afirma a professora. Ela reforça que a síndrome não possui cura definitiva, mas pode ser efetivamente controlada com acompanhamento médico adequado, visando uma melhor qualidade de vida e prevenção de complicações a longo prazo. “A mudança do nome vem para chamar atenção para a relevância da questão metabólica”, conclui.
Fonte: jornal.usp.br
