Estudo Inovador Revela Que Comportamento Sexual de Filhotes de Macacos-Prego Vai Além da Reprodução e Tem Funções Sociais Complexas

Um estudo recente com macacos-prego em seu habitat natural aponta que o comportamento sexual exibido por esses primatas durante o primeiro ano de vida pode ter funções muito mais complexas do que a simples preparação para papéis reprodutivos na vida adulta. A pesquisa, conduzida por especialistas da Universidade de São Paulo (USP), sugere que essas ações podem estar associadas à maturação, ao estabelecimento de laços afetivos e à dinâmica de dominância.

As observações foram realizadas com macacos-prego em seu ambiente natural, e os resultados indicam que a idade e o sexo influenciam o desenvolvimento desses comportamentos de maneiras distintas, variando conforme o tipo de interação analisada. Os achados desafiam a percepção comum de que tais atos na infância são meramente um ensaio para a fase adulta.

A Surpreendente Inversão de Papéis na Infância

Uma das descobertas mais notáveis do estudo é a inversão dos papéis observados em primatas adultos. Segundo Irene Delval, psicóloga e antropóloga do Instituto de Psicologia (IP) da USP, machos filhotes iniciam comportamentos sexuais mais cedo e os exibem com maior frequência e variedade do que as fêmeas. Este padrão contrasta fortemente com o comportamento de primatas adultos, onde a corte é frequentemente liderada pelas fêmeas, especialmente na estação de acasalamento.

A bióloga Solimary Garcia Hernández, do Instituto de Biociências (IB) da USP, responsável pela análise estatística dos dados, enfatiza que essa inversão desafia a ideia de que o comportamento sexual infantil é apenas uma preparação para a vida adulta, sugerindo funções mais imediatas e intrínsecas ao desenvolvimento.

O Amplo Repertório de Comportamentos Sexuais Observados

Os pesquisadores avaliaram 23 comportamentos sexuais presentes no repertório heterossexual de primatas adultos. Destes, seis foram examinados em detalhes por sua maior frequência: ereção, montagem, tentativa de montagem, levantar sobrancelhas, inspeção genital e esfregar o peito.

A ereção foi o comportamento mais frequente nas duas espécies analisadas, especialmente entre os machos. Nas fêmeas, a ereção clitoriana foi registrada indiretamente. A montagem foi comum em ambos os sexos, mas mais frequente entre os machos, enquanto a “tentativa de montagem” foi mais relevante entre as fêmeas. Outros comportamentos como inspeção genital, esfregar o peito e levantar sobrancelhas foram observados em ambos, mas com maior frequência nos machos. Comportamentos como masturbação, exibição genital e banho com a própria urina apareceram quase exclusivamente entre os machos.

Funções Sociais e Preferências de Parceiros na Infância

Os resultados sugerem que os comportamentos sexuais na infância desempenham funções sociais distintas entre machos e fêmeas. Para os machos, essas interações parecem estar relacionadas à formação de laços sociais e à regulação da excitação hormonal. Já nas fêmeas, os comportamentos ocorreram mais em contextos de exploração e brincadeira, sem uma função social tão claramente definida.

Os machos filhotes interagiram principalmente com outros machos, tendo adultos como parceiros mais frequentes, seguidos por juvenis e, por último, outros filhotes. As fêmeas, por sua vez, interagiram mais com machos filhotes, fêmeas juvenis e, menos frequentemente, outros filhotes. O brincar foi identificado como o principal cenário para essas práticas em ambos os sexos, com maior frequência entre os machos, seguido por interações explicitamente sexuais e atividades como forrageamento e amamentação.

Macacos-Prego e os Paralelos com a Sexualidade Humana

Os pesquisadores destacam que compreender como a sexualidade comportamental emerge nos primeiros meses de vida dos primatas pode ajudar a explicar a flexibilidade e o desenvolvimento da sexualidade em diferentes espécies, incluindo os seres humanos. Irene Delval ressalta que crianças também manifestam curiosidades, sentimentos e brincadeiras relacionados à sexualidade, embora essas práticas sejam frequentemente inibidas por normas culturais e religiosas, diferentemente do que ocorre entre os animais.

Para Solimary Hernández, “observar como os macacos-prego expressam comportamentos sexuais de forma tão natural desde as primeiras semanas de vida nos ajuda a desmistificar nossa própria sexualidade”. O artigo “Early sex differences in sociosexual behavior of wild robust capuchin monkeys: Ontogenetic and evolutionary insights” foi publicado na revista Evolution and Human Behavior.

Fonte: jornal.usp.br

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