Olivier Toni (1926-2017), cujo centenário é celebrado, foi um nome singular na música brasileira. Maestro, instrumentista, regente, compositor e, acima de tudo, um educador visionário, ele deixou um legado que transcende as partituras. Para seus alunos, como Rubens Ricciardi, maestro da USP Filarmônica, Toni costumava dizer que “o melhor paradigma para a obra de arte é o tapete persa”. Essa metáfora, que sugeria a beleza e perfeição com um “fio solto” como quebra da lógica, encontra eco em sua própria obra, como o “Estudo para Orquestra” com solo de berimbau. Para Toni, a arte era um reflexo do ser humano, uma linguagem emancipadora.
O Arquiteto do Ensino Musical Público
A visão humanista e crítica de Olivier Toni não se limitava à teoria; ela se manifestava em uma incessante busca por organizar e democratizar o campo da música em São Paulo e no Brasil. Sua filha, Claudia Toni, especialista em políticas públicas para cultura, o descreve como “um homem à esquerda, que brigava com quem quer que fosse pelos princípios que ele acreditava que deviam nortear a vida de um país como o nosso, imensamente desigual”. Essa convicção o levou a idealizar e fundar inúmeras instituições públicas e gratuitas de ensino musical. Entre suas criações estão a Escola Municipal de Música de São Paulo, a Orquestra Sinfônica Jovem Municipal (hoje Orquestra Experimental de Repertório), a Orquestra de Câmara de São Paulo, a Orquestra de Câmara da Escola de Comunicações e Artes da USP, e o apoio fundamental à fundação do curso de Música na USP de Ribeirão Preto.
A anedota sobre a criação da Escola Municipal de Música, em 1969, ilustra bem sua perspicácia. Ao ser questionado pelo prefeito Faria Lima sobre o pequeno tamanho da Orquestra Jovem de São Paulo em comparação com a de Israel, Toni prontamente respondeu: “Porque ninguém quer estudar música, prefeito. (…) Porque não temos escolas de música.” A partir desse diálogo, nasceu a portaria que instituiu a Escola Municipal de Música, um marco para o ensino público. Sua influência foi igualmente decisiva para a Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP). Em uma conversa informal com professores da USP, Toni questionou a ausência das artes na grade de cursos da universidade. Com o apoio de Erasmo Mendes e assinaturas de figuras como o maestro Karl Böhm e Júlio de Mesquita do Estadão, ele conseguiu apresentar ao reitor Gama e Silva um projeto robusto, que culminou na criação do Departamento de Música da ECA-USP em 1969, onde se tornou um dos professores pioneiros ao lado de nomes como Gilberto Mendes e Willy Corrêa de Oliveira.
Um Mestre da Filosofia da Composição e do Humanismo
Mais do que um mero professor de técnicas musicais, Olivier Toni era um “professor de filosofia da composição”, como o define Rubens Ricciardi. Sua formação em filosofia, embora não concluída formalmente, permeava cada aspecto de sua atuação. Alexandre Ficarelli, atual chefe do Departamento de Música da ECA-USP, ressalta que Toni “estimulava uma formação crítica, interdisciplinar e intelectualmente rigorosa”, defendendo que a música deveria dialogar com a filosofia, a literatura, a história e as demais artes. Essa perspectiva ampla era crucial para Toni, que se lamentava da precariedade intelectual de muitos músicos, tornando-os “presas fáceis de discursos políticos que muitas vezes não favoreciam a classe musical”, conforme Claudia Toni. Essa amplitude de interesses, que abrangia artes plásticas, poesia e humanidades, consolidava sua imagem de “humanista”, segundo sua filha Flávia Toni.
Sua generosidade também se manifestava no ensino. Embora trabalhasse em instituições públicas, ele dedicava fins de semana a aulas particulares gratuitas em sua casa. “A nossa casa era uma segunda escola”, recorda Claudia, destacando que ele raramente cobrava por suas lições, um reflexo de um “sistema colaborativo” de aprendizado que ele próprio vivenciou em sua formação com mestres como Hans-Joachim Koellreutter e Mozart Camargo Guarnieri. Sua própria jornada musical começou com um acaso: a visão de um fagote na vitrine de uma loja, instrumento que comprou com a ajuda de um tio e estudou com José Carbone.
Prados e a Música para as Pessoas
A essência humanista de Olivier Toni encontrou um de seus mais belos palcos no Festival de Música de Prados, em Minas Gerais, hoje em sua 47ª edição. A história de como o festival começou revela sua paixão pela música colonial e seu desejo de compartilhá-la. Em suas pesquisas em Minas Gerais, Toni descobriu a riqueza dos arquivos musicais em São João Del Rei e, posteriormente, em Prados, um pequeno vilarejo que ele descreveu como “a capital da música”. Lá, conheceu Adhemar Campos Filho, que também completaria 100 anos, e com quem compartilharia a homenagem no festival de 2026.
Em 1977, Toni propôs a Adhemar a criação de um curso de férias para os jovens locais. “Você arruma algum lugar para a gente dormir; o Departamento [de Música da USP] paga o almoço e o café da manhã para os alunos”, recorda Toni. Assim, nasceu o primeiro festival, um evento que, para Flávia Toni, era um “fazer musical voltado para as pessoas”, um “fazer junto”, marcado pela informalidade e pelo convívio. “Nós tocamos lá coisas que o pessoal nunca tinha ouvido, e nunca ninguém tinha feito isso – reunir pessoas num lugar em que todos estavam tão à vontade, sem agressão, sem violência nenhuma”, comentou Toni sobre a experiência.
A Intimidade do Maestro e Seu Legado Duradouro
Por trás do maestro e fundador, havia um homem de família, cuja vida pessoal se entrelaçava com sua paixão pela música. Sua história com Maria Helena, sua esposa, começou de forma divertida, com ela o confundindo com um instrumentista em um concerto da Rádio Gazeta. Embora Maria Helena não tivesse formação musical, “ela se apaixonou perdidamente por ele e pela música”, conta Claudia Toni. A família, com os três filhos – Claudia, Flávia e Marcelo –, viveu com poucos recursos, mas a paixão e o apoio de Maria Helena eram inabaláveis. “Ela era a cabeça econômica da família e tinha a maior alegria, a maior paixão pelo fato de ele ser músico”, relembra Claudia.
Olivier Toni era um pai presente e amigo, que compartilhava seus projetos e ideias com os filhos. Flávia recorda uma visita ao prédio em construção da ECA-USP, onde o pai, recém-habilitado a dirigir, mostrava o futuro Departamento de Música, fazendo-os “imaginar aqueles blocos de cimento”. Marcelo Toni complementa que o pai “nunca fez segredo, e nos contava com tanto entusiasmo que nos fazia viajar junto com ele”. Sua influência se estendeu a colegas e alunos, como Mario Ficarelli, pai de Alexandre Ficarelli, que se tornou professor na USP a convite de Toni, compartilhando “ideais ligados ao rigor artístico e ao desenvolvimento de uma linguagem musical brasileira conectada às transformações estéticas do século 20”.
Mesmo após sua aposentadoria, Toni continuou a inspirar. Rubens Ricciardi lembra-se dos telefonemas de Toni após a fundação do Departamento de Música da FFCLRP-USP, em 2010: “Rubens, agora vocês têm um departamento autônomo; você precisa fundar uma orquestra. Um curso superior de música não pode existir sem uma orquestra de estudantes de graduação.” Essa insistência culminou na USP Filarmônica e na Sala de Concertos da Tulha, no campus de Ribeirão Preto, que leva seu nome. Como compositor, Toni era experimental, encorajando a invenção e a meticulosidade na escrita, sempre buscando uma linguagem que fosse além das notas, como um verdadeiro artesão da música que via na arte a expressão máxima do ser humano.
Fonte: jornal.usp.br
