Queda da Fertilidade Masculina Acelera: Especialistas da USP Alertam sobre Impacto de Hábitos Modernos, Poluição e Uso Abusivo de Testosterona

A fertilidade masculina figura como um dos grandes desafios da saúde reprodutiva do século, com estudos recentes e a observação clínica apontando para uma redução alarmante na qualidade seminal globalmente. No Brasil, o cenário não é diferente, com um aumento na procura por atendimentos relacionados à infertilidade no SUS e pesquisas nacionais confirmando a tendência.

O médico e pesquisador Jorge Hallak, professor da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador de estudos em fertilidade masculina, destaca que a queda na concentração e motilidade espermática já é perceptível até mesmo em indivíduos férteis no país. Segundo ele, essa realidade corrobora uma tendência observada pela literatura científica internacional há mais de 50 anos, com metanálises recentes, incluindo uma de 2022, reforçando que houve, nas últimas cinco décadas, uma queda de aproximadamente 62% na concentração de espermatozoides e cerca de 59% na motilidade espermática. Tais números são suficientemente alarmantes para justificar o alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a necessidade de intensificar pesquisas e políticas públicas.

Um Declínio Preocupante e Multifatorial

Hallak enfatiza que não existe uma causa única para a redução da fertilidade masculina, mas sim um fenômeno multifatorial intrinsecamente ligado ao estilo de vida contemporâneo e à exposição ambiental característica do mundo industrializado. Entre os principais vilões, o especialista aponta a poluição atmosférica e o contato com pesticidas e produtos químicos, que podem se transformar em substâncias com ação estrogênica no corpo masculino, alterando o equilíbrio hormonal.

Além das alterações hormonais, esses fatores promovem o estresse oxidativo, um mecanismo associado ao excesso de radicais livres e ao dano celular, que é uma linha central nas pesquisas sobre infertilidade. A alimentação inadequada, o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados, a obesidade e o sedentarismo também desempenham papéis cruciais, criando um ambiente metabólico desfavorável à saúde reprodutiva. O pesquisador ressalta que não é apenas o excesso de peso que importa, mas o contexto metabólico gerado por esses hábitos.

O Perigo do Abuso de Substâncias e Pressões Sociais

Outro ponto de preocupação é o uso crescente de medicamentos psiquiátricos e ansiolíticos, cujo consumo no Brasil está entre os maiores do mundo, podendo impactar a produção hormonal masculina. O alerta se estende ao uso abusivo de testosterona e anabolizantes, especialmente entre jovens e adolescentes, impulsionado muitas vezes por padrões estéticos e culturais difundidos nas redes sociais.

“Hoje existe uma epidemia de prescrição abusiva de testosterona. O organismo entende que já existe hormônio suficiente e reduz a produção natural. Isso pode provocar atrofia testicular e queda da fertilidade”, adverte Hallak. As drogas recreativas, como maconha e cocaína, também são citadas, com estudos indicando que a maconha pode causar lesões importantes nas membranas celulares ligadas à fertilidade, enquanto a cocaína teria um efeito ainda mais agressivo, destruindo a arquitetura testicular. O tabagismo, com seus impactos cardiovasculares, hormonais e aumento do risco de câncer, completa a lista de fatores de risco.

Além do Estilo de Vida: Infecções, Genética e COVID-19

O especialista também aborda causas clínicas mais tradicionais da infertilidade masculina, como a varicocele, uma dilatação das veias do testículo que eleva a temperatura escrotal e prejudica a produção de espermatozoides. Infecções do trato reprodutivo masculino, muitas vezes assintomáticas, são outro fator relevante, podendo comprometer a fertilidade anos antes de serem descobertas. Alterações genéticas também têm participação significativa em casos graves.

Mais recentemente, a pandemia de COVID-19 integrou as linhas de pesquisa. Hallak menciona que estudos acompanham os possíveis efeitos prolongados da infecção sobre os testículos e a qualidade seminal. Embora se observe melhora na concentração e motilidade após a doença, algumas alterações no DNA espermático ainda não normalizaram completamente, e pesquisas investigam como o espermatozoide poderia atuar em processos imunológicos relacionados ao vírus.

Diagnóstico Precoce e Mudança de Hábitos: A Esperança

Apesar do cenário preocupante, Hallak oferece uma perspectiva otimista, reforçando que muitos casos de infertilidade masculina são tratáveis e podem apresentar melhora significativa com diagnóstico precoce e mudanças de hábitos. O tratamento geralmente envolve a correção do estilo de vida, melhora alimentar, prática regular de exercícios físicos e terapias focadas no controle do estresse oxidativo.

“O tratamento existe. Mas o paciente precisa procurar um especialista em fertilidade masculina. Não é simplesmente usar testosterona ou tomar fórmulas prontas”, alerta o pesquisador. Ele destaca a importância da prevenção e do acompanhamento precoce, especialmente entre adolescentes e adultos jovens, um grupo que tem apresentado qualidade espermática cada vez mais baixa. Para os especialistas, a discussão sobre fertilidade masculina deverá ganhar ainda mais destaque nos próximos anos, tanto na medicina quanto nas políticas públicas de saúde reprodutiva.

Fonte: jornal.usp.br

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