Eleições no Peru e Colômbia: Indefinição e Polarização Ameaçam Governabilidade na América Latina
A América Latina vive um momento de intensa polarização política, e as eleições presidenciais no Peru e na Colômbia são um reflexo claro dessa realidade. No Peru, a disputa no segundo turno entre o esquerdista Roberto Sánchez, do Partido Juntos pelo Peru, e a candidata da direita, Keiko Fujimori, do Partido Força Popular, é tão acirrada quanto um campeonato esportivo decidido nos últimos minutos. O ‘efeito gangorra’ tem sido a tônica, com os candidatos se alternando na liderança e o resultado final, previsto para o final de junho ou início de julho, ainda incerto.
A Crise da Política Peruana e o Desafio da Governabilidade
Roberto Sánchez, em sua plataforma, busca reabilitar a imagem do ex-presidente Pedro Castillo, que governou entre 2021 e 2022 e hoje cumpre pena de prisão por conspiração. Sánchez defende que Castillo foi vítima de um ‘golpe do Legislativo’ por representar o voto rural e indígena, e propõe uma nova Constituição. Do outro lado, Keiko Fujimori, filha do controverso ex-presidente Alberto Fujimori, disputa a presidência pela quarta vez e tem um histórico de não reconhecimento de resultados eleitorais anteriores.
Analistas veem nesta eleição a repetição de um padrão que tem marcado a política peruana: a disputa entre o fujimorismo e outro candidato, evidenciando uma profunda crise de legitimidade. O Peru já teve nove presidentes em dez anos, com dois renunciando e quatro sendo destituídos pelo parlamento desde 2016, frequentemente em meio a escândalos de corrupção. Essa instabilidade leva muitos eleitores a votarem no ‘menos pior’. O próximo presidente herdará um Congresso fragmentado, aumento da criminalidade e um ceticismo generalizado da população sobre a capacidade de completar o mandato de cinco anos.
País Dividido: Análises de Especialistas sobre o Futuro
Para Pedro Feliú Ribeiro, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), eleições apertadas são uma constante na América do Sul. Ele destaca que, embora o Força Popular tenha mais assentos que o Juntos pelo Peru, nenhum tem maioria no Legislativo. A futura criação do Senado bicameral pode influenciar a estabilidade. Feliú prevê mais turbulência política e presidentes minoritários, mas ressalta a surpreendente estabilidade econômica do Peru. Uma vitória de Keiko, alinhada a uma direita pró-Trump, seria ‘ruim para o Brasil em termos de política externa’.
Rafael Antonio Duarte Villa, do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e em Relações Internacionais da USP, concorda que o resultado parcial reflete um país dividido e a crescente polarização latino-americana. Alberto do Amaral, do Departamento de Direito Internacional da USP, enfatiza a tendência de embate entre extrema-esquerda e extrema-direita, que gera ‘difícil governabilidade’ e impede a formação de maiorias sólidas. Pedro Dallari, professor de Direito Internacional do Instituto de Relações Internacionais da USP, aponta que a instabilidade peruana, com a sucessão de presidentes que não completam seus mandatos, é um fator de preocupação para toda a América do Sul. Ele destaca que a polarização entre esquerda e direita, que se equilibra nas urnas, aliada a um Parlamento muitas vezes desestabilizador, é a raiz do problema. A zona rural, com 22% da população, principalmente nas regiões andina e amazônica, desempenha um papel crucial, sendo um dos pilares do voto que Sánchez busca representar.
O Cenário Colombiano: Polarização e Riscos Latentes
A Colômbia também se prepara para um segundo turno eleitoral, com um cenário igualmente polarizado. De um lado, Iván Cepeda, do Pacto Histórico, representa a esquerda progressista, defensor dos direitos humanos e herdeiro político do atual presidente Gustavo Petro. Do outro, Abelardo de La Espriella, do movimento Defensores da Pátria, é uma figura da ultradireita, admirador de Donald Trump e Nayib Bukele. No primeiro turno, La Espriella obteve 43% dos votos, contra 40% de Cepeda, e o segundo turno será no dia 21.
Pedro Feliú Ribeiro vê a Colômbia seguindo a mesma lógica do Peru, com margens apertadas e o alinhamento aos EUA sendo um desafio para o Brasil. Pedro Dallari questiona se o resultado peruano pode influenciar a eleição colombiana, dado os elementos comuns de polarização. Embora os cenários sejam semelhantes, Rafael Villa aponta que as realidades são diferentes. No Peru, a instabilidade tende a ser resolvida institucionalmente pelo Congresso, com menor risco de violência política. Já na Colômbia, a alta polarização e um resultado apertado podem ‘trazer consequências mais intensas’, com a possibilidade de violência política e impactos sociais e políticos imprevisíveis.
Desafios Regionais e o Futuro da Governança
Alberto do Amaral reitera que o futuro Executivo colombiano enfrentará grande dificuldade para implementar seu plano de governo, especialmente se a diferença de votos for pequena, o que resultaria em uma crise de governabilidade. A tendência de divisão entre eleitores de extrema-esquerda e extrema-direita é uma constante na América Latina. Essa polarização, somada à fragilidade institucional, projeta um futuro incerto para a governabilidade na região, onde a capacidade de diálogo e construção de consensos será fundamental para superar a instabilidade e garantir o avanço social e econômico.
Fonte: jornal.usp.br
