Professores e Pesquisadores da USP São Carlos Debatem os Desafios e o Futuro da Computação na Educação Básica

A sala de aula contemporânea é um ambiente em constante evolução, onde celulares e internet se tornaram ferramentas ubíquas. Neste cenário de rápidas transformações, a inserção de conhecimentos computacionais no ensino básico emerge como um dos principais desafios educacionais. Para discutir e propor soluções, docentes, gestores e cientistas de diversas regiões do país se reuniram no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, entre os dias 6 e 8 de maio, durante o III Simpósio Brasileiro de Computação na Educação Básica (SBC-EB).

Lina Garcés, professora do ICMC e uma das coordenadoras do evento, enfatiza que ‘colocar a computação na educação básica vai além de colocar um computador ou internet em sala de aula’. Segundo ela, o objetivo é ensinar a resolver problemas por meio de um pensamento sistemático e da aplicação de técnicas como o pensamento computacional. Habilidades como reconhecimento de padrões, pensamento algorítmico, otimização e criação de modelos são cruciais não apenas para a área de tecnologia, mas para todas as esferas da vida. A professora também destaca a importância de formar estudantes para um uso crítico das tecnologias, ensinando-os a compreender seu funcionamento, usar a internet de forma segura, evitar golpes e proteger seus dados, combatendo a desinformação.

Além do Computador: Ensinar a Pensar

O Simpósio marcou um novo cenário no ICMC, promovendo uma maior conexão entre a Universidade e as redes de ensino. Lina Garcés expressou satisfação em entender os desafios das escolas e da realidade local, direcionando esforços em pesquisa, ensino e extensão para contribuir com a implementação da computação na educação básica da região. A professora ressaltou o potencial de São Carlos, ‘capital da tecnologia’, e a importância de construir pontes com os institutos de computação locais.

Projetos Inspiradores e o Impacto nas Escolas

Um dos destaques do evento foi a apresentação do projeto Technovation Girls, fruto de uma parceria entre o ICMC e o Centro de Inclusão Digital (CID) de Araçariguama (SP). As professoras Valéria Santiago dos Santos Duarte e Rita de Cassia Mayumi Miyamoto, juntamente com alunas do CID, compartilharam os resultados de sua participação na TechSchool, um campeonato de tecnologia para meninas. Valéria celebrou o impacto positivo na cidade, com 100 meninas envolvidas nos últimos dois anos e duas equipes alcançando o terceiro lugar na competição. Rita de Cassia vislumbra a ampliação do projeto e a oferta de cursos de programação web e letramento digital, proporcionando às alunas uma nova perspectiva sobre suas carreiras e a possibilidade de atuar na área de tecnologia.

Aurélio Bianco Pena, doutorando em Ensino de Ciências na USP e professor da disciplina Cultura Digital no Colégio São Carlos, também trouxe suas experiências. Ele abordou temas como criptografia, inteligência artificial, direito autoral, programação e segurança digital, observando que os alunos desenvolvem um olhar mais crítico para as ferramentas que utilizam diariamente. Aurélio conduziu uma roda de conversa sobre o conceito de colonialismo digital, incentivando a soberania tecnológica e a transformação de consumidores em propositores de tecnologias.

A participação de pós-graduandos da primeira turma do mestrado profissional em ensino de computação (Profcomp), oferecido em rede nacional, também enriqueceu o evento. Paulo Rogério Oliveira, professor da Etec Uirapuru, e Marcos Feitosa, professor de educação física do Sesi, ambos mestrandos do Profcomp, destacaram a valiosa complementação técnica e pedagógica que o simpósio e o mestrado oferecem. Marcos, inclusive, planeja explorar o pensamento computacional na educação física.

Os Obstáculos no Caminho da Inovação

Apesar dos avanços, os desafios na implementação da computação no ensino básico são notáveis. Valéria Santiago aponta a falta de equipamentos, capacitação de professores e material didático como barreiras generalizadas. Ela defende a inclusão da computação na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), reconhecendo a tecnologia como base para qualquer área, mas ressalta o longo caminho a ser percorrido. Rita de Cassia adiciona a essa lista o menor acesso à formação em tecnologia em cidades com menor população, defendendo a ampliação de projetos como o Technovation Girls para redes de ensino mais carentes.

Paulo Rogério Oliveira identifica a dificuldade em desenvolver conceitos abstratos da computação, como a lógica de programação, mas sugere a aplicação a problemas computacionais concretos. Lina Garcés aponta a baixa oferta de formações para professores e a necessidade de melhorar suas condições de trabalho para que possam participar de cursos de especialização e extensão. Aurélio Bianco Pena complementa, mencionando a falta de infraestrutura para preparação pedagógica prévia e a carência de materiais de qualidade sobre temas como plataformização e segurança digital em português.

A USP como Polo de Transformação Digital na Educação

O ICMC sediou a edição sudeste do III SBC-EB, sendo escolhido como polo regional devido ao mestrado profissional em ensino de computação (Profcomp), que iniciou este ano. O evento contou com a participação de alunos de graduação e pós-graduação, grupos de pesquisa e professores das redes de ensino, oferecendo palestras, minicursos, rodas de conversa e apresentação de trabalhos. Lina Garcés celebrou a integração da comunidade e a demonstração de que o instituto é um verdadeiro polo de estudo na área de ensino de computação. Nos três dias de simpósio, foram amplamente discutidas práticas exitosas e desafios, buscando garantir o acesso a conhecimentos críticos essenciais no mundo contemporâneo.

Fonte: jornal.usp.br

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