Caio Prado Júnior: USP sediará seminário para desvendar ‘A Revolução Brasileira’ e os desafios do país 60 anos após obra seminal

Caio Prado Júnior: USP sediará seminário para desvendar ‘A Revolução Brasileira’ e os desafios do país 60 anos após obra seminal

Evento na FFLCH/USP nos dias 21 e 22 de maio reunirá pesquisadores e ativistas para debater o legado do historiador e sua visão crítica sobre a realidade nacional, que permanece atual e crucial para entender o Brasil de hoje.

Em 1966, o historiador, geógrafo e sociólogo Caio Prado Júnior (1907-1990) lançou “A Revolução Brasileira”, um livro que se tornaria um marco na análise dos problemas políticos, econômicos e sociais do Brasil. Publicada pela Editora Brasiliense, a obra, com suas 332 páginas, apontava o que o intelectual identificava como erros teóricos e de ação das forças progressistas e sugeria caminhos a seguir. Fundamentado no materialismo dialético marxista, Caio Prado Júnior defendia que as soluções para o Brasil não viriam de fórmulas importadas, mas de um estudo criterioso e aprofundado da realidade nacional.

Seis décadas depois, o legado e a contínua relevância de suas ideias serão o centro das discussões no “Seminário Nacional Caio Prado Júnior – A Revolução Brasileira: 60 Anos”. O evento ocorrerá nesta quinta e sexta-feira, dias 21 e 22 de maio, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Pesquisadores, docentes e ativistas políticos de diversas regiões do Brasil compartilharão suas perspectivas sobre a obra de Caio Prado Júnior, relacionando-a aos desafios contemporâneos do país.

A Crítica à Visão Tradicional da Esquerda

“Caio Prado Júnior estava inserido em um debate marxista da revolução brasileira que começa já nos anos 1920”, explica o professor Luiz Bernardo Pericás, do Departamento de História da FFLCH, autor da biografia “Caio Prado Júnior: uma Biografia Política” (2016) e um dos coordenadores do seminário. Pericás ressalta que o intelectual não foi o primeiro nem o único a abordar o tema, mas sua contribuição se destacou pela originalidade e pelo rigor analítico.

À época da publicação de “A Revolução Brasileira”, o Partido Comunista Brasileiro (PCB), do qual Caio Prado Júnior era membro, e outros setores da esquerda, defendiam que o meio rural brasileiro possuía características feudais que deveriam ser eliminadas por meio de uma revolução democrático-burguesa. Essa visão, que remontava a figuras como Octávio Brandão e suas teorias baseadas em modelos internacionais (como a Rússia czarista e a China), propunha uma revolução por etapas: primeiro o Brasil deveria consolidar o capitalismo, eliminando resquícios feudais, para depois avançar ao socialismo. Para isso, a aliança com uma suposta burguesia nacionalista e anti-imperialista era vista como estratégica.

Caio Prado Júnior, contudo, criticava veementemente essas premissas. Ele negava a existência de um caráter feudal no campo brasileiro, argumentando que o país estava inserido na lógica de acumulação capitalista desde seus primórdios. Além disso, questionava a existência de uma burguesia nacionalista genuína, pronta para se opor ao imperialismo. Sua análise revelava o contrário: setores dispostos a se aliar ao capital internacional sempre que seus interesses convergiam. Para o historiador, esses erros teóricos não eram meras divergências conceituais; eles levavam a ações políticas equivocadas, como a aproximação do PCB aos governos de Juscelino Kubitschek e João Goulart.

O Contexto Explosivo de 1966

O ano de 1966 foi particularmente volátil no Brasil e no mundo. O país vivenciava os primeiros anos da ditadura militar, instaurada pelo golpe de 1º de abril de 1964. No cenário internacional, a Revolução Cubana e a acirrada disputa entre Estados Unidos e União Soviética moldavam os debates políticos. Internamente, a esquerda discutia intensamente as melhores formas de enfrentar o regime ditatorial e conduzir a revolução: via pacífica ou luta armada, focos de resistência ou guerra insurrecional prolongada, aliança de classes ou a aposta no proletariado como vanguarda.

“Na década de 1960 surgem muitas organizações, algumas oriundas do próprio PCB, que estavam justamente fazendo oposição às ideias do partido”, comenta Pericás. “E o livro ofereceu subsídio intelectual para que muita gente pudesse fazer essa discussão.” Apesar de não ter grande influência dentro do PCB, Caio Prado Júnior, como um dos fundadores da Editora Brasiliense (1943), tinha a autonomia para publicar suas ideias e alcançar um público mais vasto. Sua independência intelectual e a agudeza de seus diagnósticos foram cruciais.

Legado e Relevância Contemporânea

As ideias de “A Revolução Brasileira” renderam a Caio Prado Júnior o Prêmio Juca Pato de intelectual do ano em 1966, mas também geraram críticas dentro da esquerda, que por vezes considerava seu conteúdo reformista, especialmente por não apostar na luta armada para a questão agrária.

No entanto, segundo o professor Pericás, “A Revolução Brasileira” é um livro que permanece atual, sendo lido e debatido até hoje. “Se pensarmos nesses anos recentes, em todas as tragédias políticas que passamos, tivemos um processo que se acelerou: desnacionalização de empresas, desindustrialização, reprimarização, avanço do agronegócio, do monopólio da mídia corporativa, ampliação da atuação dos oligopólios das transnacionais”, elenca. A subordinação do Brasil ao imperialismo continua, assim como a precarização do trabalho e o colaboracionismo de classe. “Nós estamos passando por um processo de regressão colonial. E isso significa que a obra de Caio Prado Júnior e de outros grandes pensadores brasileiros ainda é muito atual e importante.”

O Seminário: Debate e Programação

A programação do “Seminário Nacional Caio Prado Júnior – A Revolução Brasileira: 60 Anos” reflete essa atualidade. Serão seis mesas de debates, dedicadas aos capítulos do livro, mas concebidas para expandir as discussões para além da obra. Os debatedores incluem professores e intelectuais de diversas universidades brasileiras, alguns com vínculos políticos em partidos ou organizações de esquerda, e com visões variadas sobre a política, o governo atual e a própria ideia de revolução brasileira. “No fundo, estaremos discutindo o livro e Caio Prado Júnior, mas também o Brasil de hoje”, afirma Pericás.

Entre os participantes, nomes como Milton Pinheiro (Uneb), Antonio Carlos Mazzeo (Unesp), Marcelo Ridenti (Unicamp), Sofia Manzano (Uesb), Carlos Eduardo Martins (UFRJ), Mauro Iasi (UFRJ), Nildo Ouriques (UFSC), Valério Arcary (IFSP) e João Pedro Stédile (MST) prometem debates ricos e multifacetados. Além de Pericás, a coordenação do evento conta com os professores Lincoln Secco (FFLCH/USP), Milton Pinheiro (Uneb) e Antonio Carlos Mazzeo (Unesp).

Quem foi Caio Prado Júnior?

Nascido em 11 de fevereiro de 1907 em São Paulo, Caio da Silva Prado Júnior veio de uma influente família paulista. Embora tenha estudado Direito na Faculdade do Largo São Francisco (1924-1928), dedicou-se pouco à carreira jurídica. Em 1934, frequentou cursos de História e Geografia na então recém-fundada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FCLF) da USP.

Sua trajetória política incluiu a participação no Partido Democrático (PD) e, a partir de 1931, no Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em 1935, foi preso por suas atividades na Aliança Nacional Libertadora (ANL), permanecendo dois anos encarcerado. Após o Estado Novo, foi eleito deputado estadual pelo PCB em 1947, mas perdeu o mandato no ano seguinte com a ilegalidade do partido.

Caio Prado Júnior publicou seu primeiro livro, “Evolução Política do Brasil”, em 1933. Além de “A Revolução Brasileira” (1966), é autor de clássicos como “Formação do Brasil Contemporâneo” (1942), sua obra mais conhecida, e “História Econômica do Brasil” (1945). Ele foi um dos fundadores da Editora Brasiliense em 1943 e, por ela, lançou em 1955 a Revista Brasiliense, que seria extinta pela ditadura militar em 1964.

O “Seminário Nacional Caio Prado Júnior – A Revolução Brasileira: 60 Anos” acontece nesta quinta e sexta-feira, dias 21 e 22 de maio, das 14h às 21h30, no Auditório Fernand Braudel da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP (Avenida Professor Lineu Prestes, 338, Cidade Universitária, em São Paulo). A entrada é gratuita e não é necessário fazer inscrição prévia.

Fonte: jornal.usp.br

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