Acesso a Biópsias e Mamografias é Cinco Vezes Menor no SUS, Revelando Profunda Desigualdade na Saúde Brasileira
Estudo recente da FMUSP expõe disparidades alarmantes entre regiões do País e entre os sistemas público e privado, impactando diretamente a detecção precoce de câncer de mama e colo do útero.
O acesso a exames cruciais para o diagnóstico precoce de câncer de mama e de colo do útero é drasticamente desigual no Brasil. Uma análise conduzida pelo Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) revela que pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) têm acesso a biópsias do colo do útero cinco vezes menor do que as beneficiárias de planos de saúde particulares. A pesquisa de 2024, publicada na revista científica Clinics, destaca uma “dupla desigualdade”: territorial, entre as regiões do País, e estrutural, entre o sistema público e o privado, que se somam para dificultar a detecção precoce da doença.
Os dados mostram que a oferta de ginecologistas e obstetras, essenciais para o encaminhamento e acompanhamento, também é desuniforme. Dos cerca de 35,5 mil especialistas no Brasil, quase metade (46,1%) concentra-se em apenas 16 grandes cidades. Enquanto a média nacional é de 37 especialistas por 100 mil mulheres, regiões como Norte e Nordeste apresentam índices muito inferiores, com cerca de 20 e 25 profissionais, respectivamente.
Desigualdade na Distribuição de Especialistas
A concentração de ginecologistas e obstetras em grandes centros urbanos contribui diretamente para as lacunas no acesso à saúde feminina. O professor Mário Scheffer, coordenador do estudo, ressalta que essa distribuição desigual de profissionais é um dos pilares da disparidade observada. Regiões com menor número de especialistas tendem a registrar menos exames, criando um ciclo vicioso de dificuldade no acesso à prevenção e diagnóstico.
Acesso a Mamografias: A Disparidade em Números
Em 2024, o Brasil realizou 4,7 milhões de mamografias em mulheres de 50 a 69 anos, faixa etária prioritária para o rastreamento, totalizando uma taxa de 21,4 mil exames por 100 mil mulheres nesse grupo. Contudo, a diferença entre os sistemas é gritante: no SUS, foram 16,7 mil exames por 100 mil mulheres, enquanto nos planos de saúde a taxa foi de 36,4 mil – mais que o dobro. Regionalmente, o Sudeste registrou 25,5 mil mamografias por 100 mil mulheres, contra apenas 10,1 mil no Norte, evidenciando a profunda desigualdade geográfica.
Biópsias do Colo do Útero: Um Abismo de Cinco Vezes
A situação é ainda mais crítica para as biópsias do colo do útero. Em 2024, das 176,9 mil biópsias realizadas no País (SUS e saúde suplementar), a taxa nacional foi de 254,4 exames por 100 mil mulheres de 20 a 69 anos. No entanto, no SUS, esse número caiu para 122,8 por 100 mil mulheres, enquanto entre as beneficiárias de planos de saúde alcançou 625,7 – uma diferença de aproximadamente cinco vezes. Mais uma vez, o Sudeste liderou com 333,8 exames por 100 mil mulheres, enquanto o Norte registrou apenas 97,1.
Fatores Além da Presença Médica e Recomendações
Os pesquisadores enfatizam que o acesso a exames não se limita à disponibilidade de médicos. Fatores como a presença de equipamentos, infraestrutura adequada e uma organização eficiente dos fluxos de encaminhamento entre os serviços de saúde são igualmente determinantes. Além disso, as diretrizes para rastreamento também influenciam o volume de exames. Enquanto o Ministério da Saúde recomenda mamografias prioritariamente para mulheres de 50 a 74 anos, entidades médicas orientam o rastreamento a partir dos 40 anos, o que pode contribuir para um maior número de exames na saúde suplementar.
O professor Scheffer conclui que “reduzir essas desigualdades exige políticas que ampliem o acesso ao diagnóstico e melhorem a distribuição de profissionais, especialmente nas regiões mais vulneráveis”. O estudo faz parte do relatório técnico Radar da Demografia Médica no Brasil, uma atualização periódica da pesquisa Demografia Médica no Brasil (DMB), conduzida há 15 anos pela FMUSP em colaboração com o Ministério da Saúde, Opas, AMB, MEC e Fapesp.
Fonte: jornal.usp.br
