Anna Carolina Longano Lança “Para Mulheres Feias, Grossas e Mal-Amadas” e Desafia Estereótipos Feministas com Ficção Ativa e Humor Ácido

Quatro anos após a publicação de “Para Mulheres Porcas, Malvestidas e Descabeladas”, a pesquisadora de pós-doutorado da USP, Anna Carolina Longano, retorna com seu sexto livro: “Para Mulheres Feias, Grossas e Mal-Amadas”, lançado pela editora Patuá. A obra de contos aprofunda a proposta da autora de uma “ficção feminista”, apresentando protagonistas femininas ativas e narrativas que subvertem representações tradicionais.

O próprio título do livro, provocativo e direto, reflete a intenção da autora. Os adjetivos “feias”, “grossas” e “mal-amadas” são, segundo Anna Carolina, rótulos frequentemente empregados para desqualificar mulheres que se identificam com o feminismo. “Eu falo que o primeiro conto é o das mulheres feias, o terceiro conto é o das mulheres grossas e o quarto conto é o das mulheres mal-amadas”, brinca a autora, evidenciando a ligação entre os estereótipos e as histórias.

Inspiração Acadêmica e Evolução Temática

A gênese de “Para Mulheres Feias” reside na tese de doutorado de Anna, desenvolvida na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP. Intitulada “Minha Mãe Não Está na Foto: Investigando a Representação Hegemônica da Mulher Ideal e da Feminista”, a pesquisa mergulhou nas lutas e reivindicações femininas no Brasil entre as décadas de 1950 e 1980. Embora o livro seja uma obra de ficção, a autora ressalta que ele é uma “representação artística e de um tempo”, sua interpretação dos temas estudados.

Em comparação com suas obras anteriores, Anna Carolina percebe uma maior aproximação com os feminismos brasileiros e o feminismo negro, além de uma abordagem mais profunda das questões de classe, enriquecendo a perspectiva de suas narrativas.

Contos que Quebram Tabus e Estereótipos

O livro é composto por contos que abordam questões sociais complexas e muitas vezes silenciadas:

  • “Puta Vacilo”: Questiona a maternidade sob a ótica de quem não desejava ser mãe e explora o etarismo, um tema ainda pouco debatido nos feminismos.
  • “Refoga”: Inspirado em “Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira”, de Lélia Gonzalez, o conto narra a trajetória de uma mulher que trabalhou desde cedo em serviços domésticos, percebendo o mundo através dos cheiros – um reflexo da pesquisa da autora sobre os sentidos.
  • “Como o Esperado”: Discute a identidade de gênero a partir da experiência de uma mulher trans, que, ao afirmar seu gênero perante o Estado, confronta as violências cotidianas sofridas por mulheres.
  • “O Último Golpe”: Retoma temas de maternidade e etarismo, focando nos conflitos intergeracionais e na visão de um controle maternal que busca preservar a “família ideal”, desafiando o estereótipo da maternidade ligado à “mulher ideal”.

Protagonismo Feminino, Humor Ácido e Realidade Crua

Um fio condutor em todos os contos é o protagonismo feminino, com personagens ativas que subvertem a figura tradicional da heroína passiva. A autora enfatiza a ausência de passividade em suas narrativas. Outro elemento marcante é a distopia e a presença da violência, que Anna Carolina justifica como um espelho da realidade brasileira. “Porque, se eu estou me baseando no que acontece e aconteceu com as mulheres aqui no Brasil, a violência é meio que uma consequência de toda a violência que a gente passa por ser mulher”, afirma.

A professora Verônica Fabrini Machado de Almeida, do Instituto de Artes da Unicamp, destaca na orelha do livro a característica “cinematográfica” dos contos, descrevendo cada um como um “curta-metragem”. Anna Carolina atribui essa visualidade à sua formação em artes cênicas, onde a escrita é pensada como uma cena.

A autora utiliza um humor ácido, mas com uma particularidade: a piada é feita pela figura subalterna, não sobre ela. Esse tipo de humor pode ser incômodo para alguns, mas a autora explica: “Quando a gente sofre seguidas violências, tem coisas que pra gente já são constantes. Não é que seja normal. Mas elas são tão constantes que a gente consegue fazer piada delas. Para quem não está acostumado com aquilo, pode ser um choque. ‘Como você está fazendo piada de uma situação dessa?’ Você fala, ‘porque cansei de chorar’”.

Anna Carolina revela que seu livro anterior foi considerado “muito violento” por homens, mas não por mulheres, que reconheciam a realidade ali retratada. Por isso, na nota do novo livro, Vitor Freire, doutor em Turismo pela USP e companheiro da autora, incentiva a leitura masculina, afirmando que homens “podem e devem” ler a obra.

Lançamento e Convite à Leitura

O lançamento de “Para Mulheres Feias, Grossas e Mal-Amadas” acontecerá no dia 23 de maio, das 17h às 20h, na Livraria Patuscada, localizada na Rua Luís Murat, 40, Pinheiros, zona oeste de São Paulo. O evento contará com sessão de autógrafos. O livro já está disponível para pré-venda.

Fonte: jornal.usp.br

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