Da utopia revolucionária à censura stalinista: Como os livros infantis na Rússia soviética buscavam moldar ‘pessoas novas’ e o que isso ensina sobre a educação e a literatura brasileira

Para o escritor russo Máximo Gorki (1868-1936), “educar é revolucionar”. No cenário de uma nova identidade para a sociedade soviética, o movimento bolchevique – que liderou a Revolução Russa de 1917 – atribuiu especial importância à literatura infantil. Ela passou a ser vista pelo Estado como um meio estratégico para formar homens e mulheres livres da “velha moral burguesa” e trabalhadores conscientes da luta de classes. É desse ponto que parte o livro A Vanguarda do Livro Russo Infantil – Contexto e Diálogos com o Brasil, de Daniela Mountian, recém-publicado pela Editora da USP (Edusp).

Com 368 páginas, a obra oferece um panorama das chamadas “era de ouro” e “era de prata” da literatura russa infantojuvenil, destacando os contextos políticos e sociais que determinaram as escolhas editoriais dessa produção. Além disso, traça paralelos intrigantes com o cenário da literatura infantil brasileira.

As raízes da literatura infantil na Rússia czarista

Antes da revolução, com a ascensão do nacionalismo na Rússia czarista, o movimento romântico direcionou o interesse da população para o folclore e a criação de contos infantis, conforme detalha Daniela Mountian, professora de Literatura Russa da UFRGS. A “era de ouro” da literatura russa brilhou com trabalhos de Vladímir Odoiévski, Aleksándr Púchkin e Ivan Turgueniév, que enriqueceram as skázki (narrativas eslavas folclóricas ou fantásticas). Essas histórias, muitas vezes, ofereciam conclusões lúdicas para estimular a imaginação ou ensinamentos éticos.

Púchkin, o “Sol da Poesia Russa”, que desprezava histórias moralizantes, ainda assim compôs cinco skázki para crianças, como o Conto do Pescador e do Peixe. No século 19, a discussão sobre a leitura infantil já era intensa, e as crianças começavam a ser vistas não como receptoras passivas, mas como futuros trabalhadores e cidadãos. Liév Tolstói, um dos maiores escritores russos, dedicou-se à educação e fundou uma escola para camponeses em 1859, antecipando ideais leninistas de autonomia no aprendizado e contato com a comunidade.

A utopia bolchevique e a ‘nova pessoa’ soviética

A virada do século 19 para o 20 marcou o surgimento da “era de prata”, período de intensas transformações artísticas e políticas. A utopia bolchevique almejava a criação de uma “nova pessoa”, um cidadão liberto das concepções capitalistas burguesas. Para isso, sob as diretrizes de Vladímir Lênin, houve um massivo investimento em alfabetização e na formação de um povo intelectualizado. A literatura infantil tornou-se uma “arma” estratégica do Partido Comunista, explicando às crianças a luta de classes e o valor educativo do trabalho. Mountian descreve esse como um processo identitário complexo, que valorizava a classe proletária e as organizações infantis e juvenis comunistas.

O design dos livros nesse período refletia essa efervescência. Influenciados por diferentes tendências de vanguarda, os livros dos anos 1920, com seus elementos diagonais e linguagem não naturalista, expressavam a ideia de mudança e dinamismo.

A virada conservadora de Stalin e a repressão artística

Contudo, após Josef Stalin assumir o poder em 1927, os valores criativos na educação foram rapidamente substituídos por ideais mais tradicionais, como o patriotismo e o Realismo Soviético. Este movimento cultural e estético oficial, que propagandava o Estado utópico, tornou-se obrigatório. A censura atingiu obras mais lúdicas e fabulares, que poderiam “atrapalhar o pensamento materialista” das crianças. A maioria dos experimentos pedagógicos foi abandonada.

A estética dos livros também mudou drasticamente: “Da segunda metade da década de 1930 em diante, temos uma estética mais conservadora e naturalista, com imagens horizontais e a ideia de uma sociedade consolidada”, explica Mountian. Essa foi uma época de repressão contra qualquer caminho alternativo na educação ou na arte.

Um nome de destaque na produção de poemas infantis nesse período foi Vladimír Maiakóvski, o “Poeta da Revolução”. Sua última paixão, segundo ele, era a literatura infantil, buscando dar às crianças “uma nova percepção do mundo”. Seu livro Conto sobre Piétia, Um Menino Gordo, e Sima, Que Era Esbelto, que hoje é considerado uma de suas melhores obras, foi criticado na época pelo humor supostamente grosseiro. A história, com sua moral explícita contra a burguesia e em defesa do trabalho, exemplifica a intenção educativa política da época.

Diálogos entre a literatura russa e brasileira

O livro de Daniela Mountian não se limita à pesquisa russa, mas estabelece diversos paralelos com a literatura brasileira do mesmo período. A autora explora diálogos comparativos entre obras dos anos 1920, considerando as semelhanças histórico-sociais entre Brasil e Rússia, ambos países com vasto território, longos períodos de monarquia e servidão, e um certo atraso em relação ao mundo ocidental.

Assim como a literatura brasileira se encontrava à beira do Modernismo, sob influência das vanguardas europeias, os projetos russos viviam sua própria efervescência cultural. Mountian compara o escritor paulista Tales de Andrade (1890-1977), precursor da literatura infantojuvenil brasileira, com o russo Aleksei Tolstói (1883-1945). Ambos escreveram romances de formação com protagonistas infantis em processo de aprendizado, como Saudade (1919) de Andrade e A Infância de Nikita (1921) de Aleksei Tolstói. Embora Saudade carregue um forte elemento didático e edificante, o caráter moralizante era uma constante em muitas obras soviéticas infantis daquele contexto.

Outros paralelos notáveis incluem os traços semelhantes entre Cecília Meireles (1901-1964) e Kornei Tchukóvski (1882-1969). Ambos não apenas escreveram para a infância, mas também teorizaram sobre a literatura infantil, demonstrando uma percepção aguçada do universo autônomo da criança e de seu olhar naturalmente poético. Para eles, a literatura para crianças exigia grande talento, sendo, acima de tudo, literária.

O livro A Vanguarda do Livro Russo Infantil – Contexto e Diálogos com o Brasil, de Daniela Mountian, Editora da USP (Edusp), 368 páginas, R$ 90,00, é uma valiosa contribuição para entender como a literatura moldou e refletiu as transformações sociais em períodos de intensa mudança.

Fonte: jornal.usp.br

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