A Universidade de São Paulo (USP) tem enfrentado um período de turbulências, com eventos recentes que culminaram em uma imagem de dificuldade para gerir suas próprias divergências. A ocupação da Reitoria por estudantes, seguida pela ação da Polícia Militar, a greve docente aprovada pela Adusp por reajuste salarial e a suspensão de uma reunião do Conselho Universitário em meio a um clima de confronto, são fatos que preocupam a comunidade acadêmica e a sociedade.
Rejeição à Violência e o Apelo ao Diálogo
Diante deste cenário, docentes do Instituto de Geociências da USP, incluindo Maria Helena Bezerra Maia de Hollanda, Douglas Galante e outros, emitiram uma nota rejeitando categoricamente todo ato de violência – seja física, verbal ou moral. Para eles, nenhuma causa, por mais legítima que seja, se fortalece pela agressão, intimidação ou desqualificação do outro. A violência, segundo os professores, fecha as portas do diálogo e fere as pessoas que constroem a Universidade no dia a dia.
A Missão Pública da Universidade e a Ausência de Lados
A Universidade, em sua essência, existe para cumprir uma missão pública bem definida: formar pessoas, produzir conhecimento e colocá-lo a serviço da sociedade, com inclusão, pertencimento e responsabilidade. Este propósito, no entanto, tem sido atravessado por um desconforto crescente, com a interrupção do diálogo entre os diversos segmentos. Os docentes enfatizam que não deveria haver lados: professores, estudantes, servidores técnico-administrativos e a administração central são partes da mesma Universidade e dela dependem por igual, não sendo adversários entre si.
Ameaças Externas Exigem Coesão e Lucidez Interna
As verdadeiras ameaças, conforme apontam os professores, estão fora dos muros da instituição. A incerteza orçamentária, a reforma tributária, a desvalorização do conhecimento e as pressões sobre a autonomia universitária impõem a necessidade premente de coesão, lucidez e compromisso institucional. Há um consenso de que existem muitos desafios externos pelos quais lutar, o que torna a autodestruição interna um caminho insustentável.
Diálogo Respeitoso e o Reconhecimento das Normas Institucionais
É fundamental ouvir os estudantes em sua pluralidade, reconhecendo a justiça de reivindicações que se referem a condições concretas de estudo, moradia, alimentação e permanência. Contudo, é igualmente importante reconhecer que a Universidade se organiza por normas, instâncias e responsabilidades institucionais que não podem ser desconsideradas em momentos de tensão. A construção de soluções exige escuta, mas também respeito às competências administrativas, aos ritos decisórios e às decisões legitimamente constituídas. Somente o diálogo aberto, franco e respeitoso pode produzir soluções legítimas, sem deixar feridas que levem anos para cicatrizar.
A Universidade é maior do que qualquer conflito momentâneo. Preservá-la e assegurar sua missão pública é responsabilidade de todos os seus membros.
Fonte: jornal.usp.br
