Doping no Esporte: Enhanced Games Tenta Revolucionar Performance, Mas Quais os Altos Custos e Riscos Reais para a Saúde dos Atletas?
A busca incessante por aprimoramento físico no esporte ganha novos contornos com iniciativas que incentivam o doping, levantando debates sobre ética, saúde e o futuro das competições.
O doping, ou dopagem, é um termo familiar no universo esportivo, frequentemente associado a escândalos e à quebra do princípio do fair play. Definido como o uso de substâncias ou métodos capazes de aumentar a capacidade de um atleta, essa prática é rigorosamente combatida pela Agência Mundial Antidoping (WADA), que desde 1999 atualiza seu Código Mundial para garantir a integridade das competições.
No entanto, uma nova vertente tem emergido: competições que não apenas permitem, mas incentivam o uso de substâncias dopantes. É o caso dos Enhanced Games (Jogos Aprimorados), que ocorreram em 24 de maio em Las Vegas, Estados Unidos. A proposta era audaciosa: reinventar o esporte, quebrar recordes mundiais e elevar a performance humana a um novo patamar. Contudo, a realidade foi menos espetacular, com apenas um recorde mundial quebrado – o do nadador grego Kristian Gkolomeev nos 50 metros nado livre, sob efeito de aprimoradores e com um traje proibido em eventos oficiais. Tal feito, como esperado, não será reconhecido por organizações como a World Aquatics.
A Complexidade da Definição de Doping
Para o professor Mauricio Yonamine, do Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, a definição de doping vai além do senso comum. Segundo o Código Mundial Antidoping, é o uso de um expediente, substância ou método que pode ser prejudicial à saúde dos atletas ou adversários, capaz de aumentar o desempenho, e que resulta na presença de uma substância proibida ou na evidência de um método vedado no organismo.
Yonamine explica que a lista de proibições é extensa e detalhada, incluindo estimulantes como anfetaminas e cocaína, esteroides anabolizantes e métodos como a dopagem sanguínea, que artificialmente aumenta a oxigenação muscular. “Se pegarmos o documento oficial, que é o Código Mundial Antidoping de 2026, vamos verificar que existem 11 itens e seis páginas só para definir o que é ‘doping’”, afirma o professor, destacando que atitudes como recusar um exame antidoping ou traficar substâncias proibidas também são consideradas dopagem.
Enhanced Games: Revolução ou Mercantilização da Performance?
A ascensão de eventos como os Enhanced Games levanta o questionamento se o doping passará a ser incentivado. Contudo, o professor Marco Bettine, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, não acredita em uma grande ruptura no esporte tradicional. Para ele, a proposta dos Jogos Aprimorados reflete uma “mercantilização da performance”.
Bettine ressalta que o atleta contemporâneo é um produto de patrocínios e publicidade, e que competições que remuneram recordes e novas técnicas inserem as empresas biomédicas nesse grande jogo de mercado. “Os Enhanced Games, por exemplo, têm valores em dinheiro para cada recorde quebrado, para cada técnica nova inventada. Tudo é uma monetização de todas as práticas e isso não acontece nos Jogos Olímpicos. A gente quer isso para o esporte contemporâneo?”, questiona o especialista.
Ampliar Limites: Riscos e Consequências para a Saúde
Enquanto a nutrição esportiva, a biomecânica e a psicologia esportiva têm avançado significativamente na melhoria legítima do desempenho, o uso de substâncias dopantes carrega sérios riscos à saúde. O professor Mauricio Yonamine é enfático: “Não existe uso seguro de doping”. Ele explica que os efeitos colaterais variam conforme a substância:
- Estimulantes: Podem elevar perigosamente a frequência cardíaca e a pressão arterial, aumentando o risco de arritmias e parada cardiorrespiratória.
- Esteroides anabolizantes: Em homens, podem causar redução dos testículos, calvície, infertilidade, impotência sexual e desenvolvimento de mamas. Em mulheres, masculinização, engrossamento da voz, crescimento de pelos faciais, irregularidades menstruais e infertilidade.
Yonamine alerta que, para obter ganhos de desempenho, as doses utilizadas no doping são frequentemente de 10 a 100 vezes maiores do que as doses medicinais recomendadas. “A diferença entre o remédio e o veneno é a dose”, cita o toxicologista. A única forma segura de utilizar essas substâncias é sob real necessidade médica e em doses controladas.
Punição Desigual: O Atleta como Único Alvo?
Os exames antidoping, realizados de forma randômica por órgãos como a WADA e, no Brasil, pela Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD), funcionam como “uma verdadeira investigação científica de alta tecnologia”, segundo Yonamine. A probabilidade de um falso-positivo é extremamente baixa, garantindo a validade das punições, que vão desde multas financeiras até restrições em futuras competições.
No entanto, o professor Marco Bettine aponta para uma falha no sistema: a punição recai majoritariamente sobre os atletas, enquanto a indústria farmacêutica e grupos financeiros envolvidos na produção e comercialização dessas substâncias permanecem isentos de danos. Bettine sugere que grupos sociais e de saúde dos atletas buscam formas de evidenciar e punir as empresas que produzem substâncias utilizadas de maneira proibida no esporte. “Não é para parar as pesquisas. É para que não haja a comercialização dessa substância para fins de desempenho atlético”, defende, destacando que muitas dessas tecnologias são desenvolvidas por empresas de nicho, fora do circuito farmacêutico tradicional.
Fonte: jornal.usp.br
